Vou em silêncio, agora que a travessia chega ao fim e o meu propósito ao seu início. A luz ténue e longínqua que avistei primeiro foi depois um formigueiro de luzes e agora é já distintamente cidade. Cruzo a linha costeira. Meu é ainda o som do mergulho de chuva e o marulhar de ondas, agora brandas, nesse lençol de oceano que se cospe na terra e que por aqui os Homens chamaram Tejo. Já há cidade que me abraça, à minha esquerda, em pontos de luz multicolor, ora quietos, ora serpenteando e desaparecendo. Aos meus ouvidos agora vem mais do que a sinfonia de água sobre água. Mesmo se abafados pela bátega, os pulsares subliminares das sereias e estertores da urbanidade dizem-me que para lá do rio estão as margens da Lisboa. Sobre mim passou o peso de sombra negra da brutalidade metálica em ponte que une as margens que o Tejo separa. Depois, vi desfilar os armazéns, a entrecortar o céu em sombras de negro e menos negro. Em alguns acendem-se luzes e consigo ouvir o burburinho da gente que por lá se reúne. E vejo aqueles que caminham apressados sob os candeeiros das praças em que a luz pincela a pedra de branco, movendo-se entre o trânsito de faróis intermitentes. Mais além, apenas a desolação da noite abandonada. Às vezes cruzada por uma viatura que passa na estrada estreita que borda o rio. Às vezes, pontuada pela meditação de um pescador, entregue à sua solidão, que fere a cana no espelho de água, indiferente à chuva que cai, mesmo se agora mais gentil. Na praça maior diria que converge toda a cidade. Uma multidão sob as luzes. Há festa e vibra o som ritmado que as colunas de som gigantes debitam a abafar a chuva. Não me detenho, que não é este o meu cais de destino. Ainda não. Mais um instante… … e chego. Sei-o porque se me abrilhanta a centelha no peito e perante a retina parece que cresce, em formas ora cúbicas ora excêntricas, o perfil cinzento de um cais desgastado e de um armazém à beira-rio.
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