quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O sonho de um anjo - A Guilda dos Melancólicos - Metamorfoses escolhas e um sonho de dominó - Parte I


Há uma lenda antiga que diz que Deus fez os anjos da carne dos homens, das asas das aves e com um fogo divino no lugar do coração. Ninguém sabe ao certo se assim é, só Deus. Da visão de anjos por mortais só restam os mitos, de que as raízes se perdem na noite dos tempos. E por isso não se sabe ao certo na Terra se existam. Os anjos, esses crêm na sua própria existência. Mas mesmo eles não saberiam dizer de que prodígio sejam fruto. Do pouco que se lembram, sempre existiram! Mas não sabem porquê. Tudo terá uma razão e por isso confiam que também eles façam parte de um desígnio maior. Bastam-se com isso. E portanto vêm e vão nas suas missões sem colocarem demasiadas questões. Não fosse o Diabo tecê-las e embaraçar-se o próprio Criador sem respostas. O que são, porque são, como são? Sim, como são! Nós Anjos não sabêmos como somos. Lá em cima não há espelhos, nem olhares. É-se, e pronto! Escolhe-se. Sente-se. Isso basta. E no entanto não me ofenderei se escolherem imaginar-me alado ou etéreo. Querubim, arcanjo de espada em punho. Mas a única coisa certa é que seja eu a contemplação de Deus sobre vós, homens. E podeis negar Deus, claro. Mesmo que Ele exista realmente, não creio que vos leve a mal. Podemos sempre fugir de Deus na suprema fé que é a ausência dela em si. Só não podemos fugir de nós próprios e portanto da contemplação dos Anjos, vá, dos demónios da nossa consciência, para lá de todos os álibis que inventemos, permitam-me apresentar assim aqueles que desconfiem destas coisas metafísicas. Talvez seja até melhor, se não separarmos demasiado as águas do Divino e do Profano, da Terra e do Céu, mais fácil será aceitar almas que se elevem, Anjos Caídos. Zig-zags do coração. Ah, sim, que os há! Talvez Deus tenha pensado em criar o universo como imutável. Mas até o Diabo se benzeria dessa Lei que desse sempre no mesmo, sem escolhas. Em que Deus fosse sempre Deus e o Diabo sempre o Diabo. Ou talvez não, talvez eu me confunda e no Céu e no Inferno as coisas tenham o seu devido lugar, cada um sirva a seu amo e o caminho seja eterno na mesma direcção. Pensando novamente, acho bem que o Divino seja feito de ideias puras e absolutas. E, olhem, que a Humanidade seja um reflexo de Deus em espelho tosco e baço, um em que entidades como eu reflectem imagem alguma – sabe-se lá se não serei eu o espelho – mas em que Deus se veja Homem e o Homem vislumbre Deus.


I sit and wait 
does an angel contemplate my fate 
and do they know 
the places where we go 
when we’re grey and old


As coisas mudam, os corações alteram a sua cor. Não há regra nem lógica que precise que isto motiva aquilo. Nem se sequer se sabe muito bem porque escolheram ser como eram antes que a alma inflectisse o rumo. Escolhas? Será que o Homem tem sequer escolha? Uns dizem que sim, e citam uma lógica intrincada de vontades e pulsões e medos e castrações. Um cavalo espantado no peito que nunca se sabe para onde irá a seguir, mas certamente escolherá o seu caminho. Outros dizem que são prisioneiros do destino. Outros juram que não, que são prisioneiros sim mas dos códigos genéticos de formiga ínfima em formigueiro. Mas isto são tudo cogitações de cativos da vida, em peregrinação pela estrada. Que vêm os astros no firmamento e sentem as pedras nos pés. Mas nunca tocaram o âmago do Sol nem o centro da Terra. Como eu.
Os Anjos, esses há muito que resolveram provisoriamente a questão. Reuniram em conclave para debater o tema. E no fim decidiram que o destino é imutável mas ao Homem assiste fazer com ele o que bem lhe aprouver. Da sentença Deus não foi tido nem o Homem foi achado. Tão pouco resolveu esta uma série de contradições intrínsecas que os seus detractores provavelmente lhe apontariam. E portanto vale ela sem explicar tudo para perceber eu um pouco melhor as crónicas que registo nas minhas jornadas.

Isto tudo divagações a propósito de um sonho que tive no meu sono de justo. Sonhei que era criança – disparate do inconsciente angélico de quem não nasceu nem cresceu - Fazia dançar o corpo em balancé improvisado com corda e tábua no braço mais vigoroso de um velho carvalho. E isto era no jardim de uma casa grande, branca e vazia. E é certo que o seu silêncio fantasma me impressionava. A casa estava cada vez mais vazia. Porque todos os dias, antes que o Sol fosse alto no horizonte, figuras humanas saíam à pressa a arrastar uma mala de poucos pertences. Assim, como vos digo, todos os dias. Mas nunca me lembro de ouvir sons de vida vindos do lado de lá das paredes, nem de ouvir gente que franqueasse as portas. E era assim. Eu baloiçava em eterna vigília sonhada. E nas vinte e quatro horas do dia, pelo menos como me pareciam a mim, o carvalho sofria o afago e as agruras de todas as estações. Rasgando-se em folhas outonais até à nudez, florindo de novo e repetindo o ciclo. Até que a dado momento, não sei porquê, me abandonei daquela letargia e disparei em corrida de gaiato, pardal a trote rua abaixo. Só que agora o Mundo não era como é o Mundo ou tampouco o Céu. Eram cartas de baralho, num corredor a afunilar. E assim que toquei a primeira ela vacilou para depois ceder a derrubar a sequência em cascata de dominó de cartas. Mas deviam ser cartas mágicas porque quando se tocavam sucediam fenómenos estranhos e nunca repetidos. Por vezes ouvia o eco seco de um disparo, ou o som de um sussurro, de um riso. Juraria que algumas cartas choraram e que do embate de outras ouvi o som de vidro a estilhaçar, para vos citar de memória algumas impressões de muitas inenarráveis. E eu, que a meio do corredor já não era criança mas de novo anjo que nem sabe bem como é, voava sob os destroços das cartas, umas caídas, outras encostadas à parede e outras estranhamente erectas em equilíbrio desamparado. Mas depois o corredor bifurcava e com ele o comboio de cartas. E o curioso é que em bifurcações a que se seguiam bifurcações, uma após outra, após outra, após outra, sucedia o fenómeno inconstante de umas vezes o castelo se precipitar em queda sequencial para um só lado ou em ambas as direcções. E eu sempre a voar em ubiquidade de ver tudo - como se no sonho fosse Deus e mais que anjo! – E eram tantas cartas, tantos corredores, tantos fenómenos, que às tantas me afoguei em pasmo de tanta coisa e de susto acordei.


Silêncio…

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