segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Premonições - A Guilda dos Melancólicos - Génesis - Parte IX


Onze e meia. Mais alguns segundos. Sara ainda finge que lê alguma coisa no mostrador minimalista do Gucci de platina. - “Que se passa, Sara?” - Encostada com as costas à pedra negra da parede, Filipa fita-a. Sorri. Mas a preocupação nos seus olhos negros é translúcida. Sara baixa o rosto, incapaz de encarar a inquisição e apoia as mãos delgadas sobre a bancada. –“É aquela história, não é?” - abana a cabeça em desaprovação. -“Então...?” – Filipa toma a irmã num abraço, afagando-lhe os fios de cabelo loiros. Sara olha o espelho e procura nessa dimensão paralela uma fuga embaraçada do olhar protector da morena. -“Filipa, ele fez-me mal, eu sinto-o.” – “Sara, as cois...” - “Filipa!” -Rouba-se ao abraço e esmaga o corpo contra a pedra. -“Ontem o avô visitou-me...” -os olhos inundam-se de água como se de dentro de Sara brotasse a tempestade que se abate lá fora. O rosto contorce-se numa máscara de dor. -“Sara, o avô morre...” - “Beijou-me a testa e chorou! Chorou aos pés da cama, como uma criança, como no dia em que enterrámos a avó. E depois foi-se embora. Quando acordei o quarto cheirava a flores e o Bernardo arranhava a porta!” - Deve ter decorrido um momento que pesou o insustentável. Que dizer? Como não trilhar também ela os caminhos dos medos partilhados? Por fim baixou os olhos e sorriu. “Sara, o Bernardo arranha sempre a porta. O Pedro tem razão quando diz que o teu cão é o setter mais idiota que a Irlanda alguma vez pariu...” - Ri-se e levanta os olhos. Sara enxuga as lágrimas e esboça, ou tenta, esboçar, um sorriso. -“Não é nada! Não digas mal do Bernardo. Oh pá... Ele só tem respeito ao Pedro e ao Pai...” - “Anda daí.” - “Desculpa Filipa, tenho andado...” - “Eu sei.” - “E o Pedro, não achas que ele está estranho?” - “Há pouco o Hugo ligou-lhe. Sabes como são aqueles dois com trabalho. Nada que os beijos da minha mana não façam esquecer.”
Saíram.


O país está em ruínas, as cinzas cobrem tudo como uma metáfora da opressão, da finitude, da inexorabilidade do destino brutal. Debatendo-se entre a dor e os fantasmas de entes queridos, o velho Dastaguir parece ele mesmo um ser fantasmagórico, cansado e errante. O que dizer para o neto que ficou surdo e ainda vive no mundo de fantasias da infância? Como encarar o filho e dizer que tudo está perdido? Como manter a fé quando tudo está se decompondo ao redor?


Sem comentários:

Enviar um comentário