Fernanda olha os recém chegados. Convidou a que se sentassem, mãos assentes sobre o tampo da mesa. Corpo erecto e impassível, sentada na cadeira. A rapariga vem pesada, o rapaz desconfortável. Ali há coisa invulgar – “São irmãos…” – “Não, Dona Nanda, Pedro é meu amigo.” – “Engraçado… … bom, não importa! Queres falar então, filha?” – Luna contaria em compasso dolente a sua história. Pedro sempre calado. Meio céptico, meio incomodado. Se pudesse escolher não estaria ali com aquela mulher que falhara logo ao primeiro palpite mas que à cautela preferia não ter conhecido. Observa-a. Bem cinquentona, demasiado maquilhada, não tanto que não lhe veja linhas finas de cicatrizes a pautar o rosto. Repara nas sobrancelhas desenhadas a lápis onde não há de facto sobrancelhas, nos olhos de azul água a perderem-se no meio reflexo dos óculos redondos. E no entanto Pedro não lhe acha ar de má gente. E não pode dizer exactamente porque é que assim lhe parece, mas o facto é que aquela Fernanda não tem ar de má gente – “Mostra lá então essas imagens, filha.” – a mão trémula estende o envelope. E Fernanda retira as fotografias e alinha-as sobre a mesa com uma precisão de geometria ritual. Depois olha -as, coloca as palmas das mãos sobre as películas e semicerra os olhos por um momento. Um silêncio expectante – “Hmmm… … sim… … e diz-me filha, o que queres?” – “É o João?” – Fernada franze o lábio – “É.” – “Mas então porquê? Ele devia estar aqui? O que significa, porquê?” – “Olha filha, às vezes são os que ficam que se revoltam. Às vezes são os que vão. O João sente-se culpado. Mas também injustiçado.” – “Culpa? Mas culpa de quê?” – uma pergunta chorada com a acalmia das mágoas de ferida velha. Dois rasgos húmidos na pele – “Que culpa, Deus? João foi sempre um amor tão doce!” – “Temos sempre os nossos erros. Olha, eu acho que ele está a exigir demasiado pelos seus.” – “Mas que erros?” - Fernanda reflecte. Depois lança a mão debaixo da mesa a abrir uma gaveta. Em breve jorram cartas sobre as fotografias. Franze os olhos – “Disparates de mulheres.” – “João me traía…” – “Hmmm … … disparates filha, só disparates. Mas olha… “ – “Traía…” – “Escuta lá, rapariga…” – Pega-lhe na mão – “Para ele, sim, para ti, não sei, talvez. Mas faz um favor à Nandinha, fazes? Houve um homem que nesta vida foi João e que te amou e que quis fazer o que era certo. E fez! E foi homem, e não foi perfeito. Mas amou, muito. E agora está zangado, confuso, culpado de culpas, olha, que são mais do que as que tem. Aprender não é ficar zangado. Mas o conselho aqui da velha maluca é que recordes com muita saudade e carinho. E perdoes lá o que haja a perdoar…” – “E recordo… … mas não sei o que fazer…” – “Para mandar o João embora…?” – “Não é isso, Dona Fernanda, não é isso mesmo! Não é mandar embora. É… … é seguirmos em frente. Os dois.” – “Então… … eu podia-te ensinar alguma coisa. Mas é como tu dizes, filha. Sabes que não precisas de ser protegida. O teu João não é diabo nem bicho.” – “E faço o quê?” – “Pede ajuda ao teu amigo. Que está tão caladinho.” – Sorriso constrangido para Pedro – “A senhora desculpe, mas eu acho que nem devo…” – “Sabes uma coisa, moço giro, estou a pensar que te conheço desde que aqui entraste.” – “Ah, mas acho que não. Olhe, como ser irmão da Luna. Impressão sua.” – “Ou não. Deixa cá olhar para ti… … pega lá neste baralho e baralha, fazes-me isso?” – “A Senhora desculpe mas eu prefiro não me envolver com certas coisas.” – “Tens medo?” – “Também. E leio a minha vida como um livro, uma página de cada vez.” – “Pois lês… … e eu sei quem tu és. Saio pouco de casa. Mas nesta sala viaja-se muito. E eu já te vi antes. És o elo forte partido no coração de uma menina muito perdida que já vi. Mas deixa lá. Tinhas mesmo que ir por aí.” – “Não queres mesmo fazer o que te peço?” – “Não quero!” – Pedro eleva a voz - “E queres ajudar a tua amiga?” – “Se pudesse ajudaria!” – “Calma rapaz, não te faço mal, acalma-te…é que tu podes… … pensa nisso e quando sentires que tens a resposta… … provavelmente será a resposta certa. És isso.” – O rosto de Pedro endureceu no ensejo de ser uma fortaleza, a resistir a um vento forte que lhe assaltasse as muralhas. O mais irritante de tudo é que ele pensava mesmo que sabia o que tinha que ser feito - “Tocar os outros, sim mas…” – mas aquela bruxa estava-lhe a meter a mão dentro do peito e a sentir o coração. Fugir, fugir dali. Haveria tempo para tocar Luna. Mas antes sair dali.
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