Ninguém pode dormir para sempre. Isso seria a Morte e à Morte não interessa hoje Luna que é filha de Iemanjá e portanto tem outro destino, como vaticinou o Pai-de-Santo um dia a Natália. Por isso a Luna não resta senão emergir lentamente. Até de novo pratearem sobre a água raios de Sol. E poder ver o rosto desfocado de Natália que resgata a filha das águas. Só que quando se sente de novo à superfície a mãe desvanece-se sempre, para acordar a mais das vezes com uma sensação de solidão desoladora, não importa onde, nem importa como. Abre os olhos. Pela janela despida de cortinas penetra a luz do dia. Por segundos resta a incompreensão. Mas depois as imagens de azul e da explosão de sangue roxo afloram-lhe à consciência. A face de João que se apagou num mar de sangue, a brotar em golfadas da fonte estilhaçada, em rio pela pele de ambos, enquanto Luna lhe ampara no colo a cabeça do corpo já sem vida. Depois o grito que encheu o armazém. E aquele rosto feminino que a arrastou do mar cyanico. Como se fora sua mãe. “Fecha os olhos, anda, aperta a minha mão...” Depois de novo o baptismo e o despertar naquele quarto de hospital. Fechava-se o ciclo. Relembrar à queima-roupa deveria ser como ácido que lhe fosse vertido na retina. Mas por enquanto assim não é, imersa que está numa tranquilidade tóxica de Valiums que lhe permite contemplar aquela noite, a sua vida e a sua dor, como se fosse fora do seu corpo, imune de si própria. Descansa por ora, Luna. Dentro em breve os torturadores chamarão o teu nome. Não podes fugir deles para sempre, sob as águas do teu baptismo ou pela hipnose dos sedativos. Talvez haja quem possa, mas tu não.
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