quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O Blog - A Guilda dos Melancólicos


guildadosmelancolicos.blogspot.com. O momento foi fruto de um impulso, mas a vontade de soltar uma espécie de grito há já algum tempo que ardia branda no seu coração. Luna estava a ser o gatilho de uma vontade de estender os braços e tocar o mundo. Sorte tremenda aquela alma aberta à vida. Feliz a hora em que ganhara coragem de lhe responder “que sim”. Pedro pensava agora que toda a sua vida estivera demasiado fechado em certezas frágeis. Preconceitos, portas fechadas, silogismos viciados em que as premissas e as conclusões se sustentavam ilusoriamente. E agora duvidava de muita coisa. As peripécias da sua vida recente, as boas e as más, fracturavam a espinha dorsal das suas velhas máximas. Primeiro sentiu desapontamento, depois vergonha. Agora começava a ser quase um alívio saber que estivera errado. Luna não trouxera apenas calor humano a uma rotina despida. Sim, isso era importante. Tinha a frescura de uma amizade em que as solidões mútuas se apagavam em programas de tempos livres. Cinema, café, cigarros. Luna dera-lhe a fumar os seus primeiros charros de maconha nas águas furtadas da Graça. E rira da prostração alienada do amigo, estirado no sofá, a olhar o vazio e a dizer que estava em viagem. Depois sairiam para dançar, muitas vezes. Não foi logo fácil. No meio da multidão, na pista de dança, primeiro veio o pesadelo de um disparo furtivo e de João a morrer mais uma e outra vez. Mas Pedro estaria lá, sério, doce. E lá estaria um abraço se fosse necessário. E assim foi Luna aprendendo a aceitar que João estava morto mas ela viveria. Só evitavam o Lux. O corpo sobrevive mas as cicatrizes pedem um tempo para serem deixadas em paz. E no meio de tudo, apesar de tudo, nascia a amizade. E Pedro é certo que usufruía e se encantava nesta. Mas havia mais. Para alguns talvez dor seja dor, e prazer, prazer. Urramos com o sofrimento e sentimos o deleite de um afago. E não meditamos nos porquês. Talvez nem sempre tivesse sido exactamente assim mas agora Pedro sentia o impulso irresistível de se compreender a si e aos outros. E por isso esta esteira de amizade não era só néctar. Era um livro de sabedoria, impresso no pergaminho da vida diferente e do coração diferente daquela excêntrica Luna. Nas conversas que arrastavam pelas tardes e pelas noites fora. Sobre felicidade e sexo e drogas e religião e misticismo. Amor, perda, solidão, deleite, moral. Mas antes de todas as lições que ler Luna propiciaria, vinha a primeira de todas as aprendizagens, um prefácio que ia para além de Luna e Pedro. A sabedoria de abrir o coração, conhecer o mundo dos outros e enriquecer o seu. Ter tocado Luna fora um acaso e uma escolha fabulosos com que preenchera um buraco enorme numa vida. Era justamente por isso que crescia a sede de mais.

Quando Pedro registou o endereço do seu blog, não soube definir exactamente porque o fez. Seria uma espécie de desabafo, melhor, uma série de desabafos cruzados, assim almejava, em conversa. Mas no fundo “A Guilda dos melancólicos” seria apenas a expressão da sua nova indagação. Tocar os outros e esperar ser tocado.


I’ll send na S.O.S to the world
I’ll send na S.O.S to the world
I hope that someone get’s my
I hope that someone get’s my
Message in a bottle


Sábado, 8 de Maio de 2004
Génesis
Escrever…           … um dia uma mulher que amei, enfim, amo mas perdi, perguntava-me porque não escrevia, se tinha o talento. A resposta era simples e dei-lha na hora, embora não esteja certo se a percebeu completamente. Não sei se ouvi algures ou se descobri isso cá dentro, em algum momento de cristalina clarividência, mas os homens felizes não escrevem. Os homens felizes vivem, sorriem, passeiam domingueiramente com a que amam presa pela mão. Têm filhos, educam-nos. Os homens felizes têm muito do que tive e que perdi e os sabores que eu jamais senti. Mas os homens felizes não escrevem. Porque é preciso provar lágrimas, solidão, perda. É preciso conhecer todos os sabores para depois vos poder falar deles. E não me perguntem por enquanto se sou verdadeiramente infeliz – feliz não o sou. - Nem se um dia recuperarei o meu sorriso. E se nesse dia a minha pena se calará. Desconfio, desconfio apenas, que há felicidades anestésicas que nos enclausuram dentro de verdades pequenas e não nos deixam ver além coisas maiores. Em boa verdade são felicidades que nos enganam, porque se nos ensinuam como garantidas. E portanto como é que as poderíamos valorizar? Eu agora almejo outra coisa. Uma felicidade que não sei se existe. Imagino-a como algo frágil e genuíno que um dia pousará na minha mão e me convidará, quem sabe, a ser perene no talento e discorrer as minhas palavras a propósito. Mas é tudo especulação de um homem perdido a Sul que não tem mais do que uma vaga ideia esperançada de norte. Pouco sei. Apenas isto. Os homens felizes não escrevem.

Já adivinham que tudo começou em perda. Mas hoje nem vos vou enfadar com essa peripécia. Bastará dizer que vivi um grande amor. Talvez seja arrogância minha, mas creio que foi um amor bonito, inocente, ardido. Recentemente perdi. Mais do que esse amor perdi tudo. Não. Não é nada disso. Perdi um amor e percepcionei uma série de coisas que convém que coloque como alicerces de uma nova vida. Eu tinha pouco. Era uma escolha minha, confesse-se, fruto da ilusão da abastança de ter só um amor. Mas lamento dizer-vos que os sentimentos são folhas perenes que se não levar a simples lei do tempo, levará a força da tempestade. E eu fiquei com muito pouco. Vivi os primeiros anos da minha vida numa certa arrogância para com os outros. Estereotipei e classifiquei o mundo com uma série de chavões pessoais que inventei de ânimo leve. Se me perguntarem porque o fiz, acho que não há uma resposta demasiado simples. Foi arrogância, foi arrebatamento de convicções desta juventude meio perdida. Foi medo de tocar os outros. Cada soberba esconde provavelmente os medos de quem quer ser tocado mas no fundo não sabe como. Por isso foge, ou agride ou se alheia. Eu alheei-me.

E depois damos por nós a sentirmo-nos absolutamente isolados e a desejar coisas. E se tivermos a sorte dos dados rolarem novamente…       … Diabos! Agarrem a sorte, revejam-se e abram a porta!
Faz pouco tempo que conheci uma rapariga chamada Luna. Foi um acaso que vos digo que teve tanto de dor como de pasmo. E falo em dor porque, e creiam-me, a minha nova amiga a carrega que baste. Aliás, numa dessas ironias da cidade, foi a dor que nos cruzou. E se já descobrimos entre nós mais do que isso em comum, essa dor foi o ponto de partida do nosso afecto partilhado. E é curioso. Juro-vos que apagaria a dor dela se pudesse. Sei que ela não se regozija da minha. Mas pelo meio há um certo afago da reciprocidade. Pode soar mal, pode soar que vos digo que nos consolamos com a desgraça alheia, mas não é nada disso. Apenas vos digo que após a perda vemos coisas novas, se quisermos abrir os olhos. E eu fico a pensar que as perdas, tal como as vitórias, fazem parte da lei da vida. É de ambas que se contrói o futuro e é no vácuo de si próprio, do ter, que se dá o milagre de haver espaço para novos prodígios. Afecto. Amor, risos. E por isso se quiser filosofar mais fundo, fico a pensar que o destino tem que se retorcer e não ser simplesmente o que esperamos dele para poder evoluir, albergar os ventos de mudança que nos levem em frente mesmo se ás vezes parece que sopram – e sopram! – contra o nosso rumo. Mas isso talvez seja tema de outra crónica, outro dia, quem sabe.

Hoje, a inaugurar, escolhi falar-vos da Luna.

Eu nunca fiz uma amizade assim. Que me desculpem os meus poucos mas queridos amigos. Feita desta partilha e aprendizagem com alguém tão diferente de mim. É uma relação fresca. Tem poucos meses. E diriam, “ah, entusiasmos!”, No tempo em que me divertia mais a inventar chavões, eu chamar-lhe-ia o Síndrome de Euforia da primeira semana no Big Brother. Sim, talvez…          … mas o meu instinto não me diz isso. E pouco importa! Tem sido redentor. Não é fácil explicar-vos. Fui sempre demasiado fechado nos meus dogmas. Talvez os dias e os meses a escrever aqui pudessem explicar isso. Hoje e aqui não cabe. Mas fui sempre arrogante. Exigia demais das pessoas, de mim, não concebia outros pontos de vista que não os meus. Não eram maus. Mas se calhar eram puritanos. Chavões. Dogmas, proibições, tabus, censuras. E a sacana da Luna desafiou-me a questionar-me. “Pedro, Deus só proibe o que é mesquinho. O que magoa o próximo, a ti mesmo. Porquê deixar de viver o que não tem nada disso? Vive!” – Sim, Luna. Eu baixo o dedo. Vou questionar-me. Obrigado, amiga. Obrigado por teres despertado em mim a fome. De te conhecer a ti, de penetrar no mundo dos outros. De redescobrir o meu mundo.

Posted by Pedro


E cada vez que eu fujo, eu me aproximo mais
E te perder de vista assim é ruim demais
E é por isso que atravesso o teu futuro
E faço das lembranças um lugar seguro...
Não é que eu queira reviver nenhum passado
Nem revirar um sentimento revirado
Mas toda vez que eu procuro uma saída
Acabo entrando sem querer na tua vida

Sem comentários:

Enviar um comentário