A luz vermelha emprestava à divisão uma atmosfera irreal. Um a um, os rectângulos de papel eram retirados com delicadeza do banho químico e pendurados a secar nas duas cordas com que Luna atravessara a casa-de-banho. Está curiosa. Da primeira vez fotografara a festa com um rolo de cor. E no ano anterior tirara algumas fotos despretensiosas com a máquina digital de João. Como resultaria o colorido daquela festa a preto-e-branco? Luna ajeita os óculos de massa negros na ponta do nariz e franze o rosto, que é como quem diz a focar a visão míope. Sorri, a passar revista às fileiras de fotos. A velha rechonchuda a servir a sardinha, os putos a correr rua a baixo, o marchante com a caneca de cerveja. Algumas estão fantásticas. Pedro na sua sequência de poses mentecaptas no Castelo. Mas não é só Pedro que está terrível. As fotos parecem estragadas – “Que coisa…” – Luna aproxima o olhar a uma das fotos, a tentar perceber aquele desfoque estranho. Depois arregala os olhos e as pupilas dilatam-se. A segunda fotografia. E a terceira. As mãos nervosas arrancam a terceira fotografia da secagem. Recua dois passos, tacteia a parede. O corpo escorre, cai. A foto solta-se. Os olhos de Luna fitam-se no vazio, incapazes de se cerrarem ou verterem lágrimas.
“Sacana, tinhas sede…” – O cão mergulha o focinho na gamela e bebe com espalhafato – “Pergunto-me de onde virás, camarada. Sabes que ando a pensar convidar-te para dividires a mensalidade comigo?” – Pedro flecte os joelhos e procura a empatia do olhar do animal – “Mas ias precisar de um nome… …. Sempre achei que Diogo era um bom nome para cão. Diogo Cão Pizarro Lobo, que me dizes?” – E o animal que estava prestes ao baptismo de Diogo olha o seu novo amigo com aquele ar semi-pateta e eternamente empático que um cão empresta sempre aos homens de quem gosta – “Mas primeiro tínhamos que fazer uma visita ao veterinário, lamento informar-te, amigo. Tens pinta de quem morde a carteiros e veterinários. Será?” – Na verdade aquele bicho malhado não tem ar de quem morda a quem quer que seja, mas a imagem diverte Pedro. E iria continuar aquela conversa que por ser com bicho está por definir se seja diálogo ou monólogo. Mas lá dentro soou o telemóvel.
“Pedro, estás em casa?” – “Sim, Luna, que se passa? Que voz é essa?” – Olha, posso ir para aí ter contigo?” – “Claro!” – “Estou saindo da Graça, então.” – “Porra....” – Pedro inquieta-se. A voz da amiga tinha um peso indescritível. Teria algo a ver com a noite anterior? – “Claro que não, que parvoíce!” – Luna até poderia estar meio confusa. Mas certamente que não ficaria assim. E ele, como ficou? Foi estranho. Não tinha coragem de o admitir, mas antes só tinha conhecido Sara. E por isso fora… … estranho, novo, libertador. Como um sinal de que a sua vida estava de facto a mudar e era tempo de abrir portas. Não sentira amor, isso não, sequer paixão. Mas carinho, vertigem. Sexo. Se conseguisse ter a certeza de que não magoara Luna, então tudo seria perfeito. Mas tinha apenas quase essa certeza. Olhou o relógio e lançou-se a calcular quanto tempo demoraria a amiga – “Deve haver trânsito para as praias, vai demorar…” – Coça a cabeça e pensa que haverá tempo para uma sesta.
Pedro despertou com o som da campainha. Saltou assarapantado, na ilusão preocupada de que dormira horas e horas e correu para a abrir – “Estavas dormindo?” – “Hmm, sim, uma sestazinha. Que horas são?” – esfrega os olhos – “Quase seis.” – “Queres um café, um chá?” - Luna aceitaria um chá. Enquanto Pedro o preparasse não falaram, ou se falaram foi de banalidades. A rapariga quereria falar do que quer que fosse que a levara ali nessa tarde quando se sentassem e se focassem e Pedro adivinhava isso. E por isso aguardava ele e entregava à amiga a gestão dos tempos de conversa - “Acordei com a boca encortiçada.”
Luna sentou-se no sofá da sala. Pedro puxou o puff vermelho e sentou-se à sua frente, pernas cruzadas, corpo curvado a apoiar os cotovelos sobre os joelhos – Que cara, Luna…” – “Olha, Pedro, eu preciso de desabafar algo contigo. E te vou pedir que tente acreditar em mim.” – “Fogo, mas que parvoíce, é claro que acredito!” – “É que se eu não conto para alguém, vou ficar louca e não sei mais o que faça.” – “Assim, preocupas-me. Mas vá, diz lá…” – Luna respira fundo e tenta achar as palavras por onde começar – “Eu tenho sentido o João.” – As sobrancelhas de Pedro Lobo franzem-se – “Tens sentido o João…?” – “Olha, depois que ele morreu, tudo lá em casa começou a avariar.” – “Hmm, continua…” – “Às vezes o cd liga sozinho de noite, pá. Ou chego a casa e está tocando.” – o rosto de Pedro parece-lhe que se alivia – “E não terás pura e simplesmente um leitor de cd’s marado?” – “Lembra da tarde em que te conheci?” – “Sim…” – “E então, nessa noite, chegando em casa, estava a música ligada e o espelho da sala, sabe? Por cima do sofá? Estava quebrado. E cai copo no chão, do nada. E sonho, sonho muito. E hoje, olha.” – Uma mão nervosa tira um envelope da mala de pele. Luna entrega-o a Pedro. Não o confessaria, mas o que viu fez com que um arrepio lhe percorresse o corpo, a eriçar cada pelo sobre a pele. Em cada uma das fotos uma presença enevoada ao seu lado. Na terceira podia reconhecer distintamente os traços do rosto de João, a fitar um olhar pesado na objectiva. Respira fundo, quer organizar as ideias – “Tinhas fotos antigas no rolo?” – “Não, Pedro…” – Pousa as fotografias no chão – “Como te sentes?” – “Triste, pá, né? Muito triste. Pesada. Me diz, como é que eu vou conseguir seguir em frente?” – o lábio treme-lhe e a voz fraqueja – “Olha, e…” – um som estridente a gritar-se na divisão ao lado interrompeu-o. Pedro e Luna correm para a cozinha. A chama do fogão mantém-se viva. Mas na parede há um rastro húmido e o púcaro fraccionou o vidro da janela numa teia quadriculada em estilhaço e despojou-se na laje do chão, a sangrar a água amarelecida do chá. Por momentos ninguém conseguiu dizer nada. Pedro foi o primeiro a reagir – “Eu sei, não digas nada. Respirar fundo e pensar isto com calma. E fazer mais chá, pelos vistos…”.
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