quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A Bruxa - A Guilda dos Melancólicos - Os Intranquilos - Parte II


Para onde vão as almas quando os corpos morrem? Porque é que emergem os dons de ver mundos diferentes? A Fernanda Parrinha, a Dona Nanda, como todos a conhecem, não sabe exactamente a resposta para nenhuma das questões, embora ambas lhe tenham marcado a vida.

No Verão de 1985 a família Parrinha ia de Lisboa para São Miguel, o Anjo, lá para os lados da Maia, terra da infância da Fernanda, até que a vida a mandasse para casa dos tios. Ter emprego, arranjar marido, dois filhos. Vida normal. E no início de Agosto, ano após ano, peregrinar às origens, a Peugeot 204 carregada de mil tralhas, os putos aos saltos nos bancos traseiros. Mas naquele ano a viagem não chegaria a porto seguro. Uma ultrapassagem mal medida antes sequer de Leiria. A violência de um choque frontal. Lembra-se de pouco mais. De gritar, do som de travões. De pouco mais. E depois de despertar e sentir um desfoque branco sobre os olhos – “Estou viva, estou viva, estou viva!” – Á terceira, o grito de desespero sairia mesmo pela garganta. O bombeiro espantado destaparia ao lençol de óbito o rosto desfigurado daquela mulher ensanguentada e inesperadamente viva, com pasmo – “Hei, acudam, esta está viva!” – Fernanda sobreviveria. Mas o resto da sua vida não. Nos dias seguintes os mortos daquele dia fatídico desceriam os corpos à terra. Entre eles, Óscar Parrinha e os seus dois pequenos filhos. Fernanda não soube. Nem é certo que tenha sequer pensado logo nisso, sedada como estava, entre a vida e a morte. Depois meses longos no cativeiro de uma cama de hospital. Salvar a vida, sarar as fracturas múltiplas, reconstruir o rosto. Fernanda de facto sobreviveria. E porém, de alguma forma morrera naquele dia e renascera diferente. Como podia ser de outra forma, quando a fatalidade nos acerta tão em cheio? Ah, mas era mais, havia mais! Fernanda começou a sentir coisas. Uma voz a sussurrar, definamos assim na falta de melhor metáfora. Um olhar para lá do visível. Um saber que não é bem sentir e um sentir que não chega a ser saber. Ao início não percebeu, e atribuiu aquelas vertigens às drogas analgésicas a que o seu corpo se habituara. Depois teve medo. Por fim aceitou. Como não aceitar? Não se foge assim sem mais nem menos de coisas tão fortes, a menos que se queira ser raposa caçada por esta vida fora. Aceita-se, é-se. E nem precisa de se saber exactamente porquê. Talvez tenha sido gatilho de dor, talvez não se possa bater à porta da morte sem trazer de lá coisas. Ou talvez anestesia geral após anestesia geral tenham induzido alguma coisa química mal estudada no cérebro daquela que fora até então apenas a Fernanda, que trabalhava nos T.L.P. Fosse como fosse…       … a Fernanda via coisas. E por fim aceitou tentar entender o que queriam dizer.


O Senhor é o meu Pastor, nada me faltará.
Deitar-me faz em verdes pastos,
guia-me mansamente às águas tranquilas;
Refrigera a minha alma,
guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome,
Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte
não temeria mal algum, porque tu estás comigo,
a tua vara e o teu cajado me consolam;
Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos,
unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda;
Certamente que a bondade e a misericórdia
me seguirão todos os dias de minha vida,
e habitarei na casa do Senhor por longos dias.
Amém.

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