quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Coisas estúpidas - A Guilda dos Melancólicos - Metamorfoses, escolhas e um sonho de dominó - Parte III


As Histórias na realidade nunca começam nem nunca acabam. E por isso não é possível contar uma história acabada. Os narradores mais hábeis apenas extraem dimensões particulares do enredo do Universo, com a precisão de um bisturi que crie a impressão de um ciclo que se abra e encerre em pontos certos e simbólicos. Mesmo Deus fez questão de fazer ver isso aos seus Anjos - “Tragam-me crónicas dos vossos périplos. Mas Deus vos livre de quererem perceber tudo! Aquilo que vos antecede e aquilo que se seguirá à vossa partida.” - E por isso para mim descer dos Céus e espreitar vidas tem sempre sabor a coisa de quem entra na sala a meio do espectáculo. Dessa perspectiva, no quanto vos posso contar por ter visto, os factos que vos tenho vindo a relatar começaram nessa noite trágica em que morreu o rapaz que nessa vida se chamou João. Mas pelos vistos poderia ter feito recuar estas memórias salteadas a uma guerra distante em outras paragens. Mais longe até, de facto em facto, até ao início da vida. Mas não divaguemos tão longe. O que é evidente é o paradoxo de que não é possível perceber uma história porque uma história é uma rede prodigiosa de muitas histórias, de escolhas e acasos. A hesitação de um comando no gatilho, nados mortos, vidas e amores e desamores, encantamentos de magia e do coração e da placidez do espírito, potenciados ou perdidos em encontros e desencontros, às vezes a fazer depender vida e morte de passos em álea à esquerda ou à direita. E uma legião de Anjos a planar sobre a cidade, guardas tutelares e cronistas de tantas existências quantas pudermos contar. E assim tanto faria começar como começámos e pedir-vos que esqueçam tudo. Ou melhor, não, não esqueçam nada! Recordem tudo! Mas não se viciem nesta minha perspectiva enviusada de anjo e meditem que poderia tudo ter começado de outra forma…

Por exemplo, alguns dias antes, naquela noite de chuva copiosa do dia 19 de Dezembro de 2003.

Era uma vez…


A prostituta colava o corpo ao balcão. Calças justíssimas com a cintura descaída. O branco a desvelar em semi-transparência o corpo curvilíneo e o fio dental preto a perder-se entre as nádegas achocolatadas. Cotovelo sobre a mesa, queixo a esborrachar-se na palma da mão e o enfado do início de noite no Skinframe. Bruna beberica espumante. A casa está pouco mais do que vazia. E de súbito som estridente de vidro a partir sobre a mesa. Confusão com o grupo ruidoso da sala do fundo. Paula fala alto e gesticula. Os seguranças acorrem nessa direcção. A prostituta e o barman grisalho dos olhos papudos trocam um olhar de recíproco entendimento - “O russo ainda vai quilhar a tua amiga.” – Bruna encolhe os ombros - “A Paula morre de medo dele…” – “O russo acha que é teso mas isto ainda não é a Rússia. O Patrão ainda o fode.” – e depois? Rala-se lá Bruna!

Era uma vez…

“Vá lá, caralho, estás armado em conas para quê?!” – João ainda argumentaria que não – “Epá, eu tenho que ganhar juízo!” – “Ganhas amanhã. Vá liga lá à gaja e diz-lhe que vens beber um copo com a rapaziada.” – E agora senta o rabo espaçoso no veludo desgastado daqueles sofás - “A Irmandade… “ - que é como dizer a malta da Redacção quando se juntava para copos e gajas em noites desgarradas. Enche de novo o copo da garrafa de whisky e morde uma pipoca. É quando cerra os olhos por um instante que tem a certeza que está perdido de bêbedo. O grupo espreguiça os corpos, mulheres atarrachadas ao colo de cada um, braços ao longo do sofá a tocar a pele, whisky sorvido. Risos. As conversas de merda do costume. As gajas, os gajos. Mais uma noite. E João embriagado. A tentar alinhavar ideias confusas sobre o sentimento claro de que não devia estar ali, de que ama a namorada e devia ir para casa. E no entanto ali está. Com o sangue a ferver e a mão a repenicar no lóbulo da orelha daquela loira pintada – “Vâmos?” – “Hmmm, e onde coisa fofa?” – “Lá no Hotel…” – A mão desliza por entre pele e camisa em busca do peito – Paula repele – “Para... … se quer, vem.” – João balbucia - “Vá lá, amostra grátis…” – a mão do jornalista insiste e Paula repele-o – “Ah, estás a ser má comigo…” – Nova insistência – e de súbito o som estridente de vidro a partir sobre a mesa – “Eu mato!” – O olhar irado de Andreas, a empunhar a base de um copo estilhaçado em arma. Todos congelaram, menos Paula – “Vai embora, Andreas! Me deixa em paz, filho da puta!” – Grito, ira, súplica – E não houve tempo para mais. Um segurança abrutalhado imobiliza o eslavo atarracado num estrangulamento. O outro esmaga-lhe o rosto como se os dedos fossem garras e sussurra-lhe quase num beijo – “Tu vais-te meter nas putas e é já, russo d’um cabrão. Eu ainda te fodo!” – Mas Andreas nem reagiu. Deixou-se ficar com o corpo inerte, encarcerado à força bruta. Olhou o segundo negro. Nem foi em desafio, foi em desprezo. E depois o olhar resvalou para João, em estado catatónico, a meio tempo entre a embriaguês e o terror – “Estás marcado.”.

João deixa a água quente bater-lhe na cabeça e escorrer pelo corpo, provocando uma sensação redentora de autismo, em que só existe ele e a imersão da água. Depois encosta o antebraço aos azulejos pingados e neste a testa. Luna dorme na divisão ao lado e ele sente-se um perfeito imbecil. Não tinha nada que ter ido. Nunca devia ter bebido daquela forma, nem usado desse pretexto de alienação para se perdoar o desejo. João sopra, cerra os olhos e passa os dedos pelo cabelo loiro e eriçado. Naquele momento, em que o outro lhe apontou aquele copo partido sentiu-se muito pequeno. Pequeno de medo, de vergonha. Pequeno…                  … talvez a namorada tenha razão e Deus nos mande sinais pelos acasos da vida. Ele nunca foi muito dessas coisas e sempre riu. Mas agora sente-se castigado pela sua traição iminente. Castigado, não. Avisado. Avisado de que é tempo de assentar. Admitir que agora ama e está pronto para ser fiel. Não quer a noite que agora lhe parece uma selva. Ao lado Luna dorme. Ah, sim, vai escolher isso, dormir ao lado de Luna. E se é um palerma que não sabe beber sem pensar com a pila, e sabe que é, pois bem - “… que se foda a Irmandade! Temos todos que crescer, é o que é!” – Veste o pijama e deita-se a empurrar o corpo da namorada com doçura, a ganhar espaço. Luna sorri sem que se saiba bem porquê. Não acordou.

De alguma forma, João tinha começado a morrer nessa noite. E se havia uma moral por revelar em que assim tivesse que ser, ninguém o saberia dizer exactamente. João à beira do precipício da traição e da luxúria, fulminado por um raio divino. Como no sonho de um anjo, a vontade de João hesitara num momento de servidão a um prazer momentâneo. Mas provavelmente só ele se questionou depois daquele dia se havia algo a aprender da sua morte. De certo só que o seu corpo caiu fantoche a derrubar cartas e potenciar eventos da dinâmica do Destino. 


There is fiction in the space between
The lines on your page of memories
Write it down but it doesn't mean
You're not just telling stories




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