Só que Pedro Henrique Pizarro Lobo é um herdeiro de fortuna. Filho acarinhado na abastança dos Lobos, herdeiro de virtudes notáveis que contas por alto podemos dizer que puxou ao pai ou à mãe, a verdade é que a sua vida foi linear, numa sucessão de prendas belas e óbvias. Ainda não perdeu o suficiente nem conquistou o bastante para colocar em causa a leviandade com que decidiu acerca de muita coisa - “Isto é assim.” - E por isso, talvez, apenas talvez, Pedro transporte sacos cheios de produtos de limpeza a pensar que ainda sabe muito bem para onde vai e que apenas sofreu um precalço no seu plano do Cosmos.
4 de Agosto de 1976. Nascia na maternidade Alfredo da Costa em Lisboa o rapaz que a mãe quisera que se chamasse Henrique e o pai Pedro e que por isso seria baptizado com o nome de Pedro Henrique, Pedro Henrique Pizarro Lobo. E seria quase morto que Pedro viria à vida, um bebé pequeno, arroxeado na agonia de cordão umbilical que lhe estrangulava o pescoço - “Temos um hippie!” - gracejaria o médico. Mas o caso não era para graças para um recém-nascido preso à vida por um fio e que não queria chorar e o Dr. Bessa Leite sabia disso. A pantomina perdia o sentido porque Sofia desfalecia ela própria, derrotada pelo sofrimento prolongado daquele parto a ferros. Olhos desfocados num último olhar pateta e feliz para um médico que erguia no ar aquele pedaço frágil de vida que acabara de dar à luz. E por isso a equipa transtorna-se de volta do pequeno Pedro que ainda não tem oficialmente nome e que não é certo que viva o tempo suficiente para o ter.
Mas o rapaz sobreviveria. E cresceria para se revelar um rapazinho de temperamento que ele próprio talvez definisse mais tarde como “peculiar”, esse adjectivo fetiche que enfeitava tantas vezes com um sorriso de troça adocicada. Afinal, o pequeno Pedro era forjado do carácter sublime e melancólico de Sofia e dos antípodas férreos da têmpera implacável de Álvaro. E portanto, Pedro cresceria para ser travo dos dois sem ser nenhum deles. Miúdo delgado e frágil, com os traços gentis de Sofia a lerem-lhe o rosto, parecia primeiro que seria o espelho da mãe. Introspectivo, de olhar triste e sério, Pedro viveria a infância a navegar no quase autismo de um mundo muito seu. Sofia preocupava-se. Não havia amizade de outros miúdos que o prendessem ou que ele prendesse. Os professores chamariam a escritora ao colégio para descrever o filho como um miúdo inadaptado. Brilhante, disciplinado, mesmo senhor de um carisma estranho, que por vezes transparecia nas respostas inusitadas com que quebrava a quase constância do seu mutismo. Mas Pedro não queria, ou não conseguia, estabelecer laços. As outras crianças olhavam-no com estranheza e ele devolvia-lhes uma certa arrogância. Não raras vezes a Professora Sara o surpreenderia a olhar de lado o colega que se esforçava por fazer ou dizer algo. Pedro troçava. Porquê? Mesmo mais tarde ele próprio nunca saberia explicar muito bem. A verdade é que sempre desejou ser aceite, encontrar laços que o retirassem do seu mundo interior, em que plantava imagens exóticas e férteis de cores, sabores e sentimentos, mas que sentia seco de muita coisa. Mas o rapazito também nascera arrogante, um pouco, mas sobretudo intransigente, consigo e com os outros. Não era o carácter certo para um menino que sonhava ter amigos. Nem seria o carácter certo para um homem que quisesse tocar os outros. Mas isso seria muito mais tarde. Por enquanto, Pedro era uma criança na escola. Imperador de um mundo pequeno onde impunha a lei com espadas de madeira. Mundo de longas conversas com a mãe, dos briefings do pai, assim troçava Sofia do estilo áspero em que Álvaro educava os filhos. Da ternura com que traria sempre Eduardo pendurado pela mão, esse único e pequeno convidado de honra do seu mundo e do quarto que os dois lobitos partilhavam. Aí Pedro e Eduardo mergulhavam numa dimensão de fantasia em que eram corsários, príncipes, amante de amores de cartolina, heróis de aflições que o mais velho imaginaria para delícias do pequeno Eduardo. De coldre de pistolas de plástico, em tiroteios de algazarra pelas suas causas, iguais às que Pedro bebia dos livros e dos filmes em video que devorava tardes a dentro, depois que chegasse da escola.
Depois veio a adolescência. É uma idade curiosa a adolescência, que soca os corpos e as mentes da meninice para que se cuspa cá para fora em turbulência um ânimo de pouco mais que criança e muito menos do que homem. Mas sempre em convulsão. E pelos catorze anos este Pedro desabrochava numa espécie de exposição dos talentos que germinara fechado no seu quarto. Toda a água bebida do poço fluía pelas veias. E Pedro descobria que era muita coisa, um hábil orador, dotado de uma imaginação prodigiosa e humorada. Sim, ainda vivia na sua ilha, mas estabeleciam-se pontes pelas quais Pedro ia e regressava ao continente dos outros. Aliviava-se a expressão grave e melancólica do olhar e emergia um sorriso com frequência rasgado na face. Foi a época de descobrir que as relações com o próximo não eram bichos-de-sete-cabeças. Sobretudo para alguém dotado. Era como se a capacidade de seduzir sempre estivesse lá estado. Como um bastão mágico que fosse esculpido para a forma da sua mão. Nem faltaria que aprendesse a dar-lhe uso. Há coisas que nascem connosco, forjadas para nós. A Pedro só faltava perceber que já o era ainda que por enquanto não o fosse. Talvez faltasse só algo. Necessidade de uma chama abafada que fosse só a incandescência de um brilho discreto. Aquele que pode simplesmente desfalecer ou incendiar a cidade. O catalizador. Esse catalizador seria um rapazola chamado Afonso. É tudo uma questão de ar que alimente. E Afonso seria ar. O miúdo novo do Colégio Charles Pierre tomava ao acaso o lugar vago ao lado de Pedro - “Sou o Afonso. Quem são as grossas ali da frente?” - Pedro indicava os nomes meio desinteressado - “Dás-te com elas?” - Pedro encolhe os ombros - “Conheço-as, fomos sempre da mesma turma. Não somos exactamente unha com carne.” - “Ai que o Afonsinho está a fazer falta na vida deste moço...” - Pedro não conseguiu deixar de rir - “Ai sim?” - Vá, tu tens ar de ser um puto esperto, ajuda-me lá com alguma coisa para lhes dizermos.” - “Para lhes dizermos?” - “Sim, miúdo, uma entrada à campeão. Não conheço ninguém na puta desta escola. Preciso de amigas boas. Vá lá! Como é que te chamas?” - “Pedro…” - “Vá lá, Pedrinho, uma cena baril para dizer às miúdas.” - “E como raio hei-de eu de saber?” - “Olha lá, olha lá a loirinha a rir-se. É aquela a Vanessa? Que mamas, puta ca pariu!” - Aquele Afonso olhava a outra predador e quase que sibilava. E Pedro estava francamente divertido com aquele personagem. Ainda não sabia que naquele dia faria o grande amigo com quem muito partilharia no futuro. Não tinham nada em comum, enfim, muito pouco. Afonso era certamente um pouco mais velho, Pedro adivinhava-lhe um ou dois anos chumbados no currículo. Um tipo alto, atlético, de cabeleira loira revolta em canudos. Pedro era mais baixo, delgado, moreno do fim daquele Verão a esmorecer pelos últimos dias de Setembro. Talvez fosse por isso mesmo, por não terem nada em comum e tudo a aprender do outro - “Olha lá, pá, até te escrevo um soneto.” - “Quê?” - “Versos...” - Afonso primeiro pensa divertido e depois conclui - “É o que eu digo, miúdo, a gente vai-se entender. Escreve lá qualquer coisa gira para o Afonsinho.” - E Pedro escreveria…
Chegou o gajo da moda
c'a qualidade que não mente
Façam fila grossas da turma
Pró Afonsinho minha gente
Provavelmente escreveu aquilo por troça e nunca acreditou na ousadia deste Afonso. Mas Afonso leria atentamente a folha que Pedro lhe estendia. E depois muito compenetrado avançaria para a frente da sala e pediria a atenção da turma. Por fim, seria com alguma encenação e solenidade que rabiscaria com giz no quadro preto, numa caligrafia tosca e garrafal, os versos - “E eu sou o Afonsinho” - remataria, a bater com a mão no peito. Risada geral e derretimento da loira Vanessa. A turma tinha um novo palhaço. E Pedro achava uma ponte.
Sentado no chão, costas contra a parede e pernas flectidas, Pedro ri terno para o seu passado e para a foto de ambos na casa de Porches. Pedro e Afonso queimados do Sol, de tronco nu, sorriem para a fotografia, o segundo sempre mais matulão, braço a aconchegar o amigo contra si, toalhas em turbante na cabeça. – “Teria...? Dezassete anos, sim por aí.” - Afonso teria portanto dezanove. Eram inseparáveis desde o 9º e aquele fora o Verão antes da entrada para a faculdade. Sara tirara a foto, morta de riso - “Grande Afonso, que estás a ficar gordo e careca. Mas, pôrra, gosto de ti! Tenho que te ligar para vires cá ver a casa...” - Pedro pensa alto. Enternece-se e recorda essa época em que pelo preço pequeno de lhe fazer os trabalhos de francês, conheceu o mais divertido dos alunos do Charles Pierre, um grande, grande amigo, que o ensinaria a divertir-se como nunca, ser aceite por todos e, “last but not the least”, dar a volta às miúdas. Devolve a foto ao mar de fotos espalhadas em monte pelo chão da sala. Escolhe uma sua com Sara. Contempla-a em silêncio. Agora não se enternece só, corre uma lágrima. A sua carreira de namoradeiro em parelha com o amigo fora de facto curta. Sara. Depois sempre Sara, até que por estes dias a perdera. - “Mais de dez anos…” - Sara já não conheceria o miúdo reservado e tímido que Pedro fora primeiro. Nada disso. Pedro percebia os seus dons e deles traçava escolhas. Tudo mudava e Pedro reinventava-se na adolescência. Talvez nem tanto. Talvez fosse mais certeiro dizer-se que Pedro se afirmava. Provavelmente pouco se teria alterado na concepção do Mundo que faria o miúdo de ares compenetrados. Apenas lição de malabarismo para o equilibrista. Truques de palhaço e à boca o megafone de entertainer de abas de grilo. Pedro descobria que possuía dentro de si o dom de divertir as plateias com o seu circo de “one man show”. Mas, sem ilusões, o circo abandonava o povoado ao cair da noite, de regresso à sua ilha. E Pedro permaneceria só para poucos. Contemplativo, distante. Convicto das leis que inventava para si desde tenra idade. Só que agora havia Sara.
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