Agora os meus pés já sentem o cimento húmido sob si. Ouço o ranger do cordame largo que prende um velho rebocador enferrujado ao cais. Alguns metros mais para lá, pulsar de vida a contrastar com aquela relíquia que me garatuja o olhar, o armazém. Por aí, uma pequena multidão comprime-se em formação caótica junto à entrada de onde derrama uma luz azulada de néon. Chove amiúde, sobre esta espera estóica pincelada de reflexos prateados sobre corpos esguios, casacos longos e rasgos de cores berrantes nas fibras que vestem a pele. É uma tropa heterogénea. Bruno que abraça a namorada pela cintura com um braço, enquanto que com a mão que lhe sobra levanta a aba do casaco, esforço mais ou menos vago de se proteger da chuva que já sente na pele. A Rita, de t-shirt laranja que floresce sob o castanho felpudo do longo casaco. Tira o maço de tabaco do bolso de ganga desgastada e curva-se sobre si a tentar acender um cigarro. Alguns escolheram o fato-e-gravata e o vestido de cerimónia para esta noite. Para outros dir-se-ia que é só mais uma noite. Para alguns é mesmo. E eu penso que é curiosa esta necessidade humana de símbolos e ciclos da vida. Um compasso chega ao fim e a velhice do tempo dá lugar à renovação. Tantas vezes a renovação de absolutamente nada. Apenas da fugaz e vaga esperança de que as coisas pudessem ser diferentes. Raramente o são. E no entanto, esta noite e o seu ritual, pelo menos nesta parte do Mundo, não deixa de se repetir. Ano após ano... A cidade, a nação, o Mundo, pensam eles, saem à rua trajando as pinturas de guerra da festa. Cada um como quer e pode. O instante excêntrico e histérico de uma alegria sem raiz e sem destino que não a morte ao nascer da aurora. Exorcize-se a rotina e a tristeza de hoje mesmo e de já amanhã. Não há absolutamente nada para festejar. Ou talvez haja. Talvez os humanos hoje festejem a sua sobrevivência e a réstia de esperança que habite nos seus corações. É por isso que à porta deste armazém se aguarda a festa e se prolonga a fila. A demora ensopa e os rostos são uma montra de risos pacientes e saturações. Vou por entre a multidão. “Que merda...”-lamenta-se a voz nasalada de Rafa, o rapaz grande de camisa negra sob a gabardina, angustiado porque fecha a legião multicolor desta espera. Furo pelo labirinto humano. As palavras soltas de um mar de conversas que me envolvem cruzam-se no sentido contrário ao que vou, guiado pelo néon. É por isso que não retenho mais do que sons desconexos de sílabas difusas. Finalmente, a vanguarda desta coluna detém-me, na garganta do azul neónico. Anthoine, ruivo elegante, fato castanho listado sobre a camisa que talvez reflicta apenas o azul que se derrama sobre ele, indaga a rapariga de traços asiáticos que se segue. “Tem cartão da casa?”-sorri. Sorri sempre. Talvez com um esgar de troça de que não sabemos razões, mas sorri. O rosto da rapariga meneia a assunção semi-embaraçada de que não, pelo que, enquanto uma mão do ruivo elegante afaga o queixo, a outra indica a fila de pagamento. Entro com a dos olhos rasgados mas não me detenho quando um segurança de físico desmesurado lhe estanca o passo com um toque de pontas dos dedos num ombro. Tiniu o som digital do detector de metais. Subo as escadas pisando o tapete de veludo tinto que me escorre sob os passos -já não ouço o marulhar de ondas -Por instantes arrasta-se uma melopeia de uma só e eterna nota metálica. Uma voz suave fala-me dos sonhos de todos. Podia ser a voz de um anjo. Mas não creio que assim seja. Uma batida profunda que ecoa em todo o espaço fere a esteira da partitura e mescla-se com a difusão de sons psicadélicos que emergem e com o burburinho dos círculos em meu redor. Sempre aquela luz azul, de ricochete no imenso globo alvo ao centro, que derrama mais azul pálido na pele dos convivas e transtorna o espectro das imagens alucinadas que se projectam na ampla parede imaculada.
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