quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Luto lento - A Guilda dos Melancólicos - A Senda de Luna - Parte II


Vinte e sete anos decorridos, contas a olho de Anjo, sem exactidão de cálculo pela métrica das voltas do tempo como a supõem os humanos. Numa tarde fria, uma Luna negra perde-se no horizonte, sobre o Tejo e sobre o oceano que se alonga na moldura do seu miradouro do Bairro da Graça. Um rosto de pedra, tez despida de Sol, embora não saibamos ao certo o que se esconda sob o pudor espelhado de umas lentes negras que lhe encobrem meia face. A cidade ali tem uma luz incrível, derramada sobre a cidade num desfoque frio de Inverno e de calma. Quem não sabe a verdade pensará que é por isso que aquela mulher, nas tardes perenes que a prendem naquele promontório, se separa sempre da cidade pelo filtro daqueles óculos desmesurados. Mas eu sei que mais do que da luz se protege Luna da invasão do olhar dos outros, inquisitivos das suas olheiras, pesadas de mais uma noite em que as lágrimas correram até que o sono a resgatasse. Em que pensas, Luna? Tenho estado aqui, sentado sob o muro que se desfaz em vertigem até aos telhados de cor de tijolo lá em baixo, a contemplar-te. Diria que nunca desviaste ao fim deste tempo todo o olhar de um mesmo ponto fixo no infinito. Por isso suponho que nesse lugar distante encontres o reflexo de alguma coisa, seja indagação do teu futuro ou as sombras de um passado. O presente, esse é a peregrinação de um pesadelo de contornos alucinados e irreais. Naquela noite o Mundo, como julgavas que ele era, desfez-se. Nunca tomamos imediata consciência disso. Pode parecer que a violência das primeiras horas nos rasga as entranhas. Mas é essa violência extrema que nos salva de morrermos das lesões internas da alma. Como uma pancada seca de moca no crânio. Explodimos numa dor insuportável e pura e simplesmente perdemos a consciência. O sono é o santuário da dor. Nele até o condenado se evade das garras e dos chicotes do verdugo. Como tu fizeste. Reténs vagamente todas aquelas imagens psicadélicas. O rio roxo. E depois o teu próprio grito. Um grito prolongado, um urro animalesco que te ensurdeceu. E depois os braços que te arrastaram daquele mar, enquanto se abria e fechava a multidão à tua passagem. Uma multidão distante que se liquefez em grão perante o teu olhar no instante em que te sentiste afundar no mar dos sonhos, aquele em que por vezes se evapora a tua consciência, desde criança, nos braços de Natália, nas águas do teu baptismo, submergindo desde a sensação de claridade entrecortada, em que treme ainda a luz do sol a queimar o espelho de água, até que os tons se vestem de sombra negra e mais negra, mergulho cavado no abismo da tua inconsciência. Luna já não sofre, nem sabe que o rio corre vermelho, agora que se apagou a luz dos projectores das fantasias da noite. Santuário para Luna, por enquanto...


All the love gone bad turned my world to black
Tattooed all I see, all that I am, all I'll be...

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Nasce Luna - A Guilda dos Melancólicos - A Senda de Luna - Parte I


Um som seco. Depois um silêncio breve. E depois o deslizar espumoso e claro pelo gargalo da garrafa de Don Perignon. O Cônsul Silveira derrama champanhe pelos copos dos presentes. Sorriso prazenteiro. - “Meus Senhores, vamos brindar ao nascimento de minha filha Luna.” - “Luna?” - Quem pergunta é Márcio, o jovem secretário de óculos rectangulares de massa e cabeleira negra oprimida num risco ao lado luzidio de brilhantina. - “Luna.” - Menos translúcido agora o sorriso, pelo menos na dimensão do pensamento do Cônsul. Luna, salvo-conduto místico para que a semente fosse perene no ventre de Natália. Cinco anos antes, no Verão de Poços de Caldas, um Fevereiro longe no tempo e no espaço daquele Fevereiro nevado da fria Zurique, em que os flocos caem com a leveza de plumas, depositando-se no relevo lá fora. Mas não, recua mais nessas impressões vincadas em ti, Caio. Sete meses antes, quando soou a voz rouca de fio de telefone de Natália para te dizer - “Estou grávida.” - E agora vai algumas horas mais tarde, ao apartamento de Brasília, quando Natália se sentou de pernas cruzadas sobre o tapete de pele das almofadas brancas e pretas e arriscou - “Vai-se chamar Luna... ... se for menina...” - Caio subia os olhos ao tecto. - “Natália...” - “Por fav...” - “Quantas vezes eu tenho que falar pra você não pensar em bobagem?” – Trejeito com a boca, súplica, mesclada de vergonha nos olhos mel. - “Então, você queria Mara...” - “Mas...” - O dedo gentil cerra os lábios e a réplica não nasce - “Orixás... bobagem...” - Podes voltar a Minas Gerais, Caio. Não querias entrar no quarto. Tu já sabias o que te esperava naquele compartimento de fundo de corredor. Levavas um nó górdio preso na garganta. A meio corredor cruzaste a enfermeira escanzelada. Apertava um embrulho contra o peito. Deve ter sido a primeira vez em muitos anos que sentiste correr-te uma lágrima. Nesse dia correria um dilúvio. Estagnaste o passo e esticaste a mão. O colo da rapariga esquivou-se. Meneou a cabeça. E tu baixaste os olhos. E depois cobriste-os com os dedos. Falta só entrar no quarto, Caio. Querias tão simplesmente partilhar a tua dor com Natália. Mas há um peso de culpa que carregas no peito que é só teu e ao qual os olhos de Natália pesarão. Porque é que não consentiste? Era só um nome. A morte de uma filha recém nascida é preço demasiado para uma teimosia ao Pai de Santo. Sempre foste um céptico, obstinadamente céptico. 
Mas finalmente nasceu Luna, a menina que teria que ter o seu nome para que vivesse e cumprisse um destino. Palavra de Pai de Santo.
É por isso que o momento é de festa no Consulado brasileiro na Suiça: o Cônsul Silveira é pai de uma menina linda e que tem o ar espevitado da mãe, assim afiançava a sogra, mulher entendedora de coisas da búzios, orixás, candomblés e pais de santos, bem como de outras artes tão poderosas como improváveis e de que não lhe ocorre agora o nome. Mas, é certo, agora Caio já não sobe ao ringue para levar o oculto ao tapete com golpes convictos do seu racionalismo. Luna chamar-se-à Luna e esse é ponto dogmático até para o pai. – “Olhe lá, seu copo está vazio, que é isso menina...” – a garrafa ainda tem champanhe que baste no ventre. Dentro em breve o cinzentismo voltará à austeridade dourada daquele gabinete mas, por enquanto, reine o burburinho daquela meia dúzia de pessoas a bebericar champanhe e a calcar o excelso arraiolos que ofereceu a diplomacia de Lisboa, tudo sobre o olhar, por hoje tolerante, de um circunspecto Geisel, busto empertigado a dominar com punho de ferro aquela missão diplomática, pelo jugo da sua presidencial foto de praxe, pose marcial na moldura da parede. 


Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem chamam mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas, e fazem do amargo doce e do doce amargo”.



segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Explosão - A Guilda dos Melancólicos - Génesis - Parte X


Para lá das portas estanques dos lavabos uma língua de som abraçou-as. O rufar das peles tribais crescia agora na cadência do house, debitado pelas colunas suspensas do tecto. A sala tornara-se mais azul. E mais psicadélica nas figuras de luz projectadas sob parede, vidro e pele. Três negros de calças largas de linho e tronco nu oleado fustigam o ritmo, abraçando os seus tambores tribais ao longo das escadas de acesso ao topo da estrutura. Três dançarinas seminuas correm sobre o bar, frenéticas, arquejando o corpo num bailado possesso, enquanto cospem labaredas de fogo. Curvado sobre si, como num esgar de dor, um maciço eslavo, colete sobre o tronco e kilt, sopra do saxofone notas anárquicas de jazz que sobem na atmosfera para lamber as chamas e pelejar na cadência profunda do som num armazém à beira Tejo.
A noite solta os seus demónios no Lux. Os risos e os olhares. Para ela. Para quem aceite o convite que foge logo que pousa. Para o nada. Talvez eu próprio que sou Anjo esteja possesso pelo pecado sem pena convencionada que aqui grassa. Corro. Voo! Sobre, sob, por entre todos. Vou veloz e intermitente, na convulsão semi-racional da minha vertigem que mistura o que vejo com a pulsão dos sentimentos que só eu posso verter num cálice e tragar, ávido eu do vosso absinto mortal, para que na minha síntese sobre-humana se perceba o delírio da vossa humanidade nesta noite. Escorrer como uma baga de suor pelo seio de uma bailarina negra. Uma gargalhada. Dois corpos que se esmagam contra uma parede. Mãos calejadas sobre uma pele curtida. Estremece a noite sobre o baixo dos colossos de som. A língua de Pedro na boca de Sara. Hálito. Vodka. Saliva e tabaco. Os corpos contorcem-se e exorcizam-se em dança, à mercê do coração do gigante que nos trás tragados nesta noite. Há vidro a ferir vidro em brindes de cor e olhares onde brilha um rasto de cocaína sobre uma mesa. - “Os dois, Luna....” - “Amo-te João.” - A estrada branca desaparece. E o beijo canibal rasga-se num voo sobre o Tejo como se anjos como eu fossem. O som dilui-se. Já nada sei do metal do saxofone e do chamamento do tambor como linhas distintas da partitura. Tudo se funde na fornalha. Corre de novo o rio cá dentro. E bate a água e os risos e o ofegar dos amantes e o troar da tempestade lá fora que veio repousar e castigar-se sobre nós. Juraria que arde um fogo dentro das pupilas de Neusa, a morena que chove vodka sobre os copos. Uma veia azulada desenhada sobre um crânio liso. Uma boca de dentes perfeitos. Um grito: “Vem aí a hora, meus queridos! Bebam. Solteeeeeem-na!”. - O repto prolonga-se na chuva. E é amputado por mais um trovão. Sobre todos desce um relógio de igreja, queda monocórdica, suspensa em cabos de aço. Máquina violentada de torre de templo por garras míticas. Um ponteiro gigante de ferro forjado marcha em passo mecânico na direcção do abismo e queima os últimos segundos de 2003. Quarenta segundos. Clarão de relâmpago lá fora. Trinta e nove. Uma chuva de comprimidos sobre a mesa. Trinta e oito. A mão de Pedro aperta a mão de Sara. Trinta e sete. Cospe-se uma labareda de fogo. Trinta e seis. Grasnar do saxofone. Trinta e cinco. O abocanhar selvagem de uma boca. Trinta e quatro. Eduardo aspira fumo de cigarro e sorri. Trinta e três. Filipa morde o lábio. Trinta e dois. O eco seco do ponteiro avança uma casa. Trinta e um. Cocaína em onda sob a lâmina plástica de Sérgio. Trinta. Som seco de bala na câmara. Vinte e nove. Um corpo frágil voa de encontro à parede. Vinte e oito. A língua de Carlos na boca prostrada do mulato. Vinte e sete. O brilho de alianças e o deslumbre de Luna. Vinte e seis. Uma cabeça grisalha repousa na almofada. Vinte e cinco. O rosto de Ana contra o vidro sem letras. Vinte e quatro. “Luna, casa comigo.” Vinte e três. “Ana, casa comigo.” Vinte e dois. Sara aperta um talismã contra o peito. Vinte e um. Dedos esguios sobre vinil. Vinte. Um sorriso amargo de Pedro. Dezanove. Beijo no cano de arma. Dezoito. Mão entre pernas esguias. Dezassete. Um trago em chamas. Dezasseis. Uma oração. Quinze. “Sim, num olhar. Felicidade.” Catorze. Fogos distantes. Treze. Um beijo viril num sorriso perfeito. Doze. Um anjo negro. Onze. Uma veia azulada e uma gargalhada histérica. Dez. Uma caminhada decidida entre a multidão. Nove. Sono. Morte branca. Oito. “Amar-te-ei sempre, Luna.”, Sete. Um ponteiro gigante e inadiável. Seis. As águas agitam-se lá fora. Cinco. Um punho cerrado liberta o demónio em ódio no corpo de Bruna. Quatro. Um braço armado que se ergue. Três. O sorriso imenso de João. Dois. Sara fere a carne num talismã. Um. O anjo cerra os olhos. Amén...
Começou. 


Ontem um amigo dizia-me que finalmente tinha experimentado a perda. Em muitos anos de vida tal não lhe tinha acontecido e isso evitara uma espécie de crescimento aparentemente inevitável. Com essa inesperada e inusitada perda chegou a tomada de consciência insuportável de que há situações irreversíveis. A convivência com a perda é um processo doloroso. É querer tapar um grande buraco quando sabemos que a terra nunca mais terá ali a mesma forma. Mas nada de dramas: um comprimido de Cipralex de manhã e meio Triticum meia hora antes de deitar para os dias serem curtos, meu querido.


Premonições - A Guilda dos Melancólicos - Génesis - Parte IX


Onze e meia. Mais alguns segundos. Sara ainda finge que lê alguma coisa no mostrador minimalista do Gucci de platina. - “Que se passa, Sara?” - Encostada com as costas à pedra negra da parede, Filipa fita-a. Sorri. Mas a preocupação nos seus olhos negros é translúcida. Sara baixa o rosto, incapaz de encarar a inquisição e apoia as mãos delgadas sobre a bancada. –“É aquela história, não é?” - abana a cabeça em desaprovação. -“Então...?” – Filipa toma a irmã num abraço, afagando-lhe os fios de cabelo loiros. Sara olha o espelho e procura nessa dimensão paralela uma fuga embaraçada do olhar protector da morena. -“Filipa, ele fez-me mal, eu sinto-o.” – “Sara, as cois...” - “Filipa!” -Rouba-se ao abraço e esmaga o corpo contra a pedra. -“Ontem o avô visitou-me...” -os olhos inundam-se de água como se de dentro de Sara brotasse a tempestade que se abate lá fora. O rosto contorce-se numa máscara de dor. -“Sara, o avô morre...” - “Beijou-me a testa e chorou! Chorou aos pés da cama, como uma criança, como no dia em que enterrámos a avó. E depois foi-se embora. Quando acordei o quarto cheirava a flores e o Bernardo arranhava a porta!” - Deve ter decorrido um momento que pesou o insustentável. Que dizer? Como não trilhar também ela os caminhos dos medos partilhados? Por fim baixou os olhos e sorriu. “Sara, o Bernardo arranha sempre a porta. O Pedro tem razão quando diz que o teu cão é o setter mais idiota que a Irlanda alguma vez pariu...” - Ri-se e levanta os olhos. Sara enxuga as lágrimas e esboça, ou tenta, esboçar, um sorriso. -“Não é nada! Não digas mal do Bernardo. Oh pá... Ele só tem respeito ao Pedro e ao Pai...” - “Anda daí.” - “Desculpa Filipa, tenho andado...” - “Eu sei.” - “E o Pedro, não achas que ele está estranho?” - “Há pouco o Hugo ligou-lhe. Sabes como são aqueles dois com trabalho. Nada que os beijos da minha mana não façam esquecer.”
Saíram.


O país está em ruínas, as cinzas cobrem tudo como uma metáfora da opressão, da finitude, da inexorabilidade do destino brutal. Debatendo-se entre a dor e os fantasmas de entes queridos, o velho Dastaguir parece ele mesmo um ser fantasmagórico, cansado e errante. O que dizer para o neto que ficou surdo e ainda vive no mundo de fantasias da infância? Como encarar o filho e dizer que tudo está perdido? Como manter a fé quando tudo está se decompondo ao redor?


domingo, 26 de agosto de 2012

Um sinal - A Guilda dos Melancólicos - Génesis - Parte VIII


Já Ana, regressada ao primeiro andar, cola a testa ao vidro frio e vê escorrer as bagas de água lá fora. Vibra o compasso anestésico do house na sala. Mas dentro dela voga o deserto. - “O grande passo é amanhã...” - Do sorriso afável do músico, a frase transverte-se de inquietação para o espírito de Ana. Desde que soube definir o nó de marinheiro que lhe estrangulava o peito que repetiu para si própria:  - “É ansiedade, Ana, é só ansiedade.” – Mas como explicar a si própria que desenha com o indicador a palavra “melancolia” na ampla vidraça desfocada pela neblina da sua respiração? Olha para o céu. Nem um sinal. -“Um sinal, o que eu não daria por um sinal, Deus meu!?” – Talvez seja por essas paragens longínquas que as suas fugas de si mesma sempre deambularam. Às portas do céu, em busca de um âmago em si, a evasão do inferno do seu desnorte. Mas faltam... ...quantas horas faltam, Ana? 18 horas! - “Champanhe, Ana?”- o barman de olhos rasgados e cabelo preto revolto no brilho do gel oferece um meio sorriso sedutor. Acena que sim e rouba uma flauta ao espelho de prata do mestiço. O primeiro trago esgota quase que toda a bebida. Cerra os olhos. Não viajou. Está lá, mas reza. Nós sabemos, Ana.

“Um Sinal. Um sinal. Deus, pedir-te-ei tanto?”-Compasso de silêncio na vaga espera de uma réplica. Nada. Apenas a profundidade da própria respiração, oprimida por uma força tão invisível quão inabalável. - “Sim, Hugo, meu velho. Fala agora. Aqui ouço-te melhor.” - Ana abre de novo os olhos para o outro dos dois mundos em que é inquilina. Nas suas costas, alguém tomou o seu lugar junto à vidraça. Com uma mão afaga o cabelo castanho para trás da orelha, com a outra molda o telemóvel à face. Também olha a chuva que fustiga em compasso ascendente, como uma partitura trágica – que se ouvem distintamente a tempestade e os trovões que galopam nesta direcção -absorto na conversa. -“Já tens então novidades? Sim. Claro… Eh pá, claro que quero! A Sara? Sim... ...bem sabes que sim. Que merda de pergunta é essa, Hugo?! Claro! Porra! Não me vais deixar assim! Está bem. Ok, ok… Já percebi, já percebi que são más notícias. Só não percebo o que é que tem a ver com... ... está... ... amanhã? Jantamos. Não? Está bem, encontramo-nos no escritório. Sabes uma coisa? Alguém escreveu algo aqui no vidro... ... “melancolia”. Diabo de presságio para uma passagem de ano, não dirias?” - Um silêncio incomodativo do outro lado. - “OK., não digas mais nada. Tens razão no que costumas dizer, a vida é uma puta. Que se lixe. Carpe diem! Vou beber. Bom-Ano, amigo!” - O estranho meditou por um segundo, encenou um sorriso, meneou uma negativa que a Ana pareceu nada convicta, penteou a franja de cabelo brilhante com os dedos e atravessou o corredor perdendo-se entre os convivas. Ana retorna com os seus olhos amendoados à ampla janela. Esquece-se primeiro na estrada húmida lá fora, reflectindo as cores dos focos urbanos em espelhos de água sobre o alcatrão gelado de Inverno. Depois mais além, na pedra branca de luz holofótica da Cúpula do Panteão. Aquém, naquela vidraça. As letras da palavra “melancolia” que poucos antes rabiscara, haviam-se dissipado na moldura de vapor. Resta uma letra. “N”, absolutamente preservada, como que disparada a solo, num tiro seco de carabina providencial. Talvez não seja nada, Ana. Apenas uma cambalhota do acaso de vapor e pele sobre vidro. Sabe-se lá... ...Mas agora é tarde para filosofar entre mitos e razões. Porque as pupilas da jovem de longo vestido azul se dilatam no choque de ter vislumbrado uma nesga de divino, para depois se cerrarem as pálpebras numa prece.

Ana já tem o seu sinal.


Desconfio que ainda não reparaste que o teu destino foi inventado por gira-discos estragados aos quais te vais moldando


Ana alheada - A Guida dos Melancólicos - Génesis - Parte VII


“Como está, Sérgio?”- o músico sorri prazenteiro -“Já sei que amanhã...” - Ana meneia a cabeça, afirmativa. –“Pronta para o grande salto no vazio?” -a resposta não foi imediata. A resposta, na verdade, nem chegou a ter lapso de elaboração mental, sobrando a máscara facial de uma Ana ainda não completamente regressada de mais uma viagem. -“E trabalha hoje?”-“Claro. O casamento é só às seis.” -Teria feito uma pergunta absurda? Pensava que não. Mas sentia que aquela resposta, colocada em acorde óbvio, não lhe permitia ter a certeza de que o óbvio era mesmo óbvio. Sorriso com sabor de “deixa em falso” no rosto enrugado. Que mais dizer? “Nada dizer é mais seguro.” – conclui - “Sérgio! Meu querido. Falava de si há pouco. Ah, você não é bom! Com certeza que não!” -Carlos salvava o momento. Um aperto com uma mão, enquanto a outra se depositava delicada no ombro do músico. Alto, esguio, na sua camisa laranja de botões de veludo, contraste maniqueísta com o crânio luzidio, mais do que o rosto, cinzento da barba de três dias. Ao músico impressionava a veia que se desenhava em trespasse sob a pele, intermitente com as vocalizações do interlocutor, numa lógica de “causa-efeito” que Sérgio não chegava a entender completamente. -“Conversava com Ana...”-“Ah, sim, a nossa bela Ana. Mas... ... fugiu, a cabra! Mas meu querido, vai ser uma noite inesquecível! Que horas temos? Onze e dez. Há que colocar o circo na estrada. Mas... ... se não é ele! Diogo! Meu rico!” -acabado de entrar pela porta VIP, o actor, rosto húmido da chuva que se enfurecia lá fora, retribuiu com o seu sorriso perfeito e com um gesto para que o aguardassem. - “Champanhe. Ah, nós precisamos de champanhe!”


Os gregos descobriram o número de ouro, uma relação de proporções que obedece a uma escala constante. Seu padrão é uma relaçãode um lado com dimensão “1” e outro com dimensão “1.618” ou “0,618”


sábado, 25 de agosto de 2012

A tangência de destinos cruzados - A Guilda dos Melancólicos - Génesis - Parte VI


O absolutamente inadiável cativa-me a atenção para um olhar analítico que varre a sala, logo para além do lancil que acabei de subir. Com a tez derramada entre luz e sombra, Ana morde o dedo, pensativa, como faz tantas vezes. Hesita e observa de novo em redor, olhar de espreita inquisitória, na penumbra de rosto apoiado sobre o polegar, antes que se lance a pisar o caudal de veludo que veste a escadaria. Por fim decide-se a descer. Na brevidade desse momento, até que seja tempo de sorrir ao convidado que chega, os olhos castanho avelã perdem-se de novo para lá do cimento e do Microcosmos azul, em latitudes de que nada sabe ninguém. Desce indiferente aos olhares que a fitem. Meia escadaria, cruza o passo com um par que sobe abraçado. João caminha por adivinhação do relevo dos degraus que não pode ver. Segue imerso num beijo carnívoro no pescoço descoberto de Luna. Ela semicerra os olhos negros e orienta os passos na subida à sala superior. Não conseguirão ir além do desmesurado pufe de pele branca, logo para além da escada. Com os corpos moldados ao toque frio do repouso fofo de um milhão de bolas de esferovite. Fundidos entre si, ali ficarão num beijo, entregue na fronteira indistinta entre o sublime do amor e a voracidade da carne que os magnetiza, com as mãos sôfregas e alheias ao mundo de que apenas retêm a batida que lhes ribomba no peito e que se confunde com o compasso cardíaco da própria emoção. João, o gigante corpulento de cabelo marcial e traços arianos ama absolutamente Luna. Sentimos isso como algo dogmático neste nosso início de jornada. E Luna, a morena de olhos negros líquidos e sorriso aberto ama João e quer dizer-lho para lá de toda a dúvida no afecto amputado da realidade com que ali, submersos no som e absortos da multidão, lhe afaga o rosto. No imaginário dos dois, aquela massa disforme de pele onde repousam é a única coisa que os acompanha na viagem inominável pelo vazio onde só eles têm lugar. “Vou buscar uma bebida.”- João levanta o corpo dormente, coça a cabeleira eriçada de louro quase branco com as pontas dos dedos e acena com o sorriso desmesurado que só ele tem e que desarmou Luna desde o primeiro olhar. Desaparece na direcção do bar. Luna sorri, feliz. Primeiro para o gigante enquanto o pode ver a dissipar-se entre os convivas, depois consigo mesma, olhos perdidos no acrílico da mesa, enquanto acende um cigarro. Pela primeira vez a atenção dispersa-se para a conversa vizinha. Um fulano, mais novo do que João, com certeza, fala para um círculo em seu redor: um miúdo -não deverá ter mais do que os seus vinte anos – fisionomia vagamente árabe e cabeleira negra presa em rabo-de-cavalo, uma mulher loira, pela sua idade, rosto delicado e sardento. Uma outra, adolescente, moreníssima, de cabelo escuro em mil e um canudos que lhe emolduram o rosto. - “À noite, todos os gatos são pardos. Talvez seja por isso que lhe dedico um misto de encanto e cepticismo.” - beija um gole do copo meio de whisky - “Uma deliciosa gaiola de possibilidades infinitas para nós predadores maldicentes, meus caros!” -A sardenta ri e lança-lhe um olhar lânguido, puxando-lhe com ternura o queixo para um beijo. Luna sorri, voyeurista. Reconhece por ali algo de genuíno e de entrega que a recorda do beijo ainda quente na sua boca. Não o sabe, sabemo-lo nós, chama-se Sara a mulher loura e de nariz polvilhado de mil sardas cor de mel. E também sabemos que Sara ama Pedro, o orador convicto a quem Luna roubou uma migalha de mais um dos seus discursos. E mais, sabemos que Pedro ama absolutamente Sara, ainda que aos olhos de Luna pareça por um instante que lhe morde os lábios mais com a vaidade de um César do que com prostração de um devoto.”- Mas eis que João regressa, sorridente, um copo em cada mão. Acabou o instante invasivo de Luna. Já não presta atenção aos seus vizinhos quando Pedro imobiliza o olhar num canto mais distante da sala e pede num sinal grave para que todos se aproximem a escutá-lo. Sussurra: “Ora cá temos um exemplo académico do que vos falava. O tipo mais alto junto ao bar? Colete… É Judite. Chegou a sair com a Lemos do escritório. Ainda foi durante o estágio. Rafael, creio... Agora, e não olhem à descarada... ...junto à janela deste lado, o artista atarracado de fato, ar eslavo... Máfia de leste.” - ” Como é que sabes?”- “Conheço a cara da Boa-Hora. Quando lá correu o caso dos dois miúdos que tinham abusado do outro puto. Este mamífero estava a ser julgado na mesma Vara. Assisti a algumas sessões do caso. Documentação falsa. Lenocínio. Ofensas corporais. Era uma festa e os processos dele parece que se acotovelam nas secretarias judiciais. Para o caso interessava uma cena qualquer de pancada na noite. Coisas de seguranças. Uma merda assim. Peanuts. Julgava-o preso ou extraditado... Enfim, Deus abençoe as criaturas da noite. E que o Rafael nos livre aqui do Vladimir Putin.”- Travo de cigarro - “Não posso deixar de pensar que faltam aqui as tuas duas amigas putas para que o ramalhete de aves raras se complete.” - Sorri provocador e levanta uma sobrancelha para quem ninguém duvide que ironiza. - “Lá estás tu Pedro! Elas não são putas…” - “E são o quê?” - Pedro troca um olhar cúmplice com Eduardo. Sara levanta os olhos e franze o canto do lábio. Pedro o dogmático, o dono da verdade, senhor de todos os catálogos sobre o Universo. “Pedrinho, elas não são putas…” - “Porquê? Andam com os gajos porquê? Pelos seus lindos olhos? É porque o preço não é acertado antes? Porque não passam recibo?” - “É fuga ao fisco!”- remata Eduardo com a estupefacção teatral de quem diz “Eureka!”- Filipa ri, neutral, rosto inclinado sobre o copo, sorvendo a palhinha amarela, sem ainda assim descolar os olhos do debate que segue meneando a cabeça como se o seu lugar fosse numa plateia de ténis. - “Vou à casa-de-banho.” - “Os serviços serão dedutíveis dos impostos?”- Os dois irmão riem-se e ferem os copos num brinde. Filipa ri. Ri sempre. Raramente intervém. Sara já lá não está para responder nem tão pouco para escutar. “A sério que não percebo essa linha. A puta, o casamento de interesses, o amigo rico que paga uns jantares, umas escapadelas paradisíacas de fim-de-semana. E então? A diferença. Um negócio mais explícito. Pago para te foder? É isso? Porra, pá! A linha devia ser na nossa honestidade. Nos motivos pelos quais fazemos as coisas. Pergunta metódica. Os meus sentimentos são baços ou cristalinos? O que me trás aqui?” - “E dormias com alguém por dinheiro?” - é Filipa quem pergunta. A questão era certamente provocatória. O próprio Pedro observava frequentemente que quase sempre o interlocutor escorregaria nas fragilidades do que ele próprio dissesse e pensasse que pensava.  - “Por dinheiro?” - “Sim, ires com uma gaja para a cama por dinheiro. Por um emprego. Por tudo. Menos amor ou atracção.” - Pedro pensa. Levanta os olhos ao tecto e franze o lábio como é seu tique - “Dormir sem atracção... Suponho que não o faria. Acho francamente que não o conseguiria mesmo que o quisesse fazer. É a minha primeira causa de estupefacção. Sobretudo nas gajas. Ir prá cama com gajos que não as atraem. Ou que lhes causem mesmo asco! Mas mesmo nas situações cinzentas. A vida é sobretudo cinzenta, convenhamos... ... por exemplo, Pipinha, esquece o príncipe encantado e o velho Scroodge. Isso é fácil... ... mas e agora o tipo banal que não te atrai. Também não te repugna. É o tipo normal com que simplesmente não te vais em princípio envolver. Mas o dinheiro fala mais alto. E então, uma gaja dessas - inverte a pessoa da hipótese, que lhe parece indelicado colocar a ideia em Filipa - depois de se levantar da cama onde o gajo fuma o cigarro. Sabe porque o fez. Será que na casa de banho, quando olha para o espelho, não pensa, “Não sei quantas, tu és uma puta.”? – Filipa não sabe o que responder. De facto nunca pensou muito no assunto. Concorda vagamente com Pedro. Uma mulher descer tão baixo também lhe parece algo de muito pouco aceitável. Mas francamente não sabe. Tem 17 anos e a vida simples de uma miúda que não tem demasiado que a apoquente. Poder-se-ia dizer que é etérea. Mas Filipa também é arguta pelo que se sabe salvar dessa acusação, que não deixa de ser uma meia verdade. Gosta de Química e de Biologia: vai seguir Medicina. Também a História a faz voar nas asas do imaginário, pelo que se fascina com o discurso eloquente do namorado da irmã, nas suas longas dissertações sobre os mil assuntos que lhe ocorrem. Também gosta de basquetebol. E de roupas de marca. E da praia, e da noite e de Miguel, o namorado que ainda não tem a certeza se tem. Nunca pensou francamente em prostitutas nem nos porquês desse e de outros universos. Com 17 anos não é tempo de pensar nessas coisas, tão distantes da sua idade e do seu mundo. Mas agora pensa que Sara demora. - “Vou ver da minha irmã.”- “E tu, o que achas de dormir com uma prostituta?” - Eduardo aspira o fumo de tabaco de modo que a voz lhe sai mais quebrada do que o é naturalmente: “Não sei. Acho que é tudo uma questão de escolha. De opções. Eu não o faria, acho eu. Não me revejo nessa necessidade. Nesse acto tão puramente físico. Mas isso sou eu. Dos outros não sei.” - “Eu acho que é a degradação do outro e a nossa degradação. Suponho que haja nuances entre os motivos que levam uma mulher a prostituir-se. Da escravidão ao luxo, passando pela necessidade. Mas no fim da estrada vai dar no mesmo. Vende-se o corpo e perde-se a alma pela opção inaceitável. Há sempre uma saída! Esqueçamos agora a escrava sexual que essa é um caso de polícia. De resto, são todas literalmente umas putas. Dê por onde der, a escolha foi delas! E o gajo que dorme com ela, não sei se a deita ainda mais a perder, porque é a procura para o mercado ou também se perde ele. Em qualquer caso penso que me mete nojo.” 


Fui procurar um desses homens que passam por sábios, certo de que poderia pôr à prova o oráculo e dizer-lhe claramente em seguida: eis um homem mais sábio do que eu e tu declaraste-me o mais sábio. Examinei então atentamente esse homem e, à medida que fui dialogando com ele, a impressão com que fiquei foi a de que esse indivíduo parecia sábio para muita gente, sobretudo para ele próprio, mas de que modo nenhum o era. Retirei-me pensado que afinal sou um pouco mais sábio do que ele. Com efeito é possível que nenhum de nós saiba nada de importante; só que ele pensa que sabe, embora não saiba; ao passo que eu, se nada sei, também não considero que sei. Em suma, parece-me que sou um pouco mais sábio do que ele, mais não seja por não considerar saber aquilo que não sei.


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A última venda do ano - A Guilda dos Melancólicos - Génesis - Parte V

Bruna passa água no rosto. Olha o espelho. A pele parece-lhe cansada. Hoje preferiria ir para casa. Mas não é noite de ir para casa. Pouco passam das onze. É noite rica. Portanto é noite longa. Tempo de se lavar e de voltar à pista. Ao circo, como lhe chama Renata, a mulata. Ouve a porta a fechar no trinco. Aquele foi-se. Tira as notas do wonderbra e confere. Cento e cinquenta Euros. Veio-se em menos de nada. Ainda tinha mais pressa ele do que indiferença ela. Devia ter a senhora à espera para o Reveillon. Não saberia. Este careca não era dos habituais. A Passagem de Ano é uma data atípica. A calhar, nenhuma das caras costumeiras aparecem. E no entanto podem vir os gajos mais díspares que não vira antes e provavelmente não voltarão. Pelo menos é o que dizem as outras raparigas. Bruna ainda não teve tempo de saber por si mesma. Aterrou em Abril na Portela. Foi há oito meses. Poderia ter sido há oito anos. A incoerência do turbilhão na sua vida roubara-lhe a noção do valor do tempo. Olha a cidade lá fora pela varanda deste andar alto, enquanto a televisão ligada no quarto contíguo lhe entretém o ouvido na voz monocórdica que debita notícias -“...Nações Unidas, que vistoria uma dezena de locais por dia, completou ontem um mês de trabalho no Iraque. Por regra o acesso é-lhes franqueado após curta resistência, mas no centro da investigação militar de al-Raya o chefe da guarda informou o líder da equipa de inspecções que não tinha chave para abrir o cadeado da corrente que bloqueava o portão de entrada”. -Bruna não sabe onde é o Iraque. Mas sabe que gosta de olhar o céu. Um céu limpo, embora sem as estrelas do firmamento de uma vila algures no Nordeste do seu país Natal que lhe deixa saudades. Do céu cuspido de mil estrelas, do bailado de luz dos pirilampos na noite, do calor a afagar a face e a dolência de mais um dia vivido assim na pobreza morna. Saudades? Não sabe ao certo o que o coração lhe diz do seu Brasil nem o que lhe diga desta terra. Nada é perfeito para a morena que não deve ter nascido para ter fácil. Acende um cigarro e aspira o fumo, pensativa, por um segundo. Depois olha para a aliança de ouro que trás no dedo. Ainda não tinha pensado nisso. Tira-a e vê a inscrição gravada no interior. -“Filipe... ...tudo mentira, até no nome.”-Recoloca o anel e esboça um sorriso irónico. É uma expressão quebrada. Amanhã faz 19 anos. Parabéns Bruna. Anda mulher, de volta ao circo!


hey Charley, for chrissakes, do you want to know the truth of it?
I don't have a husband, he don't play the trombone
and I need to borrow money to pay this lawyer
and Charley, hey I'll be eligible for parole, come valentines day.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

A festa azul - A Guilda dos Melancólicos - Génesis - Parte IV

Agora os meus pés já sentem o cimento húmido sob si. Ouço o ranger do cordame largo que prende um velho rebocador enferrujado ao cais. Alguns metros mais para lá, pulsar de vida a contrastar com aquela relíquia que me garatuja o olhar, o armazém. Por aí, uma pequena multidão comprime-se em formação caótica junto à entrada de onde derrama uma luz azulada de néon. Chove amiúde, sobre esta espera estóica pincelada de reflexos prateados sobre corpos esguios, casacos longos e rasgos de cores berrantes nas fibras que vestem a pele. É uma tropa heterogénea. Bruno que abraça a namorada pela cintura com um braço, enquanto que com a mão que lhe sobra levanta a aba do casaco, esforço mais ou menos vago de se proteger da chuva que já sente na pele. A Rita, de t-shirt laranja que floresce sob o castanho felpudo do longo casaco. Tira o maço de tabaco do bolso de ganga desgastada e curva-se sobre si a tentar acender um cigarro. Alguns escolheram o fato-e-gravata e o vestido de cerimónia para esta noite. Para outros dir-se-ia que é só mais uma noite. Para alguns é mesmo. E eu penso que é curiosa esta necessidade humana de símbolos e ciclos da vida. Um compasso chega ao fim e a velhice do tempo dá lugar à renovação. Tantas vezes a renovação de absolutamente nada. Apenas da fugaz e vaga esperança de que as coisas pudessem ser diferentes. Raramente o são. E no entanto, esta noite e o seu ritual, pelo menos nesta parte do Mundo, não deixa de se repetir. Ano após ano... A cidade, a nação, o Mundo, pensam eles, saem à rua trajando as pinturas de guerra da festa. Cada um como quer e pode. O instante excêntrico e histérico de uma alegria sem raiz e sem destino que não a morte ao nascer da aurora. Exorcize-se a rotina e a tristeza de hoje mesmo e de já amanhã. Não há absolutamente nada para festejar. Ou talvez haja. Talvez os humanos hoje festejem a sua sobrevivência e a réstia de esperança que habite nos seus corações. É por isso que à porta deste armazém se aguarda a festa e se prolonga a fila. A demora ensopa e os rostos são uma montra de risos pacientes e saturações. Vou por entre a multidão. “Que merda...”-lamenta-se a voz nasalada de Rafa, o rapaz grande de camisa negra sob a gabardina, angustiado porque fecha a legião multicolor desta espera. Furo pelo labirinto humano. As palavras soltas de um mar de conversas que me envolvem cruzam-se no sentido contrário ao que vou, guiado pelo néon. É por isso que não retenho mais do que sons desconexos de sílabas difusas. Finalmente, a vanguarda desta coluna detém-me, na garganta do azul neónico. Anthoine, ruivo elegante, fato castanho listado sobre a camisa que talvez reflicta apenas o azul que se derrama sobre ele, indaga a rapariga de traços asiáticos que se segue. “Tem cartão da casa?”-sorri. Sorri sempre. Talvez com um esgar de troça de que não sabemos razões, mas sorri. O rosto da rapariga meneia a assunção semi-embaraçada de que não, pelo que, enquanto uma mão do ruivo elegante afaga o queixo, a outra indica a fila de pagamento. Entro com a dos olhos rasgados mas não me detenho quando um segurança de físico desmesurado lhe estanca o passo com um toque de pontas dos dedos num ombro. Tiniu o som digital do detector de metais. Subo as escadas pisando o tapete de veludo tinto que me escorre sob os passos -já não ouço o marulhar de ondas -Por instantes arrasta-se uma melopeia de uma só e eterna nota metálica. Uma voz suave fala-me dos sonhos de todos. Podia ser a voz de um anjo. Mas não creio que assim seja. Uma batida profunda que ecoa em todo o espaço fere a esteira da partitura e mescla-se com a difusão de sons psicadélicos que emergem e com o burburinho dos círculos em meu redor. Sempre aquela luz azul, de ricochete no imenso globo alvo ao centro, que derrama mais azul pálido na pele dos convivas e transtorna o espectro das imagens alucinadas que se projectam na ampla parede imaculada.


Azul…
Só penso em azul
Em breve nasce o dia, bem sei
Não fugirei à refrega.
Mas o meu estandarte é azul

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

De pai para filho - A Guilda dos Melancólicos - Génesis - Parte III

“Pai, ficas bem?”- o filho assoma à porta do escritório. - “Fico. Fico, sim. Vai lá. Mas diz-me, quem é a menina dos olhos negros ao portão?”- César baixa o rosto, num laivo de timidez. - “O meu par para a noite, pai. Sabes uma coisa, acho que conheci alguém especial.” -“Bonita mulher, César. Tem um ar doce.” - inclina de novo a cabeça na direcção da janela e espreita discreto por entre os cortinados de amarelo pesado. Depois, altera para um tom despachado: - “Vá lá, está frio. E a tua amiga ali fora... Vá! Vai-te embora...”- César ia sair de novo mas não chegou a fechar porta - “Filho…   …Escuta...” - “Sim, pai...?” - “Hoje acaba o ano... ...amanhã começa um novo ano que nunca mais será como os anteriores. Tens tantos à tua frente e...” - “Pai...” - “Escuta, promete-me que hoje não vais ficar triste. Que vais brindar com a tua amiga. Dizes que ela é especial, não é? Pois então! Diz-lhe isso! Sê feliz… Começa hoje. Enxuga as lágrimas. Era o que a tua mãe quereria. É o que eu quero. A partir de hoje mesmo. Prometes?”- fita o filho solene. Mas os lábios transtornam-se numa agitação nervosa e os olhos verdes transbordam um mar de lágrimas que corre pela face enrugada de António. Abraçam-se. A união poderosa do sangue num amplexo. De outros olhos verdes emerge um choro convulsivo - ”Pai, amo-te tanto. Amo-vos tanto aos dois!” - “Escuta. Escuta! Sempre te amámos. Nada mudará isso, suceda o que suceder.” - António sussurra as palavras trémulas do choro que desce o seu leito, da foz da garganta amarga ao mar da alma do filho. Ampara-lhe a cabeça. – “Vai lá, filho, não chores, hoje não. Bom Ano!” – beija-o na testa. César ergue-se e tenta recompor-se. Sente-se frágil, minúsculo. Perante a dor do pai e perante a sua própria dor. Talvez quisesse dizer algo. Mas o quê? Com um afago desajeitado das costas da mão, enxuga o rosto húmido. Sim, deve ir.
César desce as escadas e abre a porta que dá para o jardim. Para lá do portão, há um vulto feminino que se vira ao sentir-lhe os passos nas lajes e lhe oferece um sorriso maior do que a vida. Agora que a vê, crescem-lhe as pupilas no olhar e quebranta-se a alegria num segundo de pasmo que lhe congela a face. Do cabelo negro que emoldura aquele rosto moreno emerge uma rosa em flor. Uma rosa graciosa, aberta em mil pétalas de vermelho tinto de amor. De vermelho. Do mais belo e ardente vermelho que jamais viu. Ela encolhe os ombros, tímida. Naquele momento, sabe, reencontrou o amor. A sua vida acabou de mudar. Para lá do muro, há um cortinado amarelo que fecha a nesga em que se entreabrira cauteloso e uma lágrima que molha a tapeçaria. Amarga ou doce? Que importa? Os passos de ambos diluem-se no silêncio de uma noite serena. Uma noite invulgarmente prazenteira daquele Inverno. Uma noite em que uma Lua madrinha de sonhos e futuros ilumina a estrada a dois enamorados. César e a rapariga da rosa vermelha desaparecem ao fim da rua. E a luz do escritório apaga-se para lá das cortinas amarelas.


Closing time, every new begining comes from some of the begining’s end

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Celebração - A Guilda dos Melancólicos - Génesis - Parte II

Vou em silêncio, agora que a travessia chega ao fim e o meu propósito ao seu início. A luz ténue e longínqua que avistei primeiro foi depois um formigueiro de luzes e agora é já distintamente cidade. Cruzo a linha costeira. Meu é ainda o som do mergulho de chuva e o marulhar de ondas, agora brandas, nesse lençol de oceano que se cospe na terra e que por aqui os Homens chamaram Tejo. Já há cidade que me abraça, à minha esquerda, em pontos de luz multicolor, ora quietos, ora serpenteando e desaparecendo. Aos meus ouvidos agora vem mais do que a sinfonia de água sobre água. Mesmo se abafados pela bátega, os pulsares subliminares das sereias e estertores da urbanidade dizem-me que para lá do rio estão as margens da Lisboa. Sobre mim passou o peso de sombra negra da brutalidade metálica em ponte que une as margens que o Tejo separa. Depois, vi desfilar os armazéns, a entrecortar o céu em sombras de negro e menos negro. Em alguns acendem-se luzes e consigo ouvir o burburinho da gente que por lá se reúne. E vejo aqueles que caminham apressados sob os candeeiros das praças em que a luz pincela a pedra de branco, movendo-se entre o trânsito de faróis intermitentes. Mais além, apenas a desolação da noite abandonada. Às vezes cruzada por uma viatura que passa na estrada estreita que borda o rio. Às vezes, pontuada pela meditação de um pescador, entregue à sua solidão, que fere a cana no espelho de água, indiferente à chuva que cai, mesmo se agora mais gentil. Na praça maior diria que converge toda a cidade. Uma multidão sob as luzes. Há festa e vibra o som ritmado que as colunas de som gigantes debitam a abafar a chuva. Não me detenho, que não é este o meu cais de destino. Ainda não. Mais um instante… … e chego. Sei-o porque se me abrilhanta a centelha no peito e perante a retina parece que cresce, em formas ora cúbicas ora excêntricas, o perfil cinzento de um cais desgastado e de um armazém à beira-rio.


Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A chegada de um cronista - A Guilda dos Melancólicos - Génesis - Parte I



Foi assim, foi provavelmente assim, como hoje vos conto, que tudo nos aconteceu naqueles dias.

Génesis


Deslizo à flor da água desde o início da minha jornada. Nesta noite imersa nas trevas e para lá do jugo das luzes que sabemos que brilham na terra firme do meu destino, mas que por ora são só uma matiz de menos negro no céu -talvez nem tanto – apenas resplandecem fagulhas intermitentes de luar, na chuva que fere as vagas convulsas sob o meu voo. Como o ar está frio! Não é da minha condição que queime na minha pele dor por esta geada invernosa, mas sei que assim é porque esta desolação crua faz débil a centelha que me brilha no peito. Os Elementos agitam-se e dir-se-ia que convergem, como eu, para a costa. Quem adivinhasse a minha chegada auguraria certamente que me movo conspirado com a tempestade, em prenúncio dos rasgos na carne e nas almas que hão-de vir. Sempre assim foi. Sempre assim será. Em toda a desventura e sorte humana. Porém, nada sei sobre a fúria que urra nesse amplexo entre o oceano e o firmamento. Por enquanto, apenas pressinto um magnetismo de luzes que me atrai, em vertigem que faz deslizar em cauda difusa o brilho de Lua, para uma parábola que ora se abacela nesse ventre. O meu propósito define-se porquanto se consome a viagem e, no intimismo desta solidão, percebo que estamos no início de um tempo e no fim de um outro. A esse outro, talvez só agarre hoje pela sombra, porque essa outra história – só mais uma história - me escorre como bagos de areia por entre os dedos de oleiro do Cosmos. 
Planemos pois, como se de rapina fosse o meu voo, para que não se perca o momento em que as dimensões se tangem, sem saber, e em que, após um relâmpago, como aqueles que intermitentes cortam hoje o céu, se fraccionem no ocaso de uma e na semente siamesa de prodígios e melancolias de outra. É sempre assim que as coisas sucedem, com o Chamamento. Creio que não existo fora desse tempo. Deus molda-me para que seja testemunha da sua Humanidade. É essa que me atrai, magnetizado pela luz que erradia das suas histórias. E confesso-vos que, ao início de cada jornada, se me oprime o peito etéreo de não humano. Corre sempre um rio muito intenso por esses leitos! E mesmo se sei que não me poderei afogar nele, subsiste a angústia de não poder dar a mão aos que a ira arrasta. É-mo interdito. Não sou anjo-da-guarda. Nem sei se existam. Nunca vi nenhum, agora que penso. Na verdade nunca vi anjos, nem tão pouco a mim próprio. A ser franco com os que se prestem a ouvir a minha narrativa, haverá que confessar que não sei bem quem sou. Mas sei quem não sou. E sei ao que venho. Só observo. Sou o Cronista da Criação, apenas. Deus não me faz portador de mensagem alguma, de vontade nenhuma. Suponho pois que seja Ele quem quer entender alguma coisa. Quando regresso, sento-me em lótus a seus pés, para lhe narrar mais uma viagem. Nunca diz nada às palavras que me ouve. Nunca sorri. Nunca se toma de uma súbita cólera. É por isso que acho que Deus não é Pai, nem Juiz, nem Tirano nem Luz, nem Trevas. Deus é Oceano. Sim! Um Mar enorme de lágrimas doces e amargas para onde flua a Humanidade, nas minhas crónicas, nessas conversas eternas em que me prostro a seus pés. E mesmo eu, nesse momento, em que descrevo em ínfimos detalhes os factos de que fui testemunha, nunca soube encontrar uma explicação para que tudo tivesse que suceder daquela forma. Também não me atrevo a pedi-la. São factos demasiado inexplicáveis para a minha lógica angelical. Não é possível, diria eu, que esta gente possa carregar no peito fardos tão pesados e, ainda assim, senti-lo a mais das vezes tão desoladoramente deserto. Penso sempre nisso. Quando vou, nunca sei ao que vou, mas acabo sempre por reflectir no que presenciei enquanto dure a minha jornada de regresso, nesse momento em que a minha sensibilidade traz frescas as imagens que se lhe imprimiram por esses dias. Todas as estradas dos Homens têm um fim, um momento em que o céu se altera e com ele as cores que os corações reflectem. É então que os abandono, sem que saibam que por tantas horas acompanhei os seus passos. Nunca olho para trás. A minha crónica terminou ali e na minha retina prolonga-se artificialmente esse último momento, pela eternidade, como se perene fosse. A eternidade de um abraço. De um caixão que desce à terra. De um grito. De uma caminhada. A eternidade do Tudo. A eternidade do Nada.


And all this science I don’t understand it’s just my job five days a week