terça-feira, 9 de outubro de 2012

A vez da caça - A Guilda dos Melancólicos - Alicerces no Silêncio - Parte V

“Não nos devemos então preocupar?” - “É como te digo, pá. A doutorinha do banco esticou-se. A assinatura é uma falsificação grosseira, já vi a documentação toda. Falsificações grosseiras na papelada toda. Também já fiz alguns contactos. É um filme bem maior. A outra cabra maluca enrolou uma data de gente, clientes. Na agência dela foi uma festa: falsificações, abuso de confiança. Está ali um escândalo doido… … e sabes como os bancos são alérgicos a escândalos…  … e depois os gajos já perceberam que não és o melhor gajo em quem morder. Sobretudo dentadas em seco. Acho que estão mortinhos para deixar cair tudo em esquecimento. Oferecerem-te um bom juro e serem amigos!” – “E então, e agora?” – Sá interrompe e faz sinal ao empregado para que se aproxime – “Então e agora a questão é se queremos apanhar aquela cabra.” – “A Marília?” – “A Célia, Álvaro, a cabra do B.I.C.I.” – Álvaro pondera por um momento – “O que é que te parece?” – “Traga mais uma garrafa de Ballantines, velho.” – depois rodou de novo o corpo gordo para a mesa baixa, na direcção do amigo – “Pá, ela estragou as coisas do Pedro com a míuda dele. Eu até posso ser um velho velhaco e putanheiro e o diabo a sete…  … mas ainda acredito em algumas coisas. E uma delas é a dignidade da minha toga, sabes? Chama-lhe uma inversão das coisas. Há por aí betinhos feitos santos que conspurcam a profissão. Eu sou um degenerado nas horas vagas mas sou um gajo sério. Fui sempre.” – Álvaro coça a face – “Queres fazer queixa dela à Ordem?” – “Oh, meu amigo, que falta de imaginação!” – sorriso velhaco a eriçar a barba farfalhuda – “As putas não se processam, pá! Fodem-se…” – “Estás a magicar alguma…” – “Cadeia alimentar.” – “Cadeia alimentar?” – “Sim. Simples. Nós apertamos os tomates ao banco. O banco para  aliviar os testículos serve-nos uma cabeça numa bandeja. A cabeça de uma gajita tão ambiciosa como realmente pouco importante e descartável. E eu fodo-a.” – “E como se prepara esse cozinhado.” – “Com ingredientes que me vais fornecer, claro” – Álvaro num esgar intrigado de quem não percebe – “Bom, no meio desta história toda aqueles artistas ainda não limparam a informação que deram dos vossos nomes para o Banco de Portugal…” – “Sim…” – “Pois bem. E tu agora vais precisar de crédito para uma oportunidade fantástica de negócio. E vais garantir com as tuas connections que esse crédito te seja recusado com fundamentação declarada na informação do Banco de Portugal.” – “Estou a ver…” – “Meu caro, tu vais ter muitos prejuízos. Coisa trágica…” – Sá encena um ar condoído com a farsa – “Mas trágica mesmo! Daquelas tragédias que podem sair tão caras numa acção de indemnização contra um banco, mas tão caras, que se dissipe qualquer tentação nobre de solidariedade institucional com uma advogadazeca que tenha cometido um erro…” – “Álvaro meneia a cabeça – “És o pior…” -  “Boa noite, Álvaro.” – os olhos cinzentos do interlocutor olham a mulher que se lhe dirige com espanto. Justifica-se. E por várias razões – “Bruna!” – Francisco também se espanta. Os motivos são convergentes, só que se diverte sempre mais que o amigo. E por isso o seu semblante é um desenho de semi-troça – “Tenho esperado te encontrar.” – “Sim, nunca mais te vi. Desapareceste daqui.” – “É. Aconteceu muita coisa desde então.” – “Mas senta-te. Então, a vida mudou portanto…” – Bruna aceita o convite. Mas esta noite há algo diferente e Álvaro pressente-o. Passou mais de um ano desde a última vez que estivera com Bruna. Depois pura e simplesmente desaparecera dali. O número do seu telemóvel também fora desactivado. No espaço de dias Álvaro desistia. E esquecia, claro. Talvez Bruna tivesse mudado de sítio, de cidade, de país. Era comum na sua profissão. Talvez tivesse tido problemas com o S.E.F. e fosse recambiada para o Brasil. Algo assim. Fosse como fosse, Álvaro pensara nela com vaga tristeza e preocupação. E depois esquecera. Mas agora aquela prostituta de quem gostava, tanto quanto podia, estava ali. Com um ar sério e um timbre diferente na voz. Sem as conversas mansas de gata assanhada da noite a trepar por ele acima. Mais estranho, tratava-o pelo nome que nunca lhe dissera – “E então, não mudou. E sabe, eu queria muito que mudasse. Quero muito. E antes de mais, tome, é seu.” – retira um anel de ouro que trazia no polegar esquerdo e entrega a Álvaro – Este olha-a com espanto – “Você esqueceu no quarto na última vez que esteve comigo, lembra? Quero começar a meter coisas no lugar na minha vida. Daí, quis devolver para ti. Não me pergunta porquê. Mas achei que tinha.” – “Meter coisas no lugar…  … queres largar esta vida?” – “E vou largar.” – “Voltar para o Brasil?” – “Não sei ainda.” – “E sabes o que fazer a seguir?” - “Não sei. Mas me deixe, eu dou um jeito. Não tenho medo de batalhar. Fica bem, está?” – Bruna levanta-se e vira costas a Álvaro e Francisco – “Bruna!” – “Fala.” – “Olha, tens um número de telemóvel que me possas dar?” – Bruna meneia a cabeça – “Você não precisa de meu número. Eu não vou mais vender meu corpo.” – “Faz-me esse favor. Dás-me o teu contacto?”

Acabou
Agora ta tudo acabado
Seu vestido estampado
Dei a quem pudesse servir
Agora que eu não posso mais caber em ti
Não quero te ver, dizem que você não quer mais me olhar
Como velhos desconhecidos se você não me escuta eu não vou te chamar
O amor que eu dei não foi o mesmo que eu vi acabar
O amor só mudou de cor, agora já ta desbotado
Corra lá vem à tristeza atirando pra todos os lados
Pegue o vestido estampado, guarde pro carnaval
Guarde que eu nunca te quis mal
Até o feriado quarta feira de cinzas e ta tudo acabado

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