Os milagres não viriam logo. Ou melhor, os milagres já moram quase sempre na porta ao lado. É preciso simplesmente tempo para aprendermos a abrir portas e a formular convites para que entrem nos nossos lares. Um dia, anos volvidos, Pedro ensinará a outros que a felicidade pede dois ingredientes: pequenos milagres do destino, portas que se abram; mas só isso nunca chegaria. É preciso coração ao alto, atitude, vida, coragem de entrar por essas portas e virar a página com sede de ler. A cidade é um prodígio de probabilidades. Sim, encerra mil tristezas, mil solidões. Mas em cada coração vive um sinal de esperança para outros tantos e a humanidade de cada um pode florescer conquanto se abram portas e haja coragem de as transpor – “Coragem, não chores mais, lancemos os dados e tenhamos esperança…” – mas antes que ensine, Pedro Lobo terá que aprender. Precisa da sua própria oportunidade em bambúrrio de sorte. Precisa sobretudo da coragem para agarrar o destino. E a noite daquele Sábado, a meados de Março de 2004 seria ainda de espera e sensação de fim-de-linha. Nada sucederia nesse dia, nem no Domingo que se lhe seguiu, nem sequer no dia depois, nem no dia depois desse. Arrastar os pés por mais uma semana. Caminhar sozinho a sentir-se invisível. O travo agridoce das compras para a casa, os passeios introspectivos pelo pontão à beira-mar. Seguramente que em alguns momentos da vida todos sentirão que a sorte está viciada e tem o ventre estéril de onde não se vislumbra que possa sair o que quer que seja que nos faça sorrir. Pedro chegara a um desses momentos e dava por si a pedir a Deus por algo. Mas já sabemos então que o Domingo amanheceu com as mesmas cores cinzentas e solitárias da véspera. Pedro atravessou a estrada, pisou a areia sarapintada do verde dos cactos semi-imersos no solo e foi ver o mar fronteiro ao centro da vila. Ás vezes é mesmo preciso parar. Contemplar o passado, perceber onde estamos e enchermo-nos de coragem, esperança e planos para amanhã. Coisas novas, projectos – “Diabo, é absolutamente necessário pensar em qualquer coisa!” – Mas o quê, Pedro? Ocupares-te, sim. Não ficar tanto tempo no escritório, onde às vezes vegetas mais do que aquilo que trabalhas, ao cair da noite, a ver as luzes nos edifícios de serviços apagarem-se. Saberes a vida da cidade a acender-se e sentires inveja, saudade. A ouvir os telefones dos outros tocarem, ver planos de vida em execução, locomotivas a puxar composições em que não tens lugar. Pois bem, há que ir à procura dessa vida, de pessoas, novos rumos, aventuras. Mas como? A companhia do Afonso, da Guida, do Hugo são dados viciados em que sai sempre a mesma coisa. O Eduardo estará fora quase um ano. Sim, sim, sim, quererias ligar a Sara. Morres de saudade, ainda amas, muito. Que será feito dela? Desde que aquelas últimas palavras horríveis se abateram sobre ambos, Sara saiu da tua vida e tornou-se só uma recordação, um fantasma. Reprimiste-te mil vezes para não a procurares, para não lhe ligares. E ela, onde estará? Pensará em ti na outra ponta da cidade? Terá saudades, amará ainda? Um vulto esquecido arremessa uma pedra polida de mar, a rechassar-se sobre a água em saltos nervosos. O corpo cai sentado na areia, rosto caído sobre o peito – “Na volta borrifa-se.” – Sabe-se lá… … nunca te procurou, nunca te pediu desculpa por aquelas acusações injustas. Seria mais fácil que a pudesses só detestar e depois esquecer. Mas não sentes nada disso. Desilusão, sim, a desilusão mora dentro de ti. Mas amas. Pedro arranca o corpo ao solo. Sacode areia das mãos. Agora o rapaz que voltou a ter traços sérios vincados no rosto caminha contra a brisa húmida a mordiscar o rosto e as mãos e a marulhar no cabelo. Os pés arrastam a areia. Ainda é cedo, o dia não está fabuloso e por isso a praia e a estrada trazem passageiros raros. Piar das gaivotas no céu. O cardume tresmalhado de pranchas de surf. E Pedro a cogitar planos na perplexidade tosca de quem correu o risco de pensar que nunca precisaria deles - “Um hobbie. Ginásio. Desporto. Algo assim… … sei lá, onde pudesse conhecer pessoas. Merda, sinto-me um idiota. Estou à nora!” – Pedro recorda outros pensamentos de si mesmo. Esse orgulho antigo de ser uma ilha. De não se dar nem aceitar quase nenhum. Dar tudo sim, amor, lealdade, franqueza, tempo, mas a poucos. Se quiser ser medida honesta das escolhas que fez, dirá que mais do que isso dar tudo a Sara e dela esperar tudo. Teria dado tudo? Sorri e sabe que não. As suas reflexões também o conduziram ao seu erro. O dia fatídico em que não fez o que se esperava dele. Porquê? Anda a ganhar coragem para confessar a si mesmo o móbil do crime. Quem sabe um dia o confessará a Sara. Ou não. Afinal já pouco importa, hoje. Mais tarde? Ah, mais tarde ninguém, nem eles mesmos, recordarão o quanto se amaram. Não, pouco importará… … ele falhou nesse momento. Ela falharia depois. E agora sobra a distância, um abandonado numa praia de cores aquém de Primavera, outra perdida, que parará sabe-se lá onde e como. Faz impressão, como do tudo, enfim, dessa ilusão que seja, possa sobrar tão pouco. A facilidade com que Sara tenha saído da sua vida. Mesmo nele próprio, a capacidade de ficar ali na praia e escolher ser altivez e não paixão. Mais do que isso, querer esquecer, rezar mesmo para virar a página da sua vida, quanto antes – “Terá outro?” – flagela-se a imaginar outro homem que possua o corpo de Sara. Cerra os punhos, acelera o passo e foge por uma vereda de ódio a um caminho de saudade. Mas hoje, por enquanto, tudo isso serão meros artefícios do cérebro. Há tempo para tudo. Para o que já passou, para o que virá. Seja como for há que esperar o momento para cada coisa na vida. Mas se uma ilusão de ira driblar um pouco o sentirmo-nos prostrados, porque não?
Aquele dia seria o momento de muitas indagações, algumas hipóteses, nenhuma resposta. Os dias seguintes não seremos injustos ao dizer que seriam os dias do quase nada. Até que chegou a Quinta-feira.
Muitas das vezes, as coisas nunca acontecem como desejamos; elas chegam espontâneas e sem compromissos. Resta-nos segura-las e dar o devido valor, caso contrário da outra vez será difícil de acontecer e, ficamos a bel prazer das reminiscências ocasionais.
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