Para lá das portas estanques dos lavabos uma língua de som abraçou-as. O rufar das peles tribais crescia agora na cadência do house, debitado pelas colunas suspensas do tecto. A sala tornara-se mais azul. E mais psicadélica nas figuras de luz projectadas sob parede, vidro e pele. Três negros de calças largas de linho e tronco nu oleado fustigam o ritmo, abraçando os seus tambores tribais ao longo das escadas de acesso ao topo da estrutura. Três dançarinas seminuas correm sobre o bar, frenéticas, arquejando o corpo num bailado possesso, enquanto cospem labaredas de fogo. Curvado sobre si, como num esgar de dor, um maciço eslavo, colete sobre o tronco e kilt, sopra do saxofone notas anárquicas de jazz que sobem na atmosfera para lamber as chamas e pelejar na cadência profunda do som num armazém à beira Tejo.
A noite solta os seus demónios no Lux. Os risos e os olhares. Para ela. Para quem aceite o convite que foge logo que pousa. Para o nada. Talvez eu próprio que sou Anjo esteja possesso pelo pecado sem pena convencionada que aqui grassa. Corro. Voo! Sobre, sob, por entre todos. Vou veloz e intermitente, na convulsão semi-racional da minha vertigem que mistura o que vejo com a pulsão dos sentimentos que só eu posso verter num cálice e tragar, ávido eu do vosso absinto mortal, para que na minha síntese sobre-humana se perceba o delírio da vossa humanidade nesta noite. Escorrer como uma baga de suor pelo seio de uma bailarina negra. Uma gargalhada. Dois corpos que se esmagam contra uma parede. Mãos calejadas sobre uma pele curtida. Estremece a noite sobre o baixo dos colossos de som. A língua de Pedro na boca de Sara. Hálito. Vodka. Saliva e tabaco. Os corpos contorcem-se e exorcizam-se em dança, à mercê do coração do gigante que nos trás tragados nesta noite. Há vidro a ferir vidro em brindes de cor e olhares onde brilha um rasto de cocaína sobre uma mesa. - “Os dois, Luna....” - “Amo-te João.” - A estrada branca desaparece. E o beijo canibal rasga-se num voo sobre o Tejo como se anjos como eu fossem. O som dilui-se. Já nada sei do metal do saxofone e do chamamento do tambor como linhas distintas da partitura. Tudo se funde na fornalha. Corre de novo o rio cá dentro. E bate a água e os risos e o ofegar dos amantes e o troar da tempestade lá fora que veio repousar e castigar-se sobre nós. Juraria que arde um fogo dentro das pupilas de Neusa, a morena que chove vodka sobre os copos. Uma veia azulada desenhada sobre um crânio liso. Uma boca de dentes perfeitos. Um grito: “Vem aí a hora, meus queridos! Bebam. Solteeeeeem-na!”. - O repto prolonga-se na chuva. E é amputado por mais um trovão. Sobre todos desce um relógio de igreja, queda monocórdica, suspensa em cabos de aço. Máquina violentada de torre de templo por garras míticas. Um ponteiro gigante de ferro forjado marcha em passo mecânico na direcção do abismo e queima os últimos segundos de 2003. Quarenta segundos. Clarão de relâmpago lá fora. Trinta e nove. Uma chuva de comprimidos sobre a mesa. Trinta e oito. A mão de Pedro aperta a mão de Sara. Trinta e sete. Cospe-se uma labareda de fogo. Trinta e seis. Grasnar do saxofone. Trinta e cinco. O abocanhar selvagem de uma boca. Trinta e quatro. Eduardo aspira fumo de cigarro e sorri. Trinta e três. Filipa morde o lábio. Trinta e dois. O eco seco do ponteiro avança uma casa. Trinta e um. Cocaína em onda sob a lâmina plástica de Sérgio. Trinta. Som seco de bala na câmara. Vinte e nove. Um corpo frágil voa de encontro à parede. Vinte e oito. A língua de Carlos na boca prostrada do mulato. Vinte e sete. O brilho de alianças e o deslumbre de Luna. Vinte e seis. Uma cabeça grisalha repousa na almofada. Vinte e cinco. O rosto de Ana contra o vidro sem letras. Vinte e quatro. “Luna, casa comigo.” Vinte e três. “Ana, casa comigo.” Vinte e dois. Sara aperta um talismã contra o peito. Vinte e um. Dedos esguios sobre vinil. Vinte. Um sorriso amargo de Pedro. Dezanove. Beijo no cano de arma. Dezoito. Mão entre pernas esguias. Dezassete. Um trago em chamas. Dezasseis. Uma oração. Quinze. “Sim, num olhar. Felicidade.” Catorze. Fogos distantes. Treze. Um beijo viril num sorriso perfeito. Doze. Um anjo negro. Onze. Uma veia azulada e uma gargalhada histérica. Dez. Uma caminhada decidida entre a multidão. Nove. Sono. Morte branca. Oito. “Amar-te-ei sempre, Luna.”, Sete. Um ponteiro gigante e inadiável. Seis. As águas agitam-se lá fora. Cinco. Um punho cerrado liberta o demónio em ódio no corpo de Bruna. Quatro. Um braço armado que se ergue. Três. O sorriso imenso de João. Dois. Sara fere a carne num talismã. Um. O anjo cerra os olhos. Amén...
Começou.
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