O absolutamente inadiável cativa-me a atenção para um olhar analítico que varre a sala, logo para além do lancil que acabei de subir. Com a tez derramada entre luz e sombra, Ana morde o dedo, pensativa, como faz tantas vezes. Hesita e observa de novo em redor, olhar de espreita inquisitória, na penumbra de rosto apoiado sobre o polegar, antes que se lance a pisar o caudal de veludo que veste a escadaria. Por fim decide-se a descer. Na brevidade desse momento, até que seja tempo de sorrir ao convidado que chega, os olhos castanho avelã perdem-se de novo para lá do cimento e do Microcosmos azul, em latitudes de que nada sabe ninguém. Desce indiferente aos olhares que a fitem. Meia escadaria, cruza o passo com um par que sobe abraçado. João caminha por adivinhação do relevo dos degraus que não pode ver. Segue imerso num beijo carnívoro no pescoço descoberto de Luna. Ela semicerra os olhos negros e orienta os passos na subida à sala superior. Não conseguirão ir além do desmesurado pufe de pele branca, logo para além da escada. Com os corpos moldados ao toque frio do repouso fofo de um milhão de bolas de esferovite. Fundidos entre si, ali ficarão num beijo, entregue na fronteira indistinta entre o sublime do amor e a voracidade da carne que os magnetiza, com as mãos sôfregas e alheias ao mundo de que apenas retêm a batida que lhes ribomba no peito e que se confunde com o compasso cardíaco da própria emoção. João, o gigante corpulento de cabelo marcial e traços arianos ama absolutamente Luna. Sentimos isso como algo dogmático neste nosso início de jornada. E Luna, a morena de olhos negros líquidos e sorriso aberto ama João e quer dizer-lho para lá de toda a dúvida no afecto amputado da realidade com que ali, submersos no som e absortos da multidão, lhe afaga o rosto. No imaginário dos dois, aquela massa disforme de pele onde repousam é a única coisa que os acompanha na viagem inominável pelo vazio onde só eles têm lugar. “Vou buscar uma bebida.”- João levanta o corpo dormente, coça a cabeleira eriçada de louro quase branco com as pontas dos dedos e acena com o sorriso desmesurado que só ele tem e que desarmou Luna desde o primeiro olhar. Desaparece na direcção do bar. Luna sorri, feliz. Primeiro para o gigante enquanto o pode ver a dissipar-se entre os convivas, depois consigo mesma, olhos perdidos no acrílico da mesa, enquanto acende um cigarro. Pela primeira vez a atenção dispersa-se para a conversa vizinha. Um fulano, mais novo do que João, com certeza, fala para um círculo em seu redor: um miúdo -não deverá ter mais do que os seus vinte anos – fisionomia vagamente árabe e cabeleira negra presa em rabo-de-cavalo, uma mulher loira, pela sua idade, rosto delicado e sardento. Uma outra, adolescente, moreníssima, de cabelo escuro em mil e um canudos que lhe emolduram o rosto. - “À noite, todos os gatos são pardos. Talvez seja por isso que lhe dedico um misto de encanto e cepticismo.” - beija um gole do copo meio de whisky - “Uma deliciosa gaiola de possibilidades infinitas para nós predadores maldicentes, meus caros!” -A sardenta ri e lança-lhe um olhar lânguido, puxando-lhe com ternura o queixo para um beijo. Luna sorri, voyeurista. Reconhece por ali algo de genuíno e de entrega que a recorda do beijo ainda quente na sua boca. Não o sabe, sabemo-lo nós, chama-se Sara a mulher loura e de nariz polvilhado de mil sardas cor de mel. E também sabemos que Sara ama Pedro, o orador convicto a quem Luna roubou uma migalha de mais um dos seus discursos. E mais, sabemos que Pedro ama absolutamente Sara, ainda que aos olhos de Luna pareça por um instante que lhe morde os lábios mais com a vaidade de um César do que com prostração de um devoto.”- Mas eis que João regressa, sorridente, um copo em cada mão. Acabou o instante invasivo de Luna. Já não presta atenção aos seus vizinhos quando Pedro imobiliza o olhar num canto mais distante da sala e pede num sinal grave para que todos se aproximem a escutá-lo. Sussurra: “Ora cá temos um exemplo académico do que vos falava. O tipo mais alto junto ao bar? Colete… É Judite. Chegou a sair com a Lemos do escritório. Ainda foi durante o estágio. Rafael, creio... Agora, e não olhem à descarada... ...junto à janela deste lado, o artista atarracado de fato, ar eslavo... Máfia de leste.” - ” Como é que sabes?”- “Conheço a cara da Boa-Hora. Quando lá correu o caso dos dois miúdos que tinham abusado do outro puto. Este mamífero estava a ser julgado na mesma Vara. Assisti a algumas sessões do caso. Documentação falsa. Lenocínio. Ofensas corporais. Era uma festa e os processos dele parece que se acotovelam nas secretarias judiciais. Para o caso interessava uma cena qualquer de pancada na noite. Coisas de seguranças. Uma merda assim. Peanuts. Julgava-o preso ou extraditado... Enfim, Deus abençoe as criaturas da noite. E que o Rafael nos livre aqui do Vladimir Putin.”- Travo de cigarro - “Não posso deixar de pensar que faltam aqui as tuas duas amigas putas para que o ramalhete de aves raras se complete.” - Sorri provocador e levanta uma sobrancelha para quem ninguém duvide que ironiza. - “Lá estás tu Pedro! Elas não são putas…” - “E são o quê?” - Pedro troca um olhar cúmplice com Eduardo. Sara levanta os olhos e franze o canto do lábio. Pedro o dogmático, o dono da verdade, senhor de todos os catálogos sobre o Universo. “Pedrinho, elas não são putas…” - “Porquê? Andam com os gajos porquê? Pelos seus lindos olhos? É porque o preço não é acertado antes? Porque não passam recibo?” - “É fuga ao fisco!”- remata Eduardo com a estupefacção teatral de quem diz “Eureka!”- Filipa ri, neutral, rosto inclinado sobre o copo, sorvendo a palhinha amarela, sem ainda assim descolar os olhos do debate que segue meneando a cabeça como se o seu lugar fosse numa plateia de ténis. - “Vou à casa-de-banho.” - “Os serviços serão dedutíveis dos impostos?”- Os dois irmão riem-se e ferem os copos num brinde. Filipa ri. Ri sempre. Raramente intervém. Sara já lá não está para responder nem tão pouco para escutar. “A sério que não percebo essa linha. A puta, o casamento de interesses, o amigo rico que paga uns jantares, umas escapadelas paradisíacas de fim-de-semana. E então? A diferença. Um negócio mais explícito. Pago para te foder? É isso? Porra, pá! A linha devia ser na nossa honestidade. Nos motivos pelos quais fazemos as coisas. Pergunta metódica. Os meus sentimentos são baços ou cristalinos? O que me trás aqui?” - “E dormias com alguém por dinheiro?” - é Filipa quem pergunta. A questão era certamente provocatória. O próprio Pedro observava frequentemente que quase sempre o interlocutor escorregaria nas fragilidades do que ele próprio dissesse e pensasse que pensava. - “Por dinheiro?” - “Sim, ires com uma gaja para a cama por dinheiro. Por um emprego. Por tudo. Menos amor ou atracção.” - Pedro pensa. Levanta os olhos ao tecto e franze o lábio como é seu tique - “Dormir sem atracção... Suponho que não o faria. Acho francamente que não o conseguiria mesmo que o quisesse fazer. É a minha primeira causa de estupefacção. Sobretudo nas gajas. Ir prá cama com gajos que não as atraem. Ou que lhes causem mesmo asco! Mas mesmo nas situações cinzentas. A vida é sobretudo cinzenta, convenhamos... ... por exemplo, Pipinha, esquece o príncipe encantado e o velho Scroodge. Isso é fácil... ... mas e agora o tipo banal que não te atrai. Também não te repugna. É o tipo normal com que simplesmente não te vais em princípio envolver. Mas o dinheiro fala mais alto. E então, uma gaja dessas - inverte a pessoa da hipótese, que lhe parece indelicado colocar a ideia em Filipa - depois de se levantar da cama onde o gajo fuma o cigarro. Sabe porque o fez. Será que na casa de banho, quando olha para o espelho, não pensa, “Não sei quantas, tu és uma puta.”? – Filipa não sabe o que responder. De facto nunca pensou muito no assunto. Concorda vagamente com Pedro. Uma mulher descer tão baixo também lhe parece algo de muito pouco aceitável. Mas francamente não sabe. Tem 17 anos e a vida simples de uma miúda que não tem demasiado que a apoquente. Poder-se-ia dizer que é etérea. Mas Filipa também é arguta pelo que se sabe salvar dessa acusação, que não deixa de ser uma meia verdade. Gosta de Química e de Biologia: vai seguir Medicina. Também a História a faz voar nas asas do imaginário, pelo que se fascina com o discurso eloquente do namorado da irmã, nas suas longas dissertações sobre os mil assuntos que lhe ocorrem. Também gosta de basquetebol. E de roupas de marca. E da praia, e da noite e de Miguel, o namorado que ainda não tem a certeza se tem. Nunca pensou francamente em prostitutas nem nos porquês desse e de outros universos. Com 17 anos não é tempo de pensar nessas coisas, tão distantes da sua idade e do seu mundo. Mas agora pensa que Sara demora. - “Vou ver da minha irmã.”- “E tu, o que achas de dormir com uma prostituta?” - Eduardo aspira o fumo de tabaco de modo que a voz lhe sai mais quebrada do que o é naturalmente: “Não sei. Acho que é tudo uma questão de escolha. De opções. Eu não o faria, acho eu. Não me revejo nessa necessidade. Nesse acto tão puramente físico. Mas isso sou eu. Dos outros não sei.” - “Eu acho que é a degradação do outro e a nossa degradação. Suponho que haja nuances entre os motivos que levam uma mulher a prostituir-se. Da escravidão ao luxo, passando pela necessidade. Mas no fim da estrada vai dar no mesmo. Vende-se o corpo e perde-se a alma pela opção inaceitável. Há sempre uma saída! Esqueçamos agora a escrava sexual que essa é um caso de polícia. De resto, são todas literalmente umas putas. Dê por onde der, a escolha foi delas! E o gajo que dorme com ela, não sei se a deita ainda mais a perder, porque é a procura para o mercado ou também se perde ele. Em qualquer caso penso que me mete nojo.”
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