“Alô?” – Bruna atende o telemóvel de topo de gama, distraída a conferir a confeição perfeita do verniz rosa sobre as unhas.” – “Oh minha granda puta, tu larga o meu marido, estás a ouvir? Estás avisada.” – A linha cai, separando a amante e a esposa do Engenheiro José Ramos.
Marília mal sustém a excitação, enquanto conduz pela marginal de regresso a casa. O dezanove compensou a sua fé. Sente que a sua sorte está a mudar.
“Doutor… … tem a Drª. Célia Calhau lá fora.” – “Ah, sim, que entre!” – Francisco Sá endireita-se na cadeira e confere às cegas a lisura da gravata sobre a camisa Pierre Cardin. – “Sodotôra!” – o advogado espraia a barba num sorriso e galga os passos da direcção da porta para saudar a visitante – “Faça favor de se sentar. Esteja à vontade.” – Ele próprio contorna de novo a secretária e ocupa o seu lugar no amplo cadeirão forrado de pele lustrosa. Francisco é um homem de rosto afável. Cabelo que se lhe vai enfraquecendo mas que teima em trazer comprido. Nariz aquilino que herdou do pai, lábios finos de mulher. A Barba é arruivada e rala sobre o rosto gordo que se desdobra num duplo queixo peludo. Colete de malha, como tantas vezes, sobre as camisas de griffes irrepreensíveis. Gravata de lã a acompanhar a curva da barriga que se vem tornando generosa com o passar da idade. A curva da felicidade, como ele próprio define. Agora entrelaça os dedos, mãos repousadas sobre essa pança, como sempre que se dispõe a ouvir quem se senta diante de si na sua sala, como agora – “Então, sodotôra, vamos então conversar um pouco?” – O constrangimento da advogada é visível: o timbre da voz vacila e mexe-se na cadeira à procura da segurança que não tem. Francisco Sá observa-a, de sob os óculos de leitura dependurados na ponta do nariz fino e sabe disso. É uma mulher bonita. Que idade terá? Menos de quarenta, trinta e seis, trinta e sete, não mais, certamente. E se tanto! Morena, de cabelo preto brilhante a cair sem tocar os ombros. Nariz pequeno e arrebitado. Olhos castanhos grandes e redondos de boneca. Bem feitinha. Sá espreita com a discrição possível o decote discreto da camisa branca em que se franqueiam dois botões sob o tailler – “Tem umas mamas jeitosas, esta Célia.” – E é uma mulher com classe, elegante, sim. E forte, é essa a impressão que tem. Esta Célia tem garra. Hoje abana, claro. Porque hoje Célia agarra a espada pelo lado errado. Aquele que não está habituada a sentir. Quem é que no seu perfeito juízo se sentiria bem a apertar uma espada pela lâmina? – “Oh Sodotôr, eu antes de mais queria agradecer a sua disponibilidade para esta reunião. Como o colega deve calcular eu estou a passar um momento muito delicado com isto tudo.” - Francisco ergue os olhos e meneia a cabeça, a encetar a resposta, como a pesar um balanço – “De facto, Sodotôra, temos aqui uma grande maçada. Sabe, os meus clientes ficaram muito consternados com tudo isto. Enfim, para nós, lá está, estas coisas são trabalho, para eles é algo pessoal. E, que dizer? Levaram tudo isto, enfim, o papel da sodotôra, como um ataque muito directo e muito sério. Daí toda esta trapalhada em que, bom, como calcula, apenas represento o meu papel como interlocutor da vontade do meu cliente. Por constrangedor que seja…” – Francisco assoma mais sobre a mesa – “Caramba, somos colegas, tudo isto é muito desagradável, mesmo para mim, calculará a sodotôra…” – Célia franze o lábio contrariada – “Bem sei, sodotôr, bem sei. Mas sabe, no meio disto tudo, o colega permita-me o desabafo, fica-me muita tristeza. Fui sempre profissional. Estive sempre de boa fé. Defendi a instituição que represento na boa fé de que se litigava pelo que era devido. E agora… … oh, sodotôr, agora é muito desagradável que as partes se entendam e que a minha cabeça esteja a ser negociada como moeda de troca. É a minha carreira, a minha vida que está em causa. E olhe… … eu estou aqui com muita franqueza e muita humildade. Nunca tive nada de pessoal no meio disto tudo. Aliás, estou na disponibilidade de pedir pessoalmente desculpas por tudo. Porque as opções que tomei foi porque genuinamente cria que era uma causa justa contra quem devia e eu…” - Francisco sorri e olha a interlocutora de lado, num esgar céptico – “Oh Sodotôra, sodotôra. Vá lá… … sabemos ambos mais do que isso. Vá lá… … Caramba! Estamos entre colegas! Queria que visse em mim… … olhe, um amigo solidário! As coisas são mesmo assim! A Sodotôra jogou um jogo agressivo porque lhe pareceu que o adversário era frágil. Não tem nada a ver com justiça. Nem nós somos sérios nem os clientes sérios são. Nesta vida pagam-nos para ganhar causas por clientes. É essa a nossa labuta e a Sodotôra tomou opções. Já leu Sun Tzu?” – “Sun Tzu?” – “Sim, Sun Tzu, a Arte da Guerra. Ah! Uma leitura curiosíssima que lhe recomendo. Um manual de estratégia com séculos mas que se mantém fascinantemente válido. Sun Tzu diz algo curioso que agora me ocorre. Que ao exército fragilizado convém simular a grandiosidade enquanto se reorganiza. E que ao exército poderoso, convém fingir-se vulnerável para atrair os cordeiros à boca do lobo.” – Francisco sorri e fita Célia. Cala-se. Usufrui o momento. Como se lhe dissesse sem nada dizer. – “Xeque-Mate” - A advogada engole em seco e baixa os olhos – “Sim, Sodotôr, percebo-o. Mas disse que talvez tivéssemos uma solução. Pois bem, já lhe disse, estou aqui com a maior humildade, gostava de ouvir o que me tem a propor.” - Francisco assoma mais ao outro lado do tampo amplo, quase como se o fosse galgar – “Sim, Sodotôra. Mas queria que me dissesse. Já alguma vez se lançou a pensar nas consequências dos nossos jogos? Enquanto fazemos pela vida, como há pouco lhe dizia. Já? A Drª Célia faz porventura ideia das vidas que prejudicou? Olhe, vou ser eloquente, dos destinos que mudou? É que, sabe…” – Francisco Sá hesita, meneia a cabeça em balancé, como é seu tique se escolhe o rumo da oratória. Por fim suspira – “Oh Sodotôra, repare, eu não sou ninguém para a recriminar. Somos da mesma classe, da mesma espécie. Até lhe vou dizer mais! Eu tenho carta branca do meu cliente para resolver todo este embaraço. E por isso, esperando que esta conversa chegue a bom porto, estou em condições de gisar um acordo em que a Sodotôra não saia beliscada. Mas deixe que lhe explique. O meu cliente, enfim, os meus clientes, não são pessoas de rancores. Na verdade não pretendem o mal de ninguém. Mas também não gostariam eles, e não gostaria eu, que o assunto morresse sem que se assacasse uma moral. Segue-me?” – “Sim, sodotôr, mas já lhe disse que eu…” – Francisco interrompe – “e portanto o que eu no fundo gostaria era, não tanto de a recriminar, quem sou eu… … mas de a consciencializar para uma verdade crua. Quem somos? E as consequências que isso tem. Às vezes bem onerosas, para os outros, olhe, e veja este caso, às vezes para nós.” – “Sodotôr…” – “Olhe…” – Fracisco sorri prazenteiro, quase paternal. – “Oh Dotôra, sabe o que costumo dizer aos meus estagiários? Que os advogados são como putas! Mesmo se o cliente é mau nós temos que dormir com eles!” – Célia não consegue deixar de sorrir, um sorriso tímido. Pela primeira vez naquela conversa pesada. Aquele tipo é um sacana, está a massacrá-la, mas tem a sua piada, tem que confessar. E agora que vislumbrou que tudo poderá terminar em bem, sente uma acendalha de paz avivar-se em si – “Oh Dotôr, não diria tanto…” – “Mas espere, espere! Deixe que termine este meu exercício e verá que no fim concordará comigo! Somos umas putas, é isso mesmo. Vendemos o nosso talento a não importa quem. Por quê? Causas? Naaaaa! O vil metal, doutora! Como putas! Para clientes velhacos. Tornando-nos nós próprios velhacas! Compreende onde quero chegar?” – “Sodotôr, creio que sim, acredite que tudo isto me tem feito e fará reflectir para o futuro.” – Francisco ri uma gargalhada teatral – “Oh Sodotôra, mas reflectir não chega, reflectir não chega… … vamos ao que importa. O meu cliente tem um processo complexo, milionário e muito viável contra o banco. Mas estaria disponível a abandonar tudo se a parte contrária lhe dirigisse um pedido de desculpas e, com base no processo bem documentado que conhece, lhe movesse despedimento com justa causa. Por isso, a sua vida está nas minhas mãos. Mas podemos esquecer isto tudo, e simplesmente abandonar o processo sem mais. Só depende de si.” – Célia suspira – “Diga, Sodotôr…” – “Faça-me um broche.” – A advogada ergue-se indignada. As veias no pescoço dilatadas. A voz trémula, dedo apontado a Francisco Sá – “Ouça, eu nem lhe admito que… “ – Francisco levanta-se. Olhos azuis a cuspir fel. Irado – “Não admite o quê? Quer perder tudo o que tem? O seu estatuto? É isso? Diga? Por tão pouco?!! Eu esmago-a! Bem o sabe! Tenho vindo a esmagar a sua vida muito antes de que se apercebesse disso. Destruí-lhe o casamento. Destruo-lhe a carreira. E corro consigo lá para a parvónia de onde saiu. Porque quero e posso! Desde que se portou como uma grande puta com pessoas que eu estimo. Nós fomos sempre os lobos, minha senhora! Você foi sempre a puta. E se sair aquela porta a sua vida acabou. Pense bem! Podemos resolver isto aqui e agora ou amanhã já não terá um emprego, apenas contas para pagar! O seu apartamento da Expo, o seu BMW, esses fatos janotas e os spas. Isso acaba tudo! Percebeu?” – Francisco grita na cara da advogada. Um silêncio. Depois Francisco modera o tom de voz. – “Drª. Célia. É consigo. Humilhar-se de joelhos aqui, um momento, morre aqui, pode esquecer. Entrego-lhe hoje mesmo os documentos da sua alforria. Ou fingir que é muito digna. E garanto-lhe que lhe farei a vida negra.” - Agora as lágrimas de raiva escorrem dos olhos de Célia lavando a base do rosto. Não diz nada. Vira costas a Francisco e caminha para a porta. Silêncio. Só os saltos a martelar a madeira do soalho. Célia estaca o passo e tranca a porta.
Sou Ana do dique e das docas
Da compra, da venda, da troca de pernas
Dos braços, das bocas, do lixo, dos bichos, das fichas
Sou Ana das loucas
Até amanhã
Sou Ana
Da cama, da cana, fulana, bacana
Sou Ana de Amsterdam
Eu cruzei um oceano
Na esperança de casar
Fiz mil bocas pra Solano
Fui beijada por Gaspar
Sou Ana de cabo a tenente
Sou Ana de toda patente, das Índias
Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada
Sou Ana, obrigada
Até amanhã, sou Ana
Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos
Sou Ana de Amsterdam
Arrisquei muita braçada
Na esperança de outro mar
Hoje sou carta marcada
Hoje sou jogo de azar
Sou Ana de vinte minutos
Sou Ana da brasa dos brutos na coxa
Que apaga charutos
Sou Ana dos dentes rangendo
E dos olhos enxutos
Até amanhã, sou Ana
Das marcas, das macas, da vacas, das pratas
Sou Ana de Amsterdam
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