quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Karma - A Guilda dos Melancólicos - Metamorfoses, escolhas e um sonho de dominó - Parte II


Álvaro cola o corpo ao capim seco, envolto na sombra da noite. G3 com o cano a morder a distância de uns bons trinta metros, no desembocar do declive do caminho. Seria abusivo dizer que a Lua fosse pelos portugueses, mas o que é certo é que a sombra o era. E o luar, esse indicava o caminho e aconchegava a emboscada. Já esperavam há um par de horas mas não esperariam muito mais. Primeiro três vultos assomaram ao caminho. Fez mira mas havia que esperar pelo momento. Atrás vinha o grosso do grupo. Ao todo seriam uns quinze turras. A morte aguardava o segundo perfeito, em que mais caça se perfilasse à saraivada de fogo. Os olhos metálicos do comando focaram primeiro o semblante de um dos três pretos que seguiam à vanguarda. Depois a sua imagem liquefez-se em desfoque para que se definisse sobre si o fio metálico de uma mira. Depois de novo o rosto de Pedro, um rosto diferente, de narinas largas, olhos enormes de negro, pele de ébano, foi claro. Para que algo perturbasse Álvaro. Talvez fosse a expressão doce e melancólica do inimigo. Talvez lhe lembrasse aquele fantasma insistente de puto de rosto mutilado que urrava pela mãe. Ou talvez fosse qualquer outra coisa, reminiscência de vidas passadas, sabe-se lá. Pensar que aquela era provavelmente a última missão, a última emboscada, a última cavalgada com a morte. A comissão e a guerra abeiravam-se do fim, pelo menos para Álvaro. Em breve regressaria à Metrópole e tentaria esquecer tudo aquilo. Morrer agora seria estúpido. Mas matar agora também lhe parecia subitamente repugnante. Como se à distância do todo não lhe coubesse escolher não matar, mas agora sim. Poupar aquelas vidas, ou alguma que fosse. Levar o alforge da alma uma grama menos cheio no seu regresso. E por isso Álvaro está quase decidido. Uma baga de suor escorre-lhe pela testa e vai morrer no aço da espingarda. Pisca o olho, e visa o rosto de Pedro. Sim. O primeiro tiro será seu e falhará o alvo.

Joaquim e Eduardo caminham. As AK-47 pendentes dos braços, cano a apontar a terra – “Já viste a Lua?” – “Tu e a Lua, Quim…” – Joaquim não tem mais de dezassete anos. Eduardo talvez uns vinte – “Deixa-me gostar, mano. Nunca sei se a volto a ver.” – o irmão não lhe responde. Apenas pensa que se morrer que seja rápido. Não se quer ver ou sentir morrer – “Se sobreviver à guerra, quando tiver uma filha, vou dar ela à Lua.” – Eduardo talvez fosse responder. Mas não teve tempo.

A primeira bala furou-lhe o intestino. Caiu em dor, o corpo a esfregar-se em desespero na terra que se encarniçava no seu sangue. Álvaro paralizou por um instante. Paulo, o novato, não aguentara a pressão e disparou primeiro. Uma rajada curta. A primeira bala errou o peito de Eduardo mas derrubou-o, depois uma ou outra se deve ter perdido. No fim a cabeça de Joaquim estourou com um tiro certeiro, a entrar-lhe pelo queixo e a estilhaçar o topo do crânio. Cedo de mais para a emboscada. Tarde de mais para os três inimigos na dianteira. Os clarões das armas acenderam-se de ambos os lados da estrada e o corpo do terceiro rebelde crivou-se de balas e caiu morto. Os homens da RENAMO, lá adiante, responderam em rajada, enquanto mergulhavam no capim, a fugir do campo aberto da estrada. Por instantes só se viu faiscar o fogo das bocas dos canos, por entre a vegetação, a emergir na noite. E no fim o combate calou-se. A coberto da sombra, aqueles a quem a Lua não condenara tinham fugido.
Um olhar turvo, caído na terra batida. A vida expira, o corpo agoniza e os olhos de Eduardo vislumbram um esgar final e doloroso daquela vida efémera, de morrer por uma causa. Ergue a mão trémula coberta de sangue que lhe escorre das entranhas. O coração aperta-se. O cadáver do irmão caído junto a si, cabeça imersa numa poça de sangue e massa encefálica. Se conseguisse choraria. Mas até para chorar já é tarde demais. A luz apaga-se. Fosse de que modo fosse, já não restaria muito tempo. Mas a G3 de Álvaro matou-o mais depressa.

Foi a morte mais leve e a que mais lhe doeu. O tiro de misericórdia naquele desgraçado lembrou-lhe que era humano. Álvaro debruça-se sobre o cadáver. O olhar de Eduardo, perdido na contemplação fixa dos olhos de um morto. E Álvaro reconhece aquele mulato uma expressão doce e triste. Sinal provável de um modo como tivesse vivido e morrido. Azar, aquele parvalhão ter disparado, a roubar a Álvaro a redenção simbólica de talvez salvar uma vida, enfim, pelo menos não a ceifar ele. Mas no fundo assim foi. Guarda-o para si, mas Álvaro sabe que nesta noite nenhum dos seus tiros levou endereço certeiro. Só este último. Mas foi um tiro diferente. O resto não é consigo. A guerra cala-se dentro dele mesmo se prosseguirá na mata.
“Bem, vamos lá às medalhas.” – Serafim apaga a beata no chão e tira a tesoura de bicos recurvos do bolso do camuflado, a caminhar para os cadáveres. 


Paulo fuma excitado. Esta noite foi a primeira vez. Esta noite matou dois homens. O prémio foi a pistola do oficial na cara – “ Olha lá filho de puta, voltas a fazer-me uma destas e quem te fode aqui mesmo sou eu, ouviste, caralho?” – Agora não consegue dormir e caminha nervoso pelo pátio do aquartelamento. Recorda o medo, a adrenalina de varrer de rajada a emboscada, a repugna pelo estardalhaço sujo da morte. Como é seu hábito sempre que se inquieta, afaga o sinal de nascença que tem nas costas da mão direita. Por fim, inspira fundo e desconfia que não foi feito para sobreviver aquilo. Assim seria. Paulo morreria brevemente. Uma morteirada a ceifar a vida do comando que na sua guerra breve disparara meia dúzia de balas e matara dois homens. O suficiente para aprender que não lhe aprazia matar e morrer. Castigo demasiado para uma escolha estúpida da qual nem sabia bem o porquê.

As vidas redimem-se sempre das possibilidades goradas e dos erros. A guerra é lá vida para a contemplação e para sonhos doces à luz de Lua cheia? A guerra é o pântano do chafurdo dos brutos. Ao cabo de algum tempo, não há guerras justas que consolem os justos. Não é coisa de anjos a degolar dragões. É mester sujo de homem a sujar as mãos no sangue de outro homem. Quando se tem alma, morre-se lá na guerra e morre-se aos bocadinhos na decepção de a ter vivido pela vida fora. As balas que rasgam a carne ou uma tesoura de pontas recurvas que mutile cadáveres levarão o de menos. A morte, essa leva o quinhão maior da potencialidade da Humanidade. Os sonhos de amor ao luar de um adolescente chamado Joaquim, que adormecia todas as noites abraçado a uma espingarda, a sonhar com o corpo de uma negra bochechuda. As palavras e as imagens de um homem nascido com o dom da contemplação, sabe-se lá para quê. E o sorriso de um puto que cometeu a parvoíce de decidir que ia para os Comandos. Tudo isso perdido. Destinos, felicidades, tudo perdido! Quando os Homens decretam a Guerra, Deus suspende os desígnios do Universo. Nem Deus nem o Diabo, nem a Vida nem a Morte matam assim ao disparate. E por isso, até que haja trégua, ordena a Lei Marcial que o Destino não saia à rua. Depois? Depois baralha e volta a dar…   … partida após partida, o Universo renova-se na chance de corrigir a mão ou repetir erros. Eduardo poderá um dia estender os braços, fechar os olhos e iluminar um caminho sem emboscadas. Joaquim abraçará a Lua e peregrinará na convicção do amor. E Paulo será chamado a uma lição.


Last night I was walking through the shadows
Far away from all the music and the girls,
When I saw a soldier waiting with a woman in black,
And they stood without any word,
Just staring at a photograph of someone, and she began to cry.
For a boy left behind in the war,
Some boy left behind in the war;

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