Sent to yellowledbetterlx@hotmail.com,
at 22:12:09 19-07-2004
Meu irmão,
Aconteceu algo. Bom têm acontecido muitas coisas, como se a minha vida se decidisse a seguir em frente depois de respirar fundo nas minhas tristezas. Agora conheci alguém. Precipito-me, em rigor não conheci. “Cruzei-me” com alguém na Internet com quem tenho falado muito. É como um pedaço de sonho novamente. E é estranho, porque sentimos coisas indefiníveis por alguém que ainda nem sequer conhecemos. Temos palavras, meia dúzia de fotografias na retina e uma voz. Ontem falámos pela primeira vez ao telemóvel depois de – quanto tempo? - quase um mês de conversas diárias online. Longas conversas a perder-nos nas madrugadas e a cavar olheiras para o dia seguinte. Mas no dia seguinte ambos estamos lá de novo e a química repete-se. É como completar peça a peça um puzzle, e começar justamente onde as coisas normalmente acabam, o plano interior, para lentamente irmos regredindo nas voltas concêntricas até que cheguemos à periferia da pele, da imagem. E se esta promete a imagem de uma gaja gira! (eheheh). É de facto curioso. Tem sido de facto curioso. Partilhar tantas conversas, tantas coisas que pensávamos só nossas e pasmarmo-nos a rever em coisas do outro reflexo nosso. A Ana tem-se revelado fascinante: labiríntica, enigmática, doce, poética. Estou, confesso, muito curioso para a conhecer. Porque ainda não o fiz? Acho que ambos o temos adiado para degustar este momento de poesia cega. Em que primeiro houve nada, depois uma mistura de ilhas de realidade num mar de suposições e em que lentamente nos vamos materializando na realidade de uma relação. Que relação? É uma boa pergunta, meu caro irmão. Abstenho-me tanto quanto posso dos conceitos de paixões platónicas. Amizade? Não sei. Em todo o caso um elo especial entre dois estranhos que o são absolutamente e no entanto cresceram para bem mais do que essa estranheza.
Beijo do teu irmão,
Pedro
É PROIBÍDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR
“Isto é estranho. É sempre estranho.” – coça a barba, meio tímido, meio divertido – “Já tinhas conhecido alguém pela net?” – “Sim, algumas pessoas, mas é sempre estranho, assim de caras. Não achas?” – “Ainda estou recolhendo input.” – “Então?” – “Bom, és o segundo da lista.” – “Há uma lista?!” – Luna dá uma gargalhada. – “Credo, eu sou mesmo desbocada. Deixa eu te contar uma coisa. Comecei a experimentar isto da net junto com meu melhor amigo. Fizemos uma aposta. Dez nomes, dez mensagens. E ver no que dava.” – “Ah, sou o concorrente número dois. Bom saber…” – “Bom, na verdade és a mensagem sete, se bem lembro, e o blind date dois.” – “E é suposto sentir-me porreiro com isso? Sabes colocar um gajo à vontade!” – César dá uma baforada no cigarro e ri.” – “Não liga, eu sou assim mesmo. O Pedro é que diz para todas que são únicas.” – “O Pedro…?” – “Meu amigo.” – “Ah, e está-se a safar?” – “Já saíu aí com duas ou três moças. Mas cismou logo na mais complicada que não está lhe dando mole.” – César ri sempre, apaga o cigarro e bebe um trago na cerveja – “Típico de gajo…” – “E tu é assim? Dei mole, foi?” – “Não, eu não sou típico… … costumo dizer que sou um alien.” – “Um alien triste… … olhe só esses olhos, César.” – “Ontem seria o aniversário da minha mãe…” – “E como é que te tens sentido?” – “É como temos falado, Luna. Muita triste. Coração partido em mil pedaços, garota. Como se mo tivessem partido em mil pedaços e roubado uma parte. Sinto que mesmo que comece a montar as peças, vai faltar alguma coisa sempre. Não volta a ficar completo, sabes?” – “Claro que vai. A dor não rouba o coração, apenas se torna parte dele. Como uma cicatriz de vida.” – “E disso tu também percebes… … pois… … mas é tudo muito duro. Dói por mim e ver o meu pai num farrapo. Mas conta-me…” – César sacode o corpo e excita o tom de voz, como que a exorcizar a sombra dos seus pensamentos mais desolados – “Como é que me estou a sair na minha entrevista?” – “Nota vinte desde o primeiro email até a esta tua última frase.” – “Melhor que o concorrente anterior?” – “Ai credo! Que horror!” – “Ah, saiu-te um feio?” – troça – “Nem era isso. Até que ele era bonitinho. Mas maniento, nossa! E depois a profissão, oh só: designer de cemitérios, pode?” – “Bom de facto, modéstia à parte prefiro ser designer de luz.” – “Éeeee. Bem melhor. Está ganhando de dez para o gajo! Vamos tomar outra?”
Received from yellowledbetterlx@hotmail.com,
at 16:28:54, 23-07-2004
Fratello de mi cuore, eheheheh
Meio Erasmus já lá vai. E um gajo dá por si naquela meia angústia de só nos restar metade. Está a ser uma experiência e tanto. A todos os níveis. Mas também há coisas aí que chamam por nós. Tenho saudades tuas, pá!
Com que então agora andamos a pescar gajas boas da net, eheheh? Acho bem! Fico contente de te ver recuperar o teu entusiasmo, o teu sorriso. Agora, para a tua vida ser perfeita falta-te um granda date com essa Ana e, claro, o teu irmão favorito de volta. Mas isso só lá para Dezembro.
Beijos desde Bolonha,
Eduardo
Ao sinal de acedência do porteiro, os dois amigos subiram as escadas que conduziam ao terraço do Tamariz. O Verão caminhava para o seu pico quente e quente era a noite, mesmo se temperada pela frescura do mar na Linha. Luna mede a ansiedade mal disfarçada de Pedro, que se denuncia na forma como olha em redor - “Combinaram o quê?” – “Ela disse que apareceria.” – “E onde?” – “Mandaria mensagem depois do jantar.” – “E até agora não disse nada?” – “Não…” – O telemóvel vibrou no bolso dos Jeans de Luna – “Olha só que querido…” – lê a mensagem ao amigo – “Morena giraça, e uma esplanada de praia a dois amanhã?” – Quando Luna se derrete, o seu sorriso rasga-se naquilo a que Pedro chama o mais pepsodent dos sorrisos e a voz desmancha-se numa risada aflautada que ele não saberia imitar. Pisca-lhe o olho. Mas já roda novamente a visão ao redor. Ansioso, angustiado, impaciente. Hoje, depois daquelas semanas loucas, de tantas palavras trocadas e de sentimentos a pairar num vazio, Pedro conhecerá Ana. Não. Tocará Ana, que de resto sente que lhe conhece até ao íntimo, das conversas noite fora, às vezes até que rompesse o dia. Olha o mar. Depois a fila que se oferece à espera e ao arbítrio dos seguranças do Tamariz. E pensa que talvez, quem sabe em minutos, Ana ali lhe apareça e lhe sorria e lhe acene – “Diabo, tempo, passa!”.
“És mesmo o que pareces?” – “Gosto de pensar que sim.” – “É que se tornou muito importante para mim.” – “Para ambos...” – “Tanto que temo que tudo se desfaça em ilusão, percebes, Pedro?” – “Não temas. A sério. Acredito que às vezes sonhamos mesmo coisas que existem.” – “E se tudo se perde?” – “Tudo, como?” – “Tudo isto. Esta poesia. Não vejo isto nos outros. E no entanto para mim não suportaria que acabasse nunca.” – “Então, dancemos.” – “Arrastas a voz. Tens sono…” – “Muito.” – “Queres desligar?” – “E no entanto não quero. Nunca quero.” – “Então não desligues. Posso-te levar com a minha voz até ao sono, pelos sonhos?” – “Oh, claro que não…” – “Shiu… … deixa-me que o faça. Peço-to. Deixa-te dormir.” …
… …
… …
… …
… … …
“Pedro, gosto mesmo muito de ti…”
“Olha, acho que vi passar a Ana no andar de cima. Espera vou lá ver.” – Pedro mergulha na multidão. Luna entretém os dedos numa “sms”.
Pedro,
Sei que deves estar muito desapontado comigo. Este email é um pedido de desculpas e uma despedida.
Ontem não fui capaz.
Acho que a meio caminho percebi que já não ia lá para te conhecer, que não teria coragem. O medo que se foi apoderando de mim foi-mo dizendo e naquele momento isso tornou-se claro. Eu não tinha, não tenho, coragem de submeter um sonho tão bonito à prova da realidade. Não consigo. Prefiro guardá-lo para mim para que não morra. E por isso ontem só lá fui para te espiar, para ter uma recordação tua, do teu sorriso, que não fosse só de fotografias de momentos teus que eu não vivi. Estive tão perto de ti! Sem que soubesses. Vi-te primeiro esse teu sorriso bonito. Depois vi-te minguares em tristeza e decepção. Senti tudo isso e senti-me muito culpada. Quis arranjar coragem de te abordar, dizer “olá”, dar-te um beijo, pegar-te na mão. Juro que quis. Mas não fui capaz. E sabes o que é mais belo e triste, ambas as coisas não sei? És exactamente como te sonhei, nos nossos momentos. A sério que és, querido! És muito bonito. Dei por mim a rir-me e a enternecer-me de quando me dizias que és um meia-leca. Mas és um meia-leca bem bonito, mais do que pela beleza que tens, pela forma doce como olhas em redor. E é como eu imaginei. Mesmo a tua amiga. Era a Luna que estava contigo, não era? A vossa cumplicidade, o vosso riso. E eu, ainda assim, congelei ali.
Não sou capaz, Pedro. E vou ter que te pedir que tenhas a generosidade de me perdoar. Gostava que me recordasses com carinho, sabes. “Conhecer-te foi, foi… … mágico!” – Ou esquece-me se for melhor para ti.
Agora está na hora da doida da Ana desaparecer. Tenho obviamente muita coisa a resolver comigo própria. E não é saudável nem sequer lógico que persista na tua vida. Hoje encerro esta conta de email para que não tenhamos tentações. Peço-te que não me voltes a ligar. E sei que respeitarás.
Sê feliz. Gosto mesmo muito de ti.
Ana Rio
Domingo, 8 de Agosto de 2004
A poeira dos sentidos
Alguma vez Deus terá legislado sobre definições de sentimentos e sobre fronteiras e figuras anómalas e ecléticas, como nas teses jurídicas que estudava na faculdade? Poderemos medir o coração a régua e esquadro? E poderemos ter a ilusão de sentir? Ou tudo o que nos faz pulsar existe necessariamente, se o sentimos?
O Diabo vinga-se de mim e das minhas mil regras fazendo-me violar todas, ao que parece.
O pateta é deserdado pelo fantasma de um amor platónico. Até o Diabo se deve mesmo ter rido.
Até sempre, Ana…
Posted by Pedro
Without you now I see
How fragile the world can be
And I know you've gone away
But in my heart you'll always stay
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