terça-feira, 9 de outubro de 2012

Postal ilustrado de um Erasmus - A Guilda dos Melancólicos - Alicerces no silêncio - Parte IV

Received from  yellowledbetterlx@hotmail.com,
at 19:12:05 20-03-2004

Mano!
Só agora encontro tempo de te escrever. É que tenho que vir ao Campus para aceder à Internet e a vida é sempre a correr.
Está a ser uma experiência fabulosa, Pedro, mto mesmo. O Erasmus vive-se num ritmo diferente do resto da vida. Não é a vida real mas também não é como estar de férias. Eu acho que é qualquer coisa de meio termo sintético entre os dois conceitos. As aulas são o de menos. Aqui aprende-se sobretudo a viver. A experimentar a vida num país estrangeiro e relacionarmo-nos com um melting pot de culturas. É tudo muito intenso. Porque sabemos que tudo acabará muito em breve. Lá está, a tal coisa que assemelha os afectos que aqui se constroem aos de férias. Mas por outro lado é um ano. E um ano mexe muita coisa, constrói muita coisa.


Só fiquei duas semanas na tal residencial. Agora aluguei um apartamento com duas portuguesas e um espanhol que aqui conheci. O “Loco” como o alcunhámos, embora se chame Raul, a Beatriz e a Paula. São pessoas tão diferente de nós, pá! Mas tem sido uma caixinha de surpresas este convívio heterogéneo, pá. E surpresas boas! Até porque depois, estes são os protagonistas mas o grupo é maior. Convive-se muito, jantares de casa em casa, paródias, passeios.
 E com o tempo vais vendo um pouco para lá da máscara social de cada um e reflectindo. Há muitos motivos para estar aqui. Paródia, uma pausa, uma fuga. Há até alguns que vêm para estudar, vê lá tu! Eheheh  

O Raul é, lá está, um Loco. Não está realmente em Erasmus. É empregado de mesa no café onde paramos. Veio para cá atrás de uma paixão qualquer. A paixão foi-se e o Loco ficou a servir à mesa e a socializar com as fornadas de erasmus da cidade. É um tipo humilde, engraçado. Mas na vida aprendemos que “there’s more than meets the eye”. Tenho-me surpreendido nas minhas conversas com o Loco. Sabedoria não é só erudição e este tipo tem ideias singelas e, ok, meio destravadas, mas de uma sensibilidade tal sobre a vida que várias vezes me tem posto a pensar. No demais é o rei do djambé e isso tem sido fantástico a somar à minha guitarra nos jams que fazemos pela noite fora nas jantaradas de copos. Já disse ao pessoal que só faria cá falta o meu irmão, o Bom Jovi da Marisol. Ahahaha. A propósito, não queres tirar uns dias e vir-me cá visitar e conhecer a maltinha?

Depois temos a Beatriz. Bom, para começar ias adorar a Beatriz porque é assim um miminho. Mesmo a tua cara. Uma miúda curiosa. Olha, uma fuga. Perdeu o pai em Agosto. Acho que está cá para se esquecer um pouco da dor que deixou aí em Lisboa. Às vezes às noites ouço-a chorar no quarto. Às vezes é para as lágrimas que o álcool a leva nos fins de noite.
E finalmente a maluca da Paula. Está a acabar Economia, uma aluna brutal, volta e começa a trabalhar numa consultora qualquer. E por isso diz que vai pintar a manta o máximo que possa porque quando aí chegar vai ter que se transformar numa senhora sensaborona e workholic. E bem que se esforça! A Paula é uma maluca e mais não digo, eheheh…
Mas há pouco falava-te de máscaras. Essa tem sido a minha grande reflexão, pá. O que as pessoas são, o que transparecem, como as julgamos. Há coisas para além da folia, e da seriedade. O Loco não é só o empregado de mesa pateta, nem a Beatriz a betinha deprimida de maneiras coquetes, nem a Paula uma doidivanas. Há dias apanhei um pifo que me desgracei. Top secret, mas o teu irmão acabou nas urgências. E estes três artistas trataram de mim com um carinho que não imaginas. Quando nos interessamos há histórias sob o que cada um é. Há humanidade. É o que tenho descoberto. Há amizade, se a quisermos achar pá. E eu tenho feito amigos. Um Erasmus pode parecer só uma sequência dabólica de farras e bebedeiras. Mas eu tenho-lhe achado mais do que isso.

Também fiquei feliz ao ler-te. Da rapariga brasileira. História curiosa essa. Voltaste a estar com ela? Uma amiga nova calhava muito bem. E se for uma brasileira gira e carente melhor  ;o)

Vai dizendo coisas.
Beijão do mano,
Eduardo

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