quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A última venda do ano - A Guilda dos Melancólicos - Génesis - Parte V

Bruna passa água no rosto. Olha o espelho. A pele parece-lhe cansada. Hoje preferiria ir para casa. Mas não é noite de ir para casa. Pouco passam das onze. É noite rica. Portanto é noite longa. Tempo de se lavar e de voltar à pista. Ao circo, como lhe chama Renata, a mulata. Ouve a porta a fechar no trinco. Aquele foi-se. Tira as notas do wonderbra e confere. Cento e cinquenta Euros. Veio-se em menos de nada. Ainda tinha mais pressa ele do que indiferença ela. Devia ter a senhora à espera para o Reveillon. Não saberia. Este careca não era dos habituais. A Passagem de Ano é uma data atípica. A calhar, nenhuma das caras costumeiras aparecem. E no entanto podem vir os gajos mais díspares que não vira antes e provavelmente não voltarão. Pelo menos é o que dizem as outras raparigas. Bruna ainda não teve tempo de saber por si mesma. Aterrou em Abril na Portela. Foi há oito meses. Poderia ter sido há oito anos. A incoerência do turbilhão na sua vida roubara-lhe a noção do valor do tempo. Olha a cidade lá fora pela varanda deste andar alto, enquanto a televisão ligada no quarto contíguo lhe entretém o ouvido na voz monocórdica que debita notícias -“...Nações Unidas, que vistoria uma dezena de locais por dia, completou ontem um mês de trabalho no Iraque. Por regra o acesso é-lhes franqueado após curta resistência, mas no centro da investigação militar de al-Raya o chefe da guarda informou o líder da equipa de inspecções que não tinha chave para abrir o cadeado da corrente que bloqueava o portão de entrada”. -Bruna não sabe onde é o Iraque. Mas sabe que gosta de olhar o céu. Um céu limpo, embora sem as estrelas do firmamento de uma vila algures no Nordeste do seu país Natal que lhe deixa saudades. Do céu cuspido de mil estrelas, do bailado de luz dos pirilampos na noite, do calor a afagar a face e a dolência de mais um dia vivido assim na pobreza morna. Saudades? Não sabe ao certo o que o coração lhe diz do seu Brasil nem o que lhe diga desta terra. Nada é perfeito para a morena que não deve ter nascido para ter fácil. Acende um cigarro e aspira o fumo, pensativa, por um segundo. Depois olha para a aliança de ouro que trás no dedo. Ainda não tinha pensado nisso. Tira-a e vê a inscrição gravada no interior. -“Filipe... ...tudo mentira, até no nome.”-Recoloca o anel e esboça um sorriso irónico. É uma expressão quebrada. Amanhã faz 19 anos. Parabéns Bruna. Anda mulher, de volta ao circo!


hey Charley, for chrissakes, do you want to know the truth of it?
I don't have a husband, he don't play the trombone
and I need to borrow money to pay this lawyer
and Charley, hey I'll be eligible for parole, come valentines day.

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