Luna olha o telemóvel e morde o lábio. Pensar demasiado antes de fazer o que quer que fosse nunca foi o seu cartão de visita. É gume de faca do sentir e do impulso. Mas quando cogita uma rota de colisão com astros que não é provável que queiram ser tocados, até Luna hesita. Mas é lá ela mulher de hesitar ou pensar muito o que quer que seja?! Mais não houvesse e uma estranha sensação benigna a moveria. Mas Luna nem precisa de tanto. E por isso os dedos viajam hábeis no teclado.
“Entre…” – Bruna assomou à porta, espantada por não encontrar quem queria. Sentado à secretária, a morder a ponta da caneta bic, um advogado muito mais jovem do que Francisco – “Desculpe, Doutor. Estou procurando o Dr. Francisco Sá…” – Pedro observou a morena, a querer castrar a cobiça do olhar ao corpo curvilíneo. E ao cabo dos segundos lá conseguiu a reacção – “Três portas para a esquerda.” – A brasileira desculpou-se e saiu, deixando a Pedro a gula de lhe olhar as nádegas e de sorrir para consigo – “Que Diabo, quem será esta e ao que virá? Clientes assim não me passa o malandro.” – Provavelmente os olhos voltariam ao processo aberto sobre a mesa. Mas o telemóvel estremeceu a acender o ecrã em azul pálido – “Mensagem nova”.
Olá, é Luna, lembra de mim? Gostei muito de conversar contigo naquele dia. Não quer tomar um café?
Luna. A morena triste. Um disparo ecoa na cabeça de Pedro e o sangue salpica-se numa memória. E depois recorda aquela tarde. Porque é que nunca lhe ligou? Não sabe. Afinal, adorou aquele momento, aquele par de horas à conversa com uma estranha, a falar-lhe de retalhos de uma vida diferente da sua, ambos a alienar por momentos de dores de cada um. Depois quando se despediu deu-lhe o número de telemóvel – “Olha, enfim, sem querer soar parvo, se algum dia quiseres, precisares de alguma coisa, guarda o meu número.” – Talvez pudesse ter dito - Hmmm… - “ … sabes que estou a adorar partilhar esta tarde? Vamos trocar contactos, vamos repetir!” – mas não foi isso que disse. Luna retribuiu com o seu número. E depois o tempo simplesmente passara. Até hoje, fim de tarde do dia 25 de Março de 2004. Pedro olha para um telemóvel e reflecte numa resposta.
Já sei namorar
Já sei beijar de língua
Agora só me resta sonhar
Já sei onde ir
Já sei onde ficar
Agora só me falta sair
Fim de tarde. Mas não tanto que se desvaneça no céu ainda a luz viva da cidade de Lisboa. Pedro deixou o carro no Parque do Camões e desce a pé pela Rua Garret. O coração da cidade clássica agita-se em enxame dos que calcorreiam a rua para baixo e para cima. Estudantada, yuppies, dandys, a gente da moda a passar pelos freaks imundos que dedilham guitarras e fazem malabarismo com maças na calçada. O cheiro a café e a croissants nas esplanadas. Corropio de lojas e sons esparsos de gente e música. E Pedro, que desce a Garret a desembocar nas portas dos Armazéns do Chiado, onde o esperará Luna. O vento levanta-lhe a gabardina em cauda e arremessa-lhe o cabelo desgrenhado sobre o rosto. O que sente? Uma vaga timidez nervosa, o incómodo de peixe fora de água, a provar um travo discreto ao porventura do ridículo. E, apesar disso, a alegria de algo a acontecer, a ansiedade da esperança em algo por definir.
“Dá licença que eu sente, Francisco” – Francisco Sá acederia em que sim com um gesto de mão estendida, a ajeitar os óculos à ponta do nariz e a focar os olhos nos decotes da morena – “Olha, Bruna, primeiro vamos definir aqui algumas regras. Tratas-me por Dr. Sá. E, claro, nem escuso de te dizer que espero muita discrição sobre uma série de coisas. Estamos entendidos?” – Bruna acenaria que sim, num menear de cabeça que não se poderia definir com exactidão se teve mais de dignidade ou submissão. Sá olha-a longamente. Reflecte. E por fim espanta o fio das suas cogitações e enceta como se tivesse ali mesmo atingido qualquer tipo de conclusão - “Bom, eu devo-te dizer francamente que me pergunto se o Álvaro não estará tolo. Mas olha, pelos vistos o velho patife até gosta de ti e pede-me portanto que te ajude.” – E se voc…” – “Se o Dr. Sá…” – Bruna corrige – “E se o Dr. Sá tivesse escolha, nem olharia na minha cara.” – Sá franze o lábio. Sabe por onde aquilo vai. E se não tivesse consciência deixaria que fosse por aí e para o Diabo que a carregasse. O pior é que tem. Sá é um misógeno, um mulherengo, hedonista, egoísta, e pois então, um “putanheiro”, para quê negar? Mas Francisco Sá não é o demónio. E ali não é o Skinframe, nem há luzes que enebriem, nem whisky, nem libido nem nada que o desculpe demasiado para o que já foi tantas vezes e será outras tantas – “Hmmm, pois, eu sei… … escuta lá garota. Não te quero mal, sério… … os copos são os copos e… … olha lá, que idade tens tu?” – “Vinte.” – Sá observa-a e recorda-se daquela garota a abocanhar-lhe o pénis. Sensação estranha a meio caminho entre o regozijo e o embaraço – “Caramba, pá…” – “Você quer dizer algo, pois bem, diga.” – “Estava a pensar, garota, estava a pensar. Sabes, sou um homem que gosta das coisas definidas. É irónico que agora até me esteja a embaraçar dizer-te isto, mas para mim eras puta e agora baralham-me as águas. Hmmm, pois…” – “É difícil me olhar e ver gente? – “Boa pergunta, garota, boa pergunta… … escuta, eu não sou mau tipo. Nenhum de nós é. E tu, e as miúdas da vida… … são adereços de… … sonhos? Sonhos fáceis e consumíveis. Ah, merda!” – Bruna baixa os olhos. Talvez nunca se tenha sentido tão baixa. Já sentiu os punhos no corpo, já ouviu sibilar a humilhação de lhe chamarem puta, vaca, cabra, cona, carne, carne para canhão. Já fez tudo, já viu tudo, já sabe tudo. Mas até aqui foi mais fácil. Há muitos homens. Os egoístas, os predadores, os solitários, os carentes, os claustrofóbicos, os tontos, os vividos e os por viver. Bruna espera-os na arena. Umas vezes é fera outras é caça. Mas o corpo pode despir a arena e fugir dali. A multidão que saliva e urra na loucura e as espadas que lhe mastigam no corpo. É tudo papel. Mesmo se sangra. Ferro para o corpo, papel para a alma. Mas que dizer daquele sujeito que a olha com a perplexidade de quem tem vergonha e pena de como a vê. Puta. Lixo. Cortesã do pecado velado, figura incómoda à luz dos dias e excomungada das casas dos que têm direito de existir. Hoje e aqui não há Carnaval. No espelho dos olhos de Francisco Sá, Bruna lê aquilo que é para os outros - “Vamos lá pensar. O que é que pretendes fazer, como é que eu te posso ajudar, fazes ideia?” – Bruna encolhe os ombros com a expressão corporal de quem teme que em vez de um sonho lance sobre a mesa um absurdo. Um sonho absurdo, como serão todos os verdadeiros sonhos. Pois então, Bruna não quer um sonho, quer viver do outro lado do espelho – “Eu queria arrumar uma vida normal. Ter papel, sair fora. Poder ter amigos, poder ter uma família, um trabalho.” – “Hmmm, ou seja queres deixar de ser puta… … e já pensaste bem porquê, como?” – Bruna fita-o como se não entendesse exactamente a pergunta – “Oh rapariga, pensemos um bocadinho. Há-de haver um motivo para teres acabado assim. E há que perceber se há uma espécie de hmm… … antídoto! Uma solução para sair. Mais do que isso, um motivo! Há?” – Bruna franze o olhar – “Já sentiu fome, Doutor? Já pensou que não há nada para ti, só miséria, pé descalço, barraco sujo? Eu vim daí mesmo. Do nada. E olhe… … não vou mentir, não, se puder sair e tocar minha vida, eu saio. Mas para fugir daquele destino? Ah, eu fazia tudo de novo! Tomava porrada, dava pra quem tivesse que dar” - O peito exalta-se. Pela primeira vez Francisco preferiria nem pensar muito nisso, naquele peito jovem – “Pois é, Bruna. E então, chegaste aqui, a um país do outro lado do oceano. Não há fome, andas bem arraiada, cheiras bem. E, estas coisas todas, é bem certo que te roam a alma. Só que o grande dilema, filhota, é que te fazes pagar muito bem por isso. E depois?” – “E depois?” – “Ora bem! E depois?” – Francisco suspira – “Sejamos francos… … se não for como puta quanto vales para não voltares para onde não queres voltar?” – Bruna bem sabe. Está presa entre o presente que a mata e o passado que renega. E só por ela pode muito pouco senão aceitar um ou outro destino - “Álvaro me disse que você poderia me ajudar…” – “O Álvaro, o Álvaro, grande sacana! Para ele sou o santo padroeiro das causas pouco ortodoxas… … Diabos o levem a ele e a ti!” – Depois Francisco estagnou. Só o Diabo ou um Deus de humor muito especial poderiam entender a engrenagem refinada da sua alma. Eloquente, cínico, maquiavélico. É bem provável que todos os anjos e santos no céu rasgassem as vestes de indignação, se Deus se atrevesse a sugerir que Francisco Sá era um bom homem. O embaraço é que tão pouco o quereria o Inferno. Ao Diabo não caíam bem as variações de humor dos seus mercenários. E este era assim. A sorrir com o prodígio de mais um coelho tirado da cartola – “Ah, Francisco, meu velho mafarrico, vais coser-te uma fatiota de patifaria e milagre. Cartas a voar do chapéu do mágico. A dama de copas, a dama de ouros, o valete, o rei de espadas. E por cima de todos, Francisco, a agitar uma roca e guizos. A rir-se da ideia que teve para jogar a soldo de um rei uma série de partidas – “Sabes, Brunita, acabei de ter uma ideia magnífica! Eu vou-te abrir uma porta de fuga do teu destino. Mas primeiro preciso que faças um último espectáculo. E este vai ser memorável! Sabes uma coisa, garota? Há muitas formas de sermos putas e a tua nem é a pior. Já pensaste nisso?” – E Bruna olha Sá com aquela expressão perdida de quem nem pensou nem percebe – “Ah, pouco importa! O que importa é que vamos arranjar maneira de meter o marido de uma certa puta maluco para te ter.”
Just as every cop is a criminal
And all the sinners saints
As heads is tails
Just call me Lucifer
'Cause I'm in need of some restraint
O mulato magriço do avental laranja pousou as duas imperiais na mesa. Luna levanta a mão em recusa à nota de Pedro – “Ah, não! Que é isso? Eu é que convidei!” – “E o teu convite soube-me muito bem…” – Luna sorri. Pedro sorri. Um silêncio curto. Depois alguém dirá alguma coisa. Algo que lance um interlúdio a trote e construa alicerces de cumplicidades. A amizade é um processo químico que a ciência não sabe explicar exactamente onde comece. Dois quase estranhos sentados à conversa, sem saber sequer muito bem do que falar. Depois tudo flui. A espontaneidade solta-se no toque, no sorriso, no olhar e nas palavras que podem ser tão simples quão complexo seja o emaranhado das coisas recíprocas. Nessa tarde, a molhar os lábios no primeiro gole da cerveja, a primeira coisa que ocorreria a Luna seria falar da Dona Clotilde, a administrativa da redacção que reincidia tarde fora nos longos arrotos e nos perdões fleumáticos que se lhe seguiriam. Pedro encarquilhava o rosto, a dispensar detalhes e a espantar-se/divertir-se da escolha do tema. A conversa prosseguiria, pela planície da tarde, a morrer em sombra do céu opaco de nuvens da Lisboa em Março. Falavam de si, das suas vidas, rotinas, passados. Dos passos que os conduziram a uma esplanada de um pátio interior no Chiado. Até que a brisa se tornou fria, escondido o Sol para lá dos telhados – “Está frio, se calhar é melhor ir. Já é tarde.” – “Sim, tens razão, Luna. Quase oito horas. Daqui a pouco é é hora do jantar. Vamos?” – Pedro e Luna arrastam as cadeiras na calçada e levantam o corpo. O rapaz hesitou por um instante e depois deixou-se levar por si mesmo – “Olha, eu é como te disse, não tenho exactamente o que quer que seja à minha espera. Se quisesses jantar comigo, eu gostava muito…” – O sorriso largo e os olhos negros da morena acenderam-se. Acenou com a cabeça na abertura de coração de um “sim”.
A Mercearia da Comida fica na Rua do Diário de Notícias, no coração do Bairro Alto. É um recanto intimista, a lamber os convivas à média luz. De decoração tosca a homenagear o comércio de uma Lisboa ida. Passa muito das onze horas da noite e a casa por hoje já quase que fechou o serviço. Restam os dois clientes da mesa do canto, a bebericar amêndoa amarga e a usufruir mais do que o sabor do licor, aquela noite de descobertas prodigiosas – “Minha madrasta, minha irmã Paula, chegaram no próprio dia do funeral. Sem elas e Sofia, nem sei… … nessa noite apanhámos a maior bezana, todas.” – Pedro sorri dividido entre surpreendido e comovido – “É tradição. Dar de beber ao morto. Você nem sabe, Pedro. Chorei, ri. Recordámos tanta coisa. Pior é depois. Ter que seguir em frente. Sem encher a cara, sem deitar no colo de ninguém, sem tomar calmantes para conseguir dormir. Tem sido muito duro…” – Pedro baixa os olhos. Não, provavelmente ele não sabe. Olha Luna e sente uma espécie de menoridade na sua dor. Mas pelo menos imagina – “Sabes uma coisa que estou a começar a concluir?” – olha a brasileira fixamente nos olhos. O seu próprio olhar a brilhar, talvez do álcool, talvez do ardor de descobertas novas. Luna não sabe – “Que há-de haver uma lógica para tudo, sim! Como tu disseste, um destino. E agora… … agora pode-nos parecer tudo como um monte de destroços. Mas, se calhar, não é! Se calhar faz todo o sentido estarmos aqui. Se calhar há coisas para descobrirmos. Não sei o quê! Mas se calhar estamos a começar ciclos novos. E olha, estamos os dois aqui… … e há muito que não me lembro de conhecer alguém que me deixasse assim boquiaberto.” – Luna ri, surpreendida – “Boquiaberto? Uai, e porquê?” – Porque começo a concluir que é tempo de mudar coisas. E cruzar-me com uma mulher tão interessante como tu. Que falas de coisas diferentes das que vivi, com… … ardor. Que se senta aqui comigo e faz o tempo voar. Não sei, Luna. Não sei porque é que o João teve que morrer, e tu que sofrer e eu que perder o que julgava que era o meu futuro. E também não sei o que é que persiste em cruzar as nossas linhas, desde aquela noite. Mas hoje estou aqui. Estamos. E sinto fé de que o futuro nos há-de guardar alguma coisa bonita.” – Uma baga de lágrima escorre pelo rosto moreno da mulher. Não é nada que fosse de esperar muito de uma ilha como Pedro. Mas estendeu o braço a amparar com a doçura de ponta de dedo o fio de choro da nova amiga. Pedro a ilha era um capítulo que se encerrava. Embora talvez ainda não soubesse disso.
daylight licked me into shape
i must have been asleep for days
and moving lips to breathe her name
i opened up my eyes
and found myself alone
alone
alone
above a raging sea
that stole the only girl i loved
and drowned her deep inside of me
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