domingo, 26 de agosto de 2012

Um sinal - A Guilda dos Melancólicos - Génesis - Parte VIII


Já Ana, regressada ao primeiro andar, cola a testa ao vidro frio e vê escorrer as bagas de água lá fora. Vibra o compasso anestésico do house na sala. Mas dentro dela voga o deserto. - “O grande passo é amanhã...” - Do sorriso afável do músico, a frase transverte-se de inquietação para o espírito de Ana. Desde que soube definir o nó de marinheiro que lhe estrangulava o peito que repetiu para si própria:  - “É ansiedade, Ana, é só ansiedade.” – Mas como explicar a si própria que desenha com o indicador a palavra “melancolia” na ampla vidraça desfocada pela neblina da sua respiração? Olha para o céu. Nem um sinal. -“Um sinal, o que eu não daria por um sinal, Deus meu!?” – Talvez seja por essas paragens longínquas que as suas fugas de si mesma sempre deambularam. Às portas do céu, em busca de um âmago em si, a evasão do inferno do seu desnorte. Mas faltam... ...quantas horas faltam, Ana? 18 horas! - “Champanhe, Ana?”- o barman de olhos rasgados e cabelo preto revolto no brilho do gel oferece um meio sorriso sedutor. Acena que sim e rouba uma flauta ao espelho de prata do mestiço. O primeiro trago esgota quase que toda a bebida. Cerra os olhos. Não viajou. Está lá, mas reza. Nós sabemos, Ana.

“Um Sinal. Um sinal. Deus, pedir-te-ei tanto?”-Compasso de silêncio na vaga espera de uma réplica. Nada. Apenas a profundidade da própria respiração, oprimida por uma força tão invisível quão inabalável. - “Sim, Hugo, meu velho. Fala agora. Aqui ouço-te melhor.” - Ana abre de novo os olhos para o outro dos dois mundos em que é inquilina. Nas suas costas, alguém tomou o seu lugar junto à vidraça. Com uma mão afaga o cabelo castanho para trás da orelha, com a outra molda o telemóvel à face. Também olha a chuva que fustiga em compasso ascendente, como uma partitura trágica – que se ouvem distintamente a tempestade e os trovões que galopam nesta direcção -absorto na conversa. -“Já tens então novidades? Sim. Claro… Eh pá, claro que quero! A Sara? Sim... ...bem sabes que sim. Que merda de pergunta é essa, Hugo?! Claro! Porra! Não me vais deixar assim! Está bem. Ok, ok… Já percebi, já percebi que são más notícias. Só não percebo o que é que tem a ver com... ... está... ... amanhã? Jantamos. Não? Está bem, encontramo-nos no escritório. Sabes uma coisa? Alguém escreveu algo aqui no vidro... ... “melancolia”. Diabo de presságio para uma passagem de ano, não dirias?” - Um silêncio incomodativo do outro lado. - “OK., não digas mais nada. Tens razão no que costumas dizer, a vida é uma puta. Que se lixe. Carpe diem! Vou beber. Bom-Ano, amigo!” - O estranho meditou por um segundo, encenou um sorriso, meneou uma negativa que a Ana pareceu nada convicta, penteou a franja de cabelo brilhante com os dedos e atravessou o corredor perdendo-se entre os convivas. Ana retorna com os seus olhos amendoados à ampla janela. Esquece-se primeiro na estrada húmida lá fora, reflectindo as cores dos focos urbanos em espelhos de água sobre o alcatrão gelado de Inverno. Depois mais além, na pedra branca de luz holofótica da Cúpula do Panteão. Aquém, naquela vidraça. As letras da palavra “melancolia” que poucos antes rabiscara, haviam-se dissipado na moldura de vapor. Resta uma letra. “N”, absolutamente preservada, como que disparada a solo, num tiro seco de carabina providencial. Talvez não seja nada, Ana. Apenas uma cambalhota do acaso de vapor e pele sobre vidro. Sabe-se lá... ...Mas agora é tarde para filosofar entre mitos e razões. Porque as pupilas da jovem de longo vestido azul se dilatam no choque de ter vislumbrado uma nesga de divino, para depois se cerrarem as pálpebras numa prece.

Ana já tem o seu sinal.


Desconfio que ainda não reparaste que o teu destino foi inventado por gira-discos estragados aos quais te vais moldando


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