Foi assim, foi provavelmente assim, como hoje vos conto, que tudo nos aconteceu naqueles dias.
Génesis
Deslizo à flor da água desde o início da minha jornada. Nesta noite imersa nas trevas e para lá do jugo das luzes que sabemos que brilham na terra firme do meu destino, mas que por ora são só uma matiz de menos negro no céu -talvez nem tanto – apenas resplandecem fagulhas intermitentes de luar, na chuva que fere as vagas convulsas sob o meu voo. Como o ar está frio! Não é da minha condição que queime na minha pele dor por esta geada invernosa, mas sei que assim é porque esta desolação crua faz débil a centelha que me brilha no peito. Os Elementos agitam-se e dir-se-ia que convergem, como eu, para a costa. Quem adivinhasse a minha chegada auguraria certamente que me movo conspirado com a tempestade, em prenúncio dos rasgos na carne e nas almas que hão-de vir. Sempre assim foi. Sempre assim será. Em toda a desventura e sorte humana. Porém, nada sei sobre a fúria que urra nesse amplexo entre o oceano e o firmamento. Por enquanto, apenas pressinto um magnetismo de luzes que me atrai, em vertigem que faz deslizar em cauda difusa o brilho de Lua, para uma parábola que ora se abacela nesse ventre. O meu propósito define-se porquanto se consome a viagem e, no intimismo desta solidão, percebo que estamos no início de um tempo e no fim de um outro. A esse outro, talvez só agarre hoje pela sombra, porque essa outra história – só mais uma história - me escorre como bagos de areia por entre os dedos de oleiro do Cosmos.
Planemos pois, como se de rapina fosse o meu voo, para que não se perca o momento em que as dimensões se tangem, sem saber, e em que, após um relâmpago, como aqueles que intermitentes cortam hoje o céu, se fraccionem no ocaso de uma e na semente siamesa de prodígios e melancolias de outra. É sempre assim que as coisas sucedem, com o Chamamento. Creio que não existo fora desse tempo. Deus molda-me para que seja testemunha da sua Humanidade. É essa que me atrai, magnetizado pela luz que erradia das suas histórias. E confesso-vos que, ao início de cada jornada, se me oprime o peito etéreo de não humano. Corre sempre um rio muito intenso por esses leitos! E mesmo se sei que não me poderei afogar nele, subsiste a angústia de não poder dar a mão aos que a ira arrasta. É-mo interdito. Não sou anjo-da-guarda. Nem sei se existam. Nunca vi nenhum, agora que penso. Na verdade nunca vi anjos, nem tão pouco a mim próprio. A ser franco com os que se prestem a ouvir a minha narrativa, haverá que confessar que não sei bem quem sou. Mas sei quem não sou. E sei ao que venho. Só observo. Sou o Cronista da Criação, apenas. Deus não me faz portador de mensagem alguma, de vontade nenhuma. Suponho pois que seja Ele quem quer entender alguma coisa. Quando regresso, sento-me em lótus a seus pés, para lhe narrar mais uma viagem. Nunca diz nada às palavras que me ouve. Nunca sorri. Nunca se toma de uma súbita cólera. É por isso que acho que Deus não é Pai, nem Juiz, nem Tirano nem Luz, nem Trevas. Deus é Oceano. Sim! Um Mar enorme de lágrimas doces e amargas para onde flua a Humanidade, nas minhas crónicas, nessas conversas eternas em que me prostro a seus pés. E mesmo eu, nesse momento, em que descrevo em ínfimos detalhes os factos de que fui testemunha, nunca soube encontrar uma explicação para que tudo tivesse que suceder daquela forma. Também não me atrevo a pedi-la. São factos demasiado inexplicáveis para a minha lógica angelical. Não é possível, diria eu, que esta gente possa carregar no peito fardos tão pesados e, ainda assim, senti-lo a mais das vezes tão desoladoramente deserto. Penso sempre nisso. Quando vou, nunca sei ao que vou, mas acabo sempre por reflectir no que presenciei enquanto dure a minha jornada de regresso, nesse momento em que a minha sensibilidade traz frescas as imagens que se lhe imprimiram por esses dias. Todas as estradas dos Homens têm um fim, um momento em que o céu se altera e com ele as cores que os corações reflectem. É então que os abandono, sem que saibam que por tantas horas acompanhei os seus passos. Nunca olho para trás. A minha crónica terminou ali e na minha retina prolonga-se artificialmente esse último momento, pela eternidade, como se perene fosse. A eternidade de um abraço. De um caixão que desce à terra. De um grito. De uma caminhada. A eternidade do Tudo. A eternidade do Nada.
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