sábado, 6 de outubro de 2012

A voz do sangue - A Guilda dos Melancólicos - O Sangue de Sara - Parte IV


“Sara?” – atarefada a rapariga ia entrar no seu quarto, mala do computador portátil a descair já do ombro, sobre a sobrecasaca de veludo a esconder o camiseiro vermelho vivo. É a mãe que a chama, deitada na cama, do quarto conjugal da porta em frente. A filha entra na atmosfera, não sabe bem a sentir o quê, e a habituar os olhos à luz mortiça em que a mãe repousa, edredão puxado sobre o colo – “Senta-te aqui, a mãe queria falar contigo, pequenita.” – A mão de Marília estende-se a agarrar a mão da filha mais velha, cujo corpo assente e se senta à beira da cama – “Amanhã vais ao Banco, o teu pai disse-me…” – acena que sim – “Escuta filha, eu sei que estás desapontada comigo. Acredita que era a última coisa que queria. Mas as coisas correram mal. A mãe vai-te explicar tudo e tu vais perceber. Foi desespero, percebes? Eu queria resolver tudo. A mãe ia resolver tudo. E se me deixarem, é o que farei! – aperta a mão da filha mais forte. Esta não a olha, íris perdida no álibi de um carvalho despido lá fora – “A mãe gosta muito de ti, Sara. E precisa muito de ti. Precisa muito da família unida à sua volta neste momento. Já alguma vez te falhei? Querida? Olha para a mãe. Já? Não te dei sempre tudo? Sara… … olha para a mãe… Nunca ninguém vai gostar de ti como eu. Pequenita? Não me dás um beijo?”

A conversa continuaria ainda mais um pouco. Nunca ninguém soube exactamente o que Marília terá dito nem até que ponto essas palavras abriram ou fecharam a válvula do coração de Sara. Foi uma noite fria, a dessa noite de Reis do ano de 2004. Noite de Reis! Ironia, trocadilho de palavras. A última noite do conforto de uma mentira. Uma mentira, sim, um manto tecido pelos fios intrincados de muitas, muitas mentiras. Por quanto tempo, sem que suspeitasse que assim era, o rei caminhou nu!? E até quando poderia permanecer assim até que a fúria se abatesse sobre si e sobre a debilidade sem rei nem roque do despojo? Mário, na sala, saboreia um malte e repousa os olhos no crepitar caótico do fogo que arde na lareira. Cansaço nos olhos papudos e olheirentos de mais um dia de trabalho, de uma vida de trabalho. Mas hoje pesa mais do que o fardo da rotina. Mas e então? Se não há nada a fazer, que o malte desfaleça no paladar e embale aquele serão, até que regresse o dia e se desvele o que se anseia saber. Filipa tarda em voltar a casa. Mas ninguém se pergunta realmente porquê. Não hoje. No andar de cima, mãe e filha conversam. Para lá do vidro da ampla janela, sentado na ramada sólida de um velho carvalho, um anjo encosta o corpo à madeira rugosa e adivinha as sombras chinesas de ambas, para lá das cortinas de rubro velho do quarto. Um teatro de sombras! Como aquele a que Afonso levou certa vez, há muito, muito tempo, a neta. Nesse dia, sentada de pernas cruzadas à chinês, como dizia, cotovelos a amassar as coxas, bochechitas de miúda repousadas nas palmas da mão, Sara ficaria de queixo caído e olhar incrédulo, a maravilhar-se naqueles efeitos de luz e sombra em história de encantar. Mas nessa noite Sara já não é criança, é certo, para crer em sonhos. Talvez não. Mas há estórias em que não é fácil deixar de querer acreditar.


Atravesso o travesseiro
Te reviro pelo avesso
Tua cabeça enlouqueço
Faço ela rodar

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