segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O abandono das certezas - A Guilda dos Melancólicos - Alicerces no silêncio - Parte III


A campainha fez-se ouvir na irritação de um toque longo. De novo à tona deste dia vindo da profundidade de recordar. Lesto, atira as fotos de novo para dentro da caixa de papelão, passa as costas da mão a limpar o rosto húmido e vai abrir a porta aos homens que retiram já os fardos do camião. Sofás, mesas, um aparador, cadeiras, a cama, secretária. Uma coluna de estivadores suados vergados a pesos vai passando pela porta. Pedro vai indicando os espaços. E vai sentindo algo. De novo um pouco daquela sensação de um sopro de esperança. Como no dia da escritura, ou a escolher os móveis em Paços-de-Ferreira ou há bem pouco, a passar os dedos por embalagens fruta cores de detergentes. Em minutos aquele espaço parece outro e ganha algo. Por isso Pedro contempla a sua casa a vestir-se como que contemplasse o futuro, agrilhoado que estão dez anos de passado dentro de uma caixa de papelão. Uma caixa de papelão…         … é irónico. Tudo o que é, tudo o que fez, a caber dentro de uma caixa de papelão. Faz pensar na dimensão e na fragilidade de uma vida e de um passado. Madeira e ferro forjado a simbolizar a esperança do futuro. E uma caixa a guardar o passado. E hoje, hoje é o quê? Passado, presente, ponte, nada…? Pedro não sabe. 


Remember days of skipping school
Racing cars and being cool
With a six pack and the radio
We didn't need no place to go


Quando nos atarefamos as horas passam como se nem minutos tivessem sido. Este Sábado foi assim para o mais recente inquilino do bairro dos pescadores da Caparica. Mas agora já caiu a noite sobre a cidade. E dir-se-ia que talvez essa sombra tenha arrastado de novo o coração de Pedro. Corpo despojado à diagonal do sofá, fixa os olhos no vazio, misto contemplativo de memórias e apatia. Pela casa na penumbra só entra o luar nas vidraças e brilha o led do leitor de cd’s. Talvez porque lhe tragam de novo tempos antigos, Pedro ouve a “Resistência”. E recua…

Tantas certezas, todas as suas certezas se desmoronam sem que saiba como tenha dado causa ao cataclismo ou o que possa fazer para o evitar ou remediar. Sempre pensara com convicção os caminhos por onde queria ir, e a cada passo em certo se renovava a certeza do norte. Acabar o colégio, tirar Direito, exercer advocacia. Depois compraria a casa dos sonhos partilhados com Sara, o apartamento com a varanda sobre o mar. E viveria uma vida a meio termo entre a abastança e a simplicidade. A amizade do Afonso, a família. Vida de dinheiro suficiente e afectos sucintos mas seguros. Não havia realmente nenhum motivo que o alertasse para a fragilidade destas conjecturas, se sempre batera tudo tão certo!

Talvez tenha sido essa a maldição da vida de Pedro até aqui. O Diabo galvaniza-nos com uma mão recheada de trunfos e ilude-nos da ilusão de que as cartas são exactamente aquilo que parecem e que por isso é impossível perder. Mas não são. Podemos perder, podemos errar e meter a manilha debaixo do Ás. De certo apenas temos que cedo ou tarde isso sucederá. E a verdade é que o filho varão dos Lobos jogou sempre com demasiados trunfos e soube sempre muito menos do que lhe parecia sobre as variáveis vastíssimas que o baralho encerra no seu todo. Pela primeira vez sente-se a perder e não sabe muito bem o que fazer à sua vida e às suas convicções. Dir-se-ia que se lhe transfigurou de novo o rosto naquela máscara de menino sério de outrora. O que fazer, o que pensar? Pedro pensou sempre muito. Acha mesmo que pensa mais a vida que a maioria dos demais e provavelmente tem razão. Não, o seu calcanhar de Aquiles não será a incapacidade de reflectir a vida. É outra maleita. É a convicção excessiva de lhe conhecer todas as regras e excepções. É a arrogância de ter decidido com demasiado desconhecimento de viver - “isto é assim” - Pedro Lobo nasceu Juiz. Forjado dos valores exigentes de Álvaro e de uma pitada da benevolência de Sofia. Mas em algo superaria ambos os progenitores, talvez fruto da mescla, virtude só sua, sinais dos tempos de maior modernidade em que nascera, sabe-se lá, mas o certo é que demonstraria uma apetência para pensar a vida, julgar-se, julgar os outros e tirar morais. O que é certo, o que é errado. Virtude, defeito. Atitudes más, perigosas, simplesmente mutilantes. Qual o caminho certo na vida? E não se podia condenar Pedro por ser injusto ou puritano. Era vagamente liberal e tolerante com o Mundo, embora de bitola mais conservadora na forma de se medir a si e aos que lhe fossem próximos. Seria certamente pela tal convicção num caminho. Vida tranquila, segura. O apego a virtudes como lealdade, dedicação, honestidade. Desconfiar sempre de aves raras, libertinos, excêntricos. Deixai-os viver. Mas longe daqui! E sobretudo a repugnância pelas traições dentro do seu círculo restrito. Foi assim que foi triando o seu séquito até aos muito poucos. Eduardo, Sara, Filipa, Afonso, Guida, Hugo. Todos os que não tivessem o perfil, ou que de algum modo lhe fizessem sentir que o traíam eram afastados. Sofia adverteria - “Pedrinho, não podes ser tão intolerante…” – Mas ao filho não sobravam dúvidas. Bastava-se com o muito pouco que tinha de afectos. Porque esse pouco era muito. Os outros interessavam-lhe quase nada. A ilha ascendia a ser um arquipélago mas recusava-se a mesclar-se ao continente. A mãe ponderava que era uma vertigem de ter o sangue do marido. Sara dissera-lhe, há não muito tempo - “És uma fortaleza, Pedro. Amas-me, bem sei, amas tudo o que tens dentro dessa muralha. Mas para o lado de lá, a tua pedra é fria, distante. És absolutamente cortês, sim, correcto. E até consegues ser divertido, sedutor, fazer rir, cativar. Mas estás-te a cagar. Não olhas as pessoas nos olhos, não ouves realmente o que te dizem e se pudesses esquivar-te sequer ao aperto de mão, ao toque, era isso mesmo que farias. E eu não sei porque és assim, amor, e não sei se devias ser…” – Estoque para Sara.
Mas agora parece que a vida prega uma puta de uma rasteira ao legislador. O séquito titubea. Uns estão longe, outros decepcionaram. Os que sobram de alguma forma não chegam para que Pedro não se sinta à deriva. Triste. Solitário. Há quase dois meses que sente que vegeta. Acordar anestesiado de sonhos e querer forçar-se a dormir de novo assim que o cérebro retoma a consciência da realidade. Uma agenda de trabalho que executa autómato, taciturno. Às vezes procura Afonso, almoça com Hugo. Mas não sabe o que há-de dizer nem se ilude de que os amigos lhe possam dizer grande coisa. Morre de saudades de Sara, de Eduardo. Sente-se peixe fora de água no lago desta solidão. A mais das vezes fica sozinho em casa. Sentado no sofá, como agora, no silêncio. Música, televisão ligada em alheamento. Às vezes nem isso. Senta-se só na penumbra de estar só. Tem a alma entupida. Não recebe nem oferece nada. Não consegue ver um filme, pegar na guitarra, folhear um livro. Vazio enorme que sente que pesaria mais ainda em qualquer destes prazeres anacoretas. E Pedro começa a odiar e a temer esta solidão. E a pensar que muita coisa deve ter corrido mal para agora dar por si a ter tão pouco. Às vezes, como hoje mesmo fez, vai passear pela Costa. Olha, invejoso, os casais que caminham de mãos entrelaçadas. Vê os grupos nos cafés e nas esplanadas. Os risos, as conversas. Sente saudades do que teve. Mas mais do que isso, emerge uma sensação inusitada de saudades do que realmente nunca teve nem nunca quis ter. Liga o telemóvel que se acende na penumbra e faz desfilar nomes pelo ecrã. Gostava mesmo de ter a quem ligar. Dava tudo para que aquele maldito aparelho tocasse e lhe formulasse um convite para não estar ali desolado. Mas não tem ilusões. Afonso e Hugo estão com as namoradas e neste momento Pedro precisa de outra coisa. Algo que ainda não sabe definir muito bem o que é mas tem a certeza de que não possui.
A noite avança, com o ritmo marcado pelas nuvens a desfilar para a Lua, procissão para o olhar de quem a contempla pela janela. Passa da meia-noite, a música já se calou e o telefone não tocou, como ninguém esperava que sucedesse. A fase de esperar obcecado na fantasia do telefonema de Sara já se desvaneceu nas esperanças. E não há muito mais de quem esperar uma mão estendida. Por isso Pedro sobe as escadas de madeira. Vai verificar a caixa de email. Depois deitará o corpo a esquecer de novo nas horas que se sigam. Mas talvez mais do que isso. Talvez pensar que a vida precisa de um plano e de alguns milagres que saibam dançar para este. Não tem nada, ainda não. Mas começa a desconfiar de que o seu coração precisa de uma revolução. Abrir portas e orar para que não seja demasiado tarde.
Ish’Allah


Aqui ao luar,
Ao pé de ti,
Ao pé do mar,
Só o sonho fica só ele pode ficar...

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