Sara calcorreia os degraus do alpendre a matraquear os saltos na pedra, casaca vermelha a afagar as lages. A campainha soa. Quem lhe abre é Sofia. – “Sara! Entra, querida.” – Sara não diz nada. Entra. Vem afogueada – “Então, estás nervosa… … como correu a reunião?” – Sara quer controlar-se. Respira fundo, fecha os olhos por um segundo – “O Pedro?” – a voz tremeu mas a frase saiu – Sofia ergue a voz ao andar de cima a chamar o filho – “Mas e então? Vá, Sara, senta-te. Olha, bebes alguma coisa?" - A rapariga nem responde. Vem transtornada. Sofia nem sabe bem o que diga, ela própria já apoquentada, a temer o que se tenha passado e que Sara lhes traga. Pedro desce as escadas em corrida. Sorri. Talvez tenha chegado a sorrir antes de ver a expressão desesperada da namorada. – “Então?” - mas Sara investe para si em passadas rápidas e com a ponta dos dedos empurra-lhe o peito – “Como é que foste capaz? Como?” - desfaz-se em lágrimas – “Sara, mas do que é...” – “Foste muito cabrão, pá... ... eu confiava em ti. Merda, como é que foste...” – “Sara!” - Pedro aperta a namorada pelos ombros. Por um segundo, até que ela lhe fuja, sacudindo-lhe as mãos e recuando. Rosto lavado em lágrimas. Muita, muita raiva. Muita, muita decepção. – “Estás feliz? Destrois a minha mãe. Vais destruir toda a minha família. Diz lá, cabrão, estás feliz?!” - Sara praticamente grita. Pedro nada diz. Olha-a. Uma expressão indescritível no olhar – “Oh Sara, estás muito nervosa, senta-te, vamos conversar. Explica-nos o que se ...” - mas Sara não permite a Sofia que continue – “Estou muito nervosa? Vocês, vocês... ... sabem o que me estão a fazer?" - Os olhos de Sara fazem a ronda ao amplo salão – “Vocês e as vossas vidinhas perfeitas. E os vossos valores todos. Mas quem são vocês para destruirem a minha mãe? Como se os outros fossem merda! Como se vocês fossem todos santos! Vocês não são santos! Vocês são uns sacanas de merda, todos, todos! E tu, tu, Pedro, és um nojo. Um nojo. Odeio-te! A minha mãe não é merda! Percebes?” – “Sara, filha, anda cá” - Sofia ia tentar abraçar Sara. Sabe-se lá se ela deixaria. Mas nem foi Sara quem o proibiu – “Não, mãe! Vai-te embora, Sara, acho que está na altura de te ires embora.” - O mundo parou. O rosto húmido de Sara. O rosto sem expressão de Pedro. Sofia viu Álvaro nos olhos que o filho herdara ao pai mas que transbordavam sempre a contemplação da mãe. Mas agora não. Não hoje. As sobrancelhas de Sara erguem-se em espanto, em dor. Talvez em mais. O anjo à sua frente, sentiu que a poção fosse mais caótica mas nem ele a definiu bem. Olha Sara nos olhos e se pudesse dir-lhe-ia. – “Não vás, não vás...” - Mas Sara trespassa-o com o olhar e é nos olhos do namorado que os seus olhos castanhos húmidos se crispam. E naqueles olhares cruzados, com um anjo de coração metralhado em terra de ninguém, devem ter sido ditas coisas entre os amantes. Sim. Talvez nem o anjo saiba, só o soube Pedro, certamente, talvez Sara e hoje eu, que vos conto desses dias. Mas nessa conversa de um silêncio desolador, naquele momento, os olhos de Sara disseram finalmente a verdade. E o rosto de Pedro, naquela hora, mentiu. - “Vai-te embora, Sara. Não voltes a vir cá.”.
Sei que não sou santa
às vezes vou na cara dura
Às vezes ajo com candura
Pra te conquistar
Mas não sou beata
Me criei na rua
E não mudo minha postura só pra te agradar
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