sábado, 6 de outubro de 2012

Escolhas simples em que deixamos fugir a felicidade - A Guilda dos Melancólicos - O Sangue de Sara - Parte V


Com o dedo indicador faz soar a campainha. Em instantes a porta abre-se e Sofia assoma – “Sara, filha, entra!” – A rapariga tira os óculos de sol redondos que trazia encaixados no nariz sardento e oferece à mãe do namorado o sorriso que lhe é possível - “Anda cá, querida…” - a mão de Sofia puxa Sara para dentro da casa e para dentro do seu abraço forte – “Nós gostamos muito de ti, Sara. Sempre gostámos e continuamos a gostar. Mais ainda. Está bem?” – Sofia sussurra-lhe as palavras ao ouvido. Sara meneia a cabeça numa reacção desajeitada. A imagem do rosto das duas mulheres, quase colados, desvanece-se em desfoque para podermos ver cristalinos atrás de si os olhos complacentes de um anjo. Cerra os olhos, imortal. E percebe o que vai dentro desta humana Sara. O que é? Tristeza, claro. Mas há mais e é turbulento e confuso e incerto. Há amor, há vergonha, há gratidão, há esperança e ausência. Ausência de poder amar na plenitude aquele abraço aberto. De aceitar aquele amor. Perdão? Sara não tem que ser perdoada, ou terá? E à sua mãe. Quem perdoará? Poderá ela própria perdoar? Um dia, sim. Não hoje. Mas e os Lobos? Ah, Sara! Tu ainda nem tens a plenitude do saber! Ainda não é hoje que poderás fazer as perguntas todas, quanto mais dar-lhes resposta. E no entanto, que já sentes pulsar coisas mais fortes que a verdade dentro de ti, é-te impossível dares-te inteira ao abraço que te oferecem – “Ele está lá em cima…” – Sofia sorri e Sara sobe, a desapertar a casaca castanha que traz cintada.

As bocas tocam-se enquanto o rapaz deixa escorrer uma mão por dentro do camiseiro da namorada, a sentir-lhe o seio – “Onde é que vais?” – sorriso malandro – “Sou um peregrino…” – “É? Então vais peregrinar para outra paróquia.” – “Vá lá, não sejas chata…” – “Na, na, na, que já te conheço. Ficas doido e depois os teus pais estão cá e... … nem penses, vá quietinho!” – Sara afasta-se divertida a escapar à emboscada da parede do quarto e deixa o corpo deitar-se à assimetria da cama – “Vai correr tudo bem, não vai?” – Pedro senta-se ao seu lado – “Claro que vai, amor! Já pensaste bem no que dizer?” – “Sim…” – senta-se – “Falei com o meu pai. Queremos saber os valores exactos. Acho que podemos pagar tudo em pouco tempo. Quanto ao emprego é que não sei. Era tão bom que ela não perdesse o emprego, mesmo que perca a chefia. O que é que te parece?” – Pedro baixa os olhos – “Não sei, Sara. Olha lá… … não sei bem se pergunte e como pergunte… … mas afinal a tua mãe… … como é que ela foi fazer isto?” – O estômago de Sara encrispa-se de novo em algo que ainda não é para descrever. Mas o que se revolve dentro de si não é sereno. Não, não é – “Não sei, Pedro. Não lhe arrancamos nada. Chega a casa, enche-se de ansiolíticos, dorme. Eu acho que a minha mãe está numa total depressão. Ah, mas não sei, não sei, não sei! – mãos à cabeça num gesto de exaspero – “Escuta…” – Os corpos caem, lado a lado, sobre a cama. Os rostos à simetria dos olhares e da ternura – “Leva-me dali para fora…” – os olhos enrugam-se nessa prece – “Claro que levo, Sara…” – “Não, hoje, vem comigo. Vou buscar as minhas coisas. Salva-me daquele inferno. Eu ali vou acabar por me afundar, amor. Vamos lá buscar alguma roupa e leva-me embora. Quero ir viver contigo. Hoje!” – “Queres vir cá para casa…?” – “Não, Pedro, não, não.” – A mão acaricia a tez morena do rapaz – “Vamos embora. Hoje vamos dormir a um lado qualquer. Só nós os dois. Amanhã, logo vemos. Procuramos um espaço. Se não for a casa da Ericeira que seja… … olha, não me importa. Vou contigo. Leva-me contigo, porra! Quero ser tua mulher, quero dormir contigo, quero ficar ao teu lado, quero sair daquela casa. Só tua, amor, Pedro, só nós dois. Salva-me. Vam…” – o dedo de Pedro sobre os lábios. Um sorriso bonito – “Xiuuu. Tem calma. Muito em breve, amor, muito em breve, juro-to.” – “Pedro, hoje, não me obrigues a voltar para casa…” – Pedro senta-se na cama – “Então, Sara, precisamos de algum tempo! Precisas de ver as coisas com o teu pai. Deixa vir a reunião, deixa ver como se resolve isto. Deixa-me falar com os meus pais. Pensar em como fazer tudo. Daqui a umas semanas, um mês, sei lá. Avançamos! Que tal?” - Sara ergue-se, baixa os olhos ao chão, desapontada. Muito mais do que aquilo que Pedro percebeu nesse momento. Também ele teria coisas para sentir e arrepender mais tarde – “Está bem…” – “E olha, na Quarta-feira, não queres mesmo que eu vá lá contigo ao Banco?” – “Não, amor, a sério, eu prefiro ir sozinha.”.


É esperada uma descida das temperaturas máximas, em especial no litoral Norte e Centro, com especial arrefecimento nocturno e formação de geada., esperando-se que os termómetros possam atingir os zero graus.

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