quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O medo das escolhas erradas - A Guilda dos Melancólicos - Os Intranquilos - Parte IV


Luna senta o corpo sobre o edredão fofo. Deixa cair as mãos entre as pernas semi-abertas, costas curvadas a uma corcunda de derrota, mímica para o corpo do desalento da alma. Olhar meio perdido. Poucas palavras se trocaram no regresso de Benfica. Não sabe bem na verdade o que sentir. As culpas de João… … que culpas? – “Nem foram pecados, foram disparates, querida.” – E Pedro… … Pedro ficou perturbado. Tentou ser meigo, mas aquilo pesou-lhe. Suspira. Está muito, muito cansada. Olha o fio sujo de sangue seco à cabeceira. Toma-o delicado entre os dedos – “João…” – e de repente, assim, sem mais nem menos, soltou-se uma recordação. Não explicou tudo. Na verdade não explicou nada, mas do fio de seda que enlaça as memórias recalcadas da morena soltou-se uma recordação.

“Porque choras?” – João assoma à porta do quarto, a surpreender a namorada sentada à beira da cama – “Nem sei João, me bateu uma tristeza imensa, assim, de repente.” – “Mas porquê, boneca?” – toma o lugar ao seu lado e enrola-a num abraço que a puxa para si – “Não sei, não sei. Deve ser do Natal, fico sempre triste, me lembra minha família, minha mãe. Fico sempre com uma sensação de perda. Daquilo tudo que eu perdi, do que tenho e tenho medo de perder ainda. De te perder a ti.” – o corpo aninhou-se ao colo do companheiro e os dedos esboçam uma carícia pelo peito – “Bobagem…” – “Não é não, boneca. Todos sentimos isso às vezes. Medos. Certo? Escuta-me lá. Vou-te confessar algo que nunca te tinha dito.” – Luna senta-se na cama curiosa. E João medita por um segundo, a sorrir do que contará. A afagar o sinal de nascença na palma da mão direita, como sempre faria quando meditasse com os seus pensamentos – “ Sabes no que penso imenso? É engraçado…       … na sensação enorme que tenho… … de…      … de medo de te perder.” – “Oh! Querido…” – “Sério! E nem é que me abandones. É de fazer escolhas erradas. De ter culpa naquilo que faça e perder-te. Sensação estranha. Penso muito nisso. Que te quero muito proteger. E depois é como se temesse ser um gajo de escolhas idiotas. E que isso estrague tudo.” – “Mas me queres contar alguma coisa? Estás confuso?” – Não!” – João abraça Luna – “O mais engraçado é que não estou. Epá, amo-te. Mesmo muito! Sem sombra de dúvida. Mas quanto mais te amo mais tenho esta sensação! De estragar tudo.” – “Estás a fazer o mesmo…” – o rosto de Luna aligeira-se – “O quê?” – “Esse tique giro de coçar o teu sinal.” – “Ah!” – nas memórias desse último Dezembro, os amantes trocam mimos. Meses depois só Luna recorda e deixa pender a cabeça.


Pai Nosso que estais no Céu,
santificado seja o vosso nome,
vem a nós o vosso reino,
seja feita a vossa vontade
assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos daí hoje,
perdoai-nos as nossas ofensas,
assim como nós perdoamos
a quem nos tem ofendido,
não nos deixei cair em tentação
mas livrai-nos do mal.
Amén

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