quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Luto lento - A Guilda dos Melancólicos - A Senda de Luna - Parte II


Vinte e sete anos decorridos, contas a olho de Anjo, sem exactidão de cálculo pela métrica das voltas do tempo como a supõem os humanos. Numa tarde fria, uma Luna negra perde-se no horizonte, sobre o Tejo e sobre o oceano que se alonga na moldura do seu miradouro do Bairro da Graça. Um rosto de pedra, tez despida de Sol, embora não saibamos ao certo o que se esconda sob o pudor espelhado de umas lentes negras que lhe encobrem meia face. A cidade ali tem uma luz incrível, derramada sobre a cidade num desfoque frio de Inverno e de calma. Quem não sabe a verdade pensará que é por isso que aquela mulher, nas tardes perenes que a prendem naquele promontório, se separa sempre da cidade pelo filtro daqueles óculos desmesurados. Mas eu sei que mais do que da luz se protege Luna da invasão do olhar dos outros, inquisitivos das suas olheiras, pesadas de mais uma noite em que as lágrimas correram até que o sono a resgatasse. Em que pensas, Luna? Tenho estado aqui, sentado sob o muro que se desfaz em vertigem até aos telhados de cor de tijolo lá em baixo, a contemplar-te. Diria que nunca desviaste ao fim deste tempo todo o olhar de um mesmo ponto fixo no infinito. Por isso suponho que nesse lugar distante encontres o reflexo de alguma coisa, seja indagação do teu futuro ou as sombras de um passado. O presente, esse é a peregrinação de um pesadelo de contornos alucinados e irreais. Naquela noite o Mundo, como julgavas que ele era, desfez-se. Nunca tomamos imediata consciência disso. Pode parecer que a violência das primeiras horas nos rasga as entranhas. Mas é essa violência extrema que nos salva de morrermos das lesões internas da alma. Como uma pancada seca de moca no crânio. Explodimos numa dor insuportável e pura e simplesmente perdemos a consciência. O sono é o santuário da dor. Nele até o condenado se evade das garras e dos chicotes do verdugo. Como tu fizeste. Reténs vagamente todas aquelas imagens psicadélicas. O rio roxo. E depois o teu próprio grito. Um grito prolongado, um urro animalesco que te ensurdeceu. E depois os braços que te arrastaram daquele mar, enquanto se abria e fechava a multidão à tua passagem. Uma multidão distante que se liquefez em grão perante o teu olhar no instante em que te sentiste afundar no mar dos sonhos, aquele em que por vezes se evapora a tua consciência, desde criança, nos braços de Natália, nas águas do teu baptismo, submergindo desde a sensação de claridade entrecortada, em que treme ainda a luz do sol a queimar o espelho de água, até que os tons se vestem de sombra negra e mais negra, mergulho cavado no abismo da tua inconsciência. Luna já não sofre, nem sabe que o rio corre vermelho, agora que se apagou a luz dos projectores das fantasias da noite. Santuário para Luna, por enquanto...


All the love gone bad turned my world to black
Tattooed all I see, all that I am, all I'll be...

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