O semáfora passou de vermelho para verde e Sara arranca. Sobe para o Marquês, pela Avenida da Liberdade. Conduz veloz enquanto fuma um cigarro. Por estes dias recomeçou a fumar a um ritmo obsessivo. Em breve atravessará a ponte. Mal pode conter o ódio que a revolve.
"É a Drª. Sara Reis? Ah por favor, acompanhe-me” – Célia Calhau sorri um sorriso aberto dos seus lábios pintados de vermelho mortiço. Sara segue-a. Entram numa sala ampla. Um jovem de fato, mais um advogado, Sara supõe, mais novo que a colega, ergue-se do canto da mesa ao comprido da sala e dirige-se a ambas – “O Sodotôr Vando Varela, meu assistente. Vai-nos dar uma ajuda na nossa reunião.” – Sara sorri, tímida – “Mas por favor, sente-se.” – A mão de Célia indica um lugar. Sara obedece. Todos se sentam. Célia reflecte por uns segundos a olhar o processo e depois cruza as mãos sob o queixo e indaga Sara nos olhos com um meio sorriso - “Mas e então o que é que nos tem a dizer?” – A voz de Sara treme. Ergue a cabeça e enceta pausadamente, num esforço de se sentir calma, segura, digna. Mas se tiver que ser franca sente-se profundamente envergonhada e amedrontada. Devia ter permitido a Pedro que a acompanhasse – “Bom, eu sei que a senhora doutora já conversou com o meu namorado e com o Dr. Álvaro, o pai.” – “É verdade, é verdade.” – Célia sorri, olhos fitos na interlocutora – “Bom, e eu, quer dizer, eu e a minha família gostávamos de perceber o que é que afinal está em causa e eu tinha esperança que me pudesse dizer isso, afinal o que é que a minha mãe fez…. Quanto dinheiro é que está em causa? E chegarmos a um acordo. O Pedro falou-me de vinte e cinco mil Euros. Nós queremos pagar tudo. Só queríamos que nos permitissem que fosse ao longo de algum tempo. Um ano, dois não sei. Eu, eu… … não sei como estas coisas se fazem…” – Célia fita-a. Oxalá não a olhasse assim – “… mas a minha, nossa, ideia é esta. Somos pessoas honestas. Queríamos pagar tudo. A minha mãe tomou uma decisão irreflectida mas os senhores sabem que sempre foi óptima profissional. Se os senhores lhe dessem mais uma oportunidade, nós pagaríamos tudo, tão rápido quanto possível.” – O assistente mulato olha a sua superior em busca de um olhar de entendimento. Célia sorri, não, não é só um sorriso, é um riso de troça. É quase uma gargalhada muda – “Oh minha senhora, por amor de Deus! Era o que nos faltava agora!” – Sara não sabe o que dizer ou o que pensar. Olha Célia na sua mudança de tom. Estupefacta. Assustada – “Uma oportunidade? Oh minha senhora, francamente! A sua mãe é provavelmente a maior vigarista de que há memória nesta instituição! E a senhora fala-me de acordos? E diga-me…” – a advogada folheia o seu processo com dedos ágeis, como que a confirmar o que dirá – “Vão pagar tudo? As suas dívidas, da sua irmã, do seu pai, da sua avó? Para começarmos a falar, apenas. Diga lá? Vão?” – “As minhas dívidas? A dívida não é minha! Foi a minha mãe. Mas já lhe disse que…” – “ E foi tudo a sua mãe? Todas elas?” – “Todas elas? Mas desculpe, está a falar do quê? Nós só…” – “o leasing do carro, esta, a hipoteca, mais esta. Mas há mais! Ora… “ – Uma Célia divertida vai virando folhas para que se virem ao lado da mesa de Sara, num puzzle desmazelado – Três mil e quatrocentos Euros - Mário Reis - Leasing automóvel – hipoteca - setenta e cinco mil Euros - Filipa Reis - Manuela Queimado – Livrança – Documento – Fiador - três mil Euros - crédito jovem – Sara - A Gerente – Balcão - vinte e dois mil Euros – cêntimos - Abril de dois mil e dois - Banco Internacional de Indústria e Comércio - Balcão da Portela - oitocentos Euros - Prestações Vencidas - Sara Queimado Reis - Pedro Lobo - quatro mil Euros – Mário – Mário - Diolinda Queimado – Manuela – quinhentos - dois mil e um – Letra – “Bom, creio que já percebeu…” – A croupier daquele poker infernal limpa os seus trunfos da mesa – “A ponta do iceberg… … mas sabe qual é a minha maior curiosidade? Onde é que os senhores gastam este dinheiro todo!? Já foi isso que desabafei ao Dr. Álvaro e ao filho.” – Uma pausa – “Bom, não espero que mo diga, claro. É… … é uma curiosidade pessoal! Apenas isso.” – Sorri. E os olhos apunhalam uma Sara obtusa. Imóvel. Gelada – “Mas deixe-me que lhe diga: o vosso maior erro foi meterem-se com a família do seu ex-namorado.” – “Desculpe…?” – “Ahhh, compreendo...” – a advogada olha o tecto, divertida consigo própria – “Compreendo que custe ao pobre rapaz. Já viu a baixeza do que os senhores fizeram? Já vi algumas coisas, mas a senhora, a sua mãe, a sua família, ultrapassam tudo. Quer um acordo?” – o tom encrispa-se. Célia levanta-se e apoia-se na mesa - “Há-de ter a sua chance. Brevemente notificar-lhe-emos os prejuízos que nos causaram. Se tiverem fortuna para repor tudo aquilo em que lesaram esta casa, ficaremos todos muito contentes. Se assim não for, pode crer que o Banco Internacional de Comércio e Indústria levará este caso às últimas consequências, e mais! Daremos todo o apoio à acção que a família Lobo está a preparar contra os senhores. Muito boa tarde.” – Célia estende a mão a Sara – mas essa levanta-se em desnorte. Recua alguns passos – “Acção? Dos pais do Pedro? Do… … do Pedro?” – “Mas do que é que você estava à espera? Mas do que é que você estava realmente à espera?” – Só que não obteve resposta. Sara virara-lhe costas e evadira-se numa quase corrida. Se pudesse evitar, aquela gente horrível não a veria chorar.
“Célia, não sabia dessa acção da outra família…” – Célia ainda fita os olhos na porta por onde Sara se perdeu, como que a querer adivinhar algo – “ Esses Lobos são o nosso trunfo, Vando. Sem eles não temos realmente o que precisamos. E se queremos reinar vamos ter que dividir primeiro.”
Vim parar nessa cidade
Por força da circunstância
Sou assim desde criança
Me criei meio sem lar
Aprendi a me virar sozinha
E se eu tô te dando linha
É pra depois te... Han!
Aprendi a me virar sozinha
E se eu tô te dando linha
É pra depois te abandonar...
Sem comentários:
Enviar um comentário