segunda-feira, 20 de agosto de 2012

De pai para filho - A Guilda dos Melancólicos - Génesis - Parte III

“Pai, ficas bem?”- o filho assoma à porta do escritório. - “Fico. Fico, sim. Vai lá. Mas diz-me, quem é a menina dos olhos negros ao portão?”- César baixa o rosto, num laivo de timidez. - “O meu par para a noite, pai. Sabes uma coisa, acho que conheci alguém especial.” -“Bonita mulher, César. Tem um ar doce.” - inclina de novo a cabeça na direcção da janela e espreita discreto por entre os cortinados de amarelo pesado. Depois, altera para um tom despachado: - “Vá lá, está frio. E a tua amiga ali fora... Vá! Vai-te embora...”- César ia sair de novo mas não chegou a fechar porta - “Filho…   …Escuta...” - “Sim, pai...?” - “Hoje acaba o ano... ...amanhã começa um novo ano que nunca mais será como os anteriores. Tens tantos à tua frente e...” - “Pai...” - “Escuta, promete-me que hoje não vais ficar triste. Que vais brindar com a tua amiga. Dizes que ela é especial, não é? Pois então! Diz-lhe isso! Sê feliz… Começa hoje. Enxuga as lágrimas. Era o que a tua mãe quereria. É o que eu quero. A partir de hoje mesmo. Prometes?”- fita o filho solene. Mas os lábios transtornam-se numa agitação nervosa e os olhos verdes transbordam um mar de lágrimas que corre pela face enrugada de António. Abraçam-se. A união poderosa do sangue num amplexo. De outros olhos verdes emerge um choro convulsivo - ”Pai, amo-te tanto. Amo-vos tanto aos dois!” - “Escuta. Escuta! Sempre te amámos. Nada mudará isso, suceda o que suceder.” - António sussurra as palavras trémulas do choro que desce o seu leito, da foz da garganta amarga ao mar da alma do filho. Ampara-lhe a cabeça. – “Vai lá, filho, não chores, hoje não. Bom Ano!” – beija-o na testa. César ergue-se e tenta recompor-se. Sente-se frágil, minúsculo. Perante a dor do pai e perante a sua própria dor. Talvez quisesse dizer algo. Mas o quê? Com um afago desajeitado das costas da mão, enxuga o rosto húmido. Sim, deve ir.
César desce as escadas e abre a porta que dá para o jardim. Para lá do portão, há um vulto feminino que se vira ao sentir-lhe os passos nas lajes e lhe oferece um sorriso maior do que a vida. Agora que a vê, crescem-lhe as pupilas no olhar e quebranta-se a alegria num segundo de pasmo que lhe congela a face. Do cabelo negro que emoldura aquele rosto moreno emerge uma rosa em flor. Uma rosa graciosa, aberta em mil pétalas de vermelho tinto de amor. De vermelho. Do mais belo e ardente vermelho que jamais viu. Ela encolhe os ombros, tímida. Naquele momento, sabe, reencontrou o amor. A sua vida acabou de mudar. Para lá do muro, há um cortinado amarelo que fecha a nesga em que se entreabrira cauteloso e uma lágrima que molha a tapeçaria. Amarga ou doce? Que importa? Os passos de ambos diluem-se no silêncio de uma noite serena. Uma noite invulgarmente prazenteira daquele Inverno. Uma noite em que uma Lua madrinha de sonhos e futuros ilumina a estrada a dois enamorados. César e a rapariga da rosa vermelha desaparecem ao fim da rua. E a luz do escritório apaga-se para lá das cortinas amarelas.


Closing time, every new begining comes from some of the begining’s end

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