terça-feira, 28 de agosto de 2012

Nasce Luna - A Guilda dos Melancólicos - A Senda de Luna - Parte I


Um som seco. Depois um silêncio breve. E depois o deslizar espumoso e claro pelo gargalo da garrafa de Don Perignon. O Cônsul Silveira derrama champanhe pelos copos dos presentes. Sorriso prazenteiro. - “Meus Senhores, vamos brindar ao nascimento de minha filha Luna.” - “Luna?” - Quem pergunta é Márcio, o jovem secretário de óculos rectangulares de massa e cabeleira negra oprimida num risco ao lado luzidio de brilhantina. - “Luna.” - Menos translúcido agora o sorriso, pelo menos na dimensão do pensamento do Cônsul. Luna, salvo-conduto místico para que a semente fosse perene no ventre de Natália. Cinco anos antes, no Verão de Poços de Caldas, um Fevereiro longe no tempo e no espaço daquele Fevereiro nevado da fria Zurique, em que os flocos caem com a leveza de plumas, depositando-se no relevo lá fora. Mas não, recua mais nessas impressões vincadas em ti, Caio. Sete meses antes, quando soou a voz rouca de fio de telefone de Natália para te dizer - “Estou grávida.” - E agora vai algumas horas mais tarde, ao apartamento de Brasília, quando Natália se sentou de pernas cruzadas sobre o tapete de pele das almofadas brancas e pretas e arriscou - “Vai-se chamar Luna... ... se for menina...” - Caio subia os olhos ao tecto. - “Natália...” - “Por fav...” - “Quantas vezes eu tenho que falar pra você não pensar em bobagem?” – Trejeito com a boca, súplica, mesclada de vergonha nos olhos mel. - “Então, você queria Mara...” - “Mas...” - O dedo gentil cerra os lábios e a réplica não nasce - “Orixás... bobagem...” - Podes voltar a Minas Gerais, Caio. Não querias entrar no quarto. Tu já sabias o que te esperava naquele compartimento de fundo de corredor. Levavas um nó górdio preso na garganta. A meio corredor cruzaste a enfermeira escanzelada. Apertava um embrulho contra o peito. Deve ter sido a primeira vez em muitos anos que sentiste correr-te uma lágrima. Nesse dia correria um dilúvio. Estagnaste o passo e esticaste a mão. O colo da rapariga esquivou-se. Meneou a cabeça. E tu baixaste os olhos. E depois cobriste-os com os dedos. Falta só entrar no quarto, Caio. Querias tão simplesmente partilhar a tua dor com Natália. Mas há um peso de culpa que carregas no peito que é só teu e ao qual os olhos de Natália pesarão. Porque é que não consentiste? Era só um nome. A morte de uma filha recém nascida é preço demasiado para uma teimosia ao Pai de Santo. Sempre foste um céptico, obstinadamente céptico. 
Mas finalmente nasceu Luna, a menina que teria que ter o seu nome para que vivesse e cumprisse um destino. Palavra de Pai de Santo.
É por isso que o momento é de festa no Consulado brasileiro na Suiça: o Cônsul Silveira é pai de uma menina linda e que tem o ar espevitado da mãe, assim afiançava a sogra, mulher entendedora de coisas da búzios, orixás, candomblés e pais de santos, bem como de outras artes tão poderosas como improváveis e de que não lhe ocorre agora o nome. Mas, é certo, agora Caio já não sobe ao ringue para levar o oculto ao tapete com golpes convictos do seu racionalismo. Luna chamar-se-à Luna e esse é ponto dogmático até para o pai. – “Olhe lá, seu copo está vazio, que é isso menina...” – a garrafa ainda tem champanhe que baste no ventre. Dentro em breve o cinzentismo voltará à austeridade dourada daquele gabinete mas, por enquanto, reine o burburinho daquela meia dúzia de pessoas a bebericar champanhe e a calcar o excelso arraiolos que ofereceu a diplomacia de Lisboa, tudo sobre o olhar, por hoje tolerante, de um circunspecto Geisel, busto empertigado a dominar com punho de ferro aquela missão diplomática, pelo jugo da sua presidencial foto de praxe, pose marcial na moldura da parede. 


Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem chamam mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas, e fazem do amargo doce e do doce amargo”.



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