“Como está, Sérgio?”- o músico sorri prazenteiro -“Já sei que amanhã...” - Ana meneia a cabeça, afirmativa. –“Pronta para o grande salto no vazio?” -a resposta não foi imediata. A resposta, na verdade, nem chegou a ter lapso de elaboração mental, sobrando a máscara facial de uma Ana ainda não completamente regressada de mais uma viagem. -“E trabalha hoje?”-“Claro. O casamento é só às seis.” -Teria feito uma pergunta absurda? Pensava que não. Mas sentia que aquela resposta, colocada em acorde óbvio, não lhe permitia ter a certeza de que o óbvio era mesmo óbvio. Sorriso com sabor de “deixa em falso” no rosto enrugado. Que mais dizer? “Nada dizer é mais seguro.” – conclui - “Sérgio! Meu querido. Falava de si há pouco. Ah, você não é bom! Com certeza que não!” -Carlos salvava o momento. Um aperto com uma mão, enquanto a outra se depositava delicada no ombro do músico. Alto, esguio, na sua camisa laranja de botões de veludo, contraste maniqueísta com o crânio luzidio, mais do que o rosto, cinzento da barba de três dias. Ao músico impressionava a veia que se desenhava em trespasse sob a pele, intermitente com as vocalizações do interlocutor, numa lógica de “causa-efeito” que Sérgio não chegava a entender completamente. -“Conversava com Ana...”-“Ah, sim, a nossa bela Ana. Mas... ... fugiu, a cabra! Mas meu querido, vai ser uma noite inesquecível! Que horas temos? Onze e dez. Há que colocar o circo na estrada. Mas... ... se não é ele! Diogo! Meu rico!” -acabado de entrar pela porta VIP, o actor, rosto húmido da chuva que se enfurecia lá fora, retribuiu com o seu sorriso perfeito e com um gesto para que o aguardassem. - “Champanhe. Ah, nós precisamos de champanhe!”
domingo, 26 de agosto de 2012
Ana alheada - A Guida dos Melancólicos - Génesis - Parte VII
“Como está, Sérgio?”- o músico sorri prazenteiro -“Já sei que amanhã...” - Ana meneia a cabeça, afirmativa. –“Pronta para o grande salto no vazio?” -a resposta não foi imediata. A resposta, na verdade, nem chegou a ter lapso de elaboração mental, sobrando a máscara facial de uma Ana ainda não completamente regressada de mais uma viagem. -“E trabalha hoje?”-“Claro. O casamento é só às seis.” -Teria feito uma pergunta absurda? Pensava que não. Mas sentia que aquela resposta, colocada em acorde óbvio, não lhe permitia ter a certeza de que o óbvio era mesmo óbvio. Sorriso com sabor de “deixa em falso” no rosto enrugado. Que mais dizer? “Nada dizer é mais seguro.” – conclui - “Sérgio! Meu querido. Falava de si há pouco. Ah, você não é bom! Com certeza que não!” -Carlos salvava o momento. Um aperto com uma mão, enquanto a outra se depositava delicada no ombro do músico. Alto, esguio, na sua camisa laranja de botões de veludo, contraste maniqueísta com o crânio luzidio, mais do que o rosto, cinzento da barba de três dias. Ao músico impressionava a veia que se desenhava em trespasse sob a pele, intermitente com as vocalizações do interlocutor, numa lógica de “causa-efeito” que Sérgio não chegava a entender completamente. -“Conversava com Ana...”-“Ah, sim, a nossa bela Ana. Mas... ... fugiu, a cabra! Mas meu querido, vai ser uma noite inesquecível! Que horas temos? Onze e dez. Há que colocar o circo na estrada. Mas... ... se não é ele! Diogo! Meu rico!” -acabado de entrar pela porta VIP, o actor, rosto húmido da chuva que se enfurecia lá fora, retribuiu com o seu sorriso perfeito e com um gesto para que o aguardassem. - “Champanhe. Ah, nós precisamos de champanhe!”
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