“E Ana?” – Luna queima o haxixe com o isqueiro. – Pedro desmancha-se num sorriso que é quase de quem ri. – Epá,, sei lá…” – “Desapareceu mesmo? Nunca mais disse nada?” – “Sim, acho que sim. Aquele email foi mesmo uma despedida.” – Luna franze o lábio. – “Despedida de nada, né? Vocês nem nunca se conheceram!” - Aquela Ana não lhe tinha batido de todo certo. Havia ser doida, ou complicada ou ter algo a esconder. Mas que não batia certo, lá isso não batia. Mas o amigo também é doido. Ficou doido. Foi talvez a sua forma de anactesia, quem sabe? Aquela loucura romântica que projectou no jogo a que chamou Ana.” – “Sabes, acho que Ana foi um sonho poético. Se podia ser mais do que um sonho? Não sei, Luna, não sei mesmo. Mas enquanto sonho… … olha, sonhei. Senti-me vivo, tive esperança de que posso sei e vou amar de novo. Acho que é essa a lição”. – “E vais sim, querido, vais ver que vais.” – Luna e Pedro nos seus interlúdios a versar o amor, a tristeza, o riso e as lágrimas. Há muitas Lunas e muitos Pedros naquelas conversas semeadas pelos quatro cantos da cidade, nos seus dias e nas suas noites. Loucos, trágicos, poéticos, melancólicos, desvairados. Mestres recíprocos e à vez da casmurrice de murro em ponta de faca a que se predispõem ambos quando o capricho lhes dá para aí. Nos despojos do almoço a rodar um charro a dois na Casa da Boneca, a rotina renova-se. – “E aquela Marisa, continuam saindo?” – “Temos saído. Epá, mas não é aquilo, Luna.” – “Porque é que não tentas? Deixa rolar! Parece uma moça bacana…” – “E é, e é! Eu gosto dela. Pá, mas… … sabes aquelas coisas que já sentimos? Pelo João, pela Sara? Puff… … nem quando saio com ela, nem quando vamos para a cama, nada.” – Pedro abana a cabeça e desenha parábolas sobre o vazio com o semblante. – “Nada, Luna, nada…” – “Mas é mais real que Ana, Pedro. Da realidade podes fazer um sonho. Só não sei se de um sonho podes fazer uma realidade.” – “Eu sei, Luna, bem sei. Olha, não sei o que te diga. Há coisas que me deixam triste se penso muito…” – “Eu sei querido…” – Luna varia o tom de voz, a querer animar ambos, enquanto passa os despojos torcidos de papel chamuscado de uma ganza meio fumada ao amigo. – “Faz quase um ano que somos amigos, já pensou?” – “Caramba, amiga é verdade!” – “Te adoro, sabia?” – Pedro inclina o corpo no sofá de tecido listado e passeia o dedo indicador no nariz da amiga. – “És fantástica, brazuca. Devia-me era ter-me apaixonado por ti.” – Luna ri e troça. – “E não apaixonou porque é muito besta. Ainda não aprendeu o que é mulher para valer! Anda procurando a gaja com seu número ideal!” – Pedro desmancha-se numa gargalhada enquanto apaga o charro moribundo. – “O núuumero ideal! Epá, já não me lembrava dessa!” – “E já sabes qual é?” – “Eheh, o número ideal... não há número ideal, pá. Eu é que era parvo, começo a concluir isso.” – O número ideal. Meses antes mais um Pedro e mais uma Luna numa noite quente de Verão. Na esplanada das Portas do Sol, separados pela mesa e duas cervejas geladas. Já não sabe bem como a conversa começou. Mas sabe em que momento, à palheta, chegaram ao ponto alto, cómico e idiota da noite. – “Foda-se Luna, a gaja é cá uma puta. Não estás bem a ver, já na altura rodou a turma toda.” – “Pedro, que é isso?! Uai, e a menina lá é puta por isso. Ah!” – Pedro ergue as mãos num argumento mudo. – “Epá, cada um faz o que quer, claro. Mas porra, Luna, há cenas que não me entram” – Os olhos negros da morena estão zangados. – “Eu também já fodi muitos gajos. Então tu acha que eu sou puta!”- Pedro agora está envergonhado. Baixa os olhos à cerveja a pensar que não se devia ter metido por aqueles meandros – “Oh, sabes bem que não acho isso…” – “Só porque sou tua amiga! Epá, Pedro, A vida é para curtir, gozar. Você tem que respeitar a vida, todo o mundo. Não vá medir ninguém pelos parceiros sexuais que teve. Isso é absurdo, Pedro!” – Pedro está com cara de menino que fez travessuras. Esmaga as sobrancelhas uma contra a outra e faz beicinho. Está uma noite mesmo soalheira. Quente, de céu limpo sobre Lisboa, com a paisagem a descer em presépio dali por Alfama a jusante, o Panteão iluminado, depois o rio e os pirilampos das naves a cruzar dolentes o Tejo – “Oh, Luna, não é nada disso. Pá…. …há muitos e muitos, sei lá, há motivos diferentes, há histórias diferentes. Oh, bem sabes que sou razoável!” – Mas Luna está muito mais divertida, em semi-secretismo, do que zangada. E não vai deixar fugir a sua presa favorita. O seu lobito doce e casmurro – “Há muitos e muitos... … então e muitos de puta é o quê, me diz.” – “Opa, sei lá! Porra, depende. Tu não achas que há coisas excessivas? Eu acho! Mas não sou moralista. Porra, vamos vivendo a vida, vão acontecendo coisas. Vamos somando casos, eu sei.” – “Sim, mas me diz qual é o número ideal?” – “Número ideal?” – “Sim, o número de gajos que tu tolerarias no cv da tua gaja, pá! É oito, é dez, é cem?” – Pedro enrolar-se-ia todo na sua oratória do costume mas a amiga seria implacável e ele não saberia responder. Ao cabo de todos os seus argumentos, Pedro não se atreveria e eleger o número ideal. E depois passaram os dias e os meses e as lágrimas e os risos. Tudo muda se os dias correm. E Pedro estava a mudar. Por isso, na casa da boneca, os dois amigos riam agora do número ideal e Pedro aprendera as cautelas da palavra “puta”. – “Quando é que vais para o Brasil, mesmo?” – “Tenho voo dia 21, logo cedo.” – “Terça, portanto… … e voltas?” – “Dia 30.-“ – “Ah, então passamos o Ano-Novo juntos!” – “Gostava muito, Pedro. Sei que também vai ser uma noite dolorosa.” – “Eu sei…” – “Mas ia ser bom ter junto de mim um amigo como tu.” – “E será um prazer, Luna.” – “E estou a pensar perguntar para o César se não quer vir. O que é que tu achas? – Pedro abre a expressão – “Claro, pá, ia ser porreiríssimo. Estou curioso para conhecer o famoso César. O meu irmão regressa Quarta-feira. Já te tinha dito?” – “É mesmo? Que bacana! Vou conhecer finalmente o Lobito Júnior! Vai ser uma noite de conhecimentos” – Luna rasga um sorriso. - “Pois, e ele também deve passar a Passagem connosco, claro.” – “Fixe!” – “Mas fala-me lá como é que isso vai com esse César…” – “Ah, está sendo bacana. Ele é muito querido, saímos conversamos,.” – “Eeeee…?” – “Bom e já demos aí uns beijinhos...” – “Eh lá, sua doida!” – “Não, mas acho que está indo muito bem. Ele respeita meu tempo. E eu, olha, não estou curada, mas me sinto sarando, sabe?” – “E a cor…?” – Silêncio… - “Ando pensando nisso. Sério que ando…”
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