terça-feira, 2 de outubro de 2012

Narureza morta - A Guilda dos Melancólicos - O Sangue de Sara - Parte I


Cadência seca do ritmo célere da lâmina a fustigar a madeira. Sara pica cebola sobre o balcão. Mãos nervosas, rosto inclinado, olhos marejados de lágrimas. As narinas dilatam-se, a expurgar a imensidão da tempestade que a varre. Estaca. Pousa a faca. E o choro desabrocha em pranto convulso, o rosto escondido na concha dos dedos que aconchegou à pele húmida. O peito é uma convulsão e a voz canta embargada uma nota oscilante desta dor. Depois de toda a fúria, Sara quebra. Essa vertigem hoje já não a poderá levar mais longe. Ali, a picar cebola e a destilar raiva, o cabo dos minutos foi suficiente para desvelar um pouco a noção de tudo o que sente e da catadupa de coisas por ora imprevisíveis mas certamente irreversíveis, que acabou de despoletar. Haverá que medir a vontade de dizer coisas e arremessar pedras. E Sara não tem a certeza de que o tenha feito em justiça ou convicção. É cedo demais para isso. Mas também não tem ilusões: no inferno em que caiu, a alma ardeu-lhe e não conteve os golpes. Acabou de esfaquear a sua vida. A si própria. Foi como ter a coragem e a ira que chegasse para se amputar. Pegar num cutelo e extrair do peito o próprio coração. Talvez seja por isso que, agora que quebrou, mais que não seja por este instante, Sara pressente que tem um vazio enorme exactamente onde antes o coração lhe bombeou sonhos. É desvario, alucinação. A velocidade anestesia Sara, não o suficiente para que neste momento não pressinta e não chore factos. Mas é mais por prognose vaga de dias que se seguirão. Por ora, Sara ainda tem demasiado desnorte, e sim, raiva para destilar, e sim, uma percepção frágil mas vigente de convicção de que fez o que era certo. E é por aí que enxuga as lágrimas, respira fundo toma de novo a faca e se reinicia o batuque na madeira – “Ele não podia, não podia ter feito isto.” – Pac–Pac- Pac-Pac-Pac – A lâmina foge e a cebola pálida tinge-se de sangue que brota do golpe fundo. Um grito chorado, rendido, e a rapariga aperta o dedo a querer estancar a ferida à diagonal da unha. Algumas gotas escapam do torniquete a pingar ainda a tábua. Sangue e lágrimas que pingam em bagos, a diluir-se o sabor de uns na cor escura de outros. Do céu de Sara. Cadência. A faca arremessou-se à mesa e por aí ficou mas o coração bate fundo e célere. Até que sucede a alquimia inusitada e sombria. O mundo primeiro deve ter parado. De memória deixou só um compasso cardíaco e as gotas de sangue e lágrimas em precipitação. Batida – “Tum-Tum, Tum-Tum” – demais silêncio. Primeiro só silêncio. O mundo agora roda sobre a rapariga. O sangue corre frio nas artérias. A sombra da noite avança rápido lá fora. Os dias em segundos. Luz, noite, luz noite. A batida sempre de fundo - “Filha, és tudo para mim. A mãe precisa muito de ti.” - da cama de enferma, Marília abre os braços à filha a querer um abraço. Ao lado, morto, o corpo do avô – O sangue goteja sobre a mesa. Poça diluída em lágrimas e veios de cebola. Sara primeiro na penumbra, depois iluminada por uma luz irreal, fria, azul, mais do que a dos corredores do Hospital. Sara na morgue da felicidade. A mistura de sangue e lágrimas fracciona-se. As lágrimas evaporam-se em vapor. O sangue ergue-se num fio fino e rubro que escorre para o tecto. Deitado no céu da alucinação de Sara, colado acima de si, braços abertos em cruz, um anjo. Um anjo negro. De olhos mortos e veias azuladas a dispersarem-se pelo corpo ressequido. O sangue que cai a pique de sobre a mesa rechassa-lhe na cara e fracciona-se em mil gotículas que lhe vão escorrendo sobre o corpo. As paredes cobrem-se de bolor, agora nuas. A cozinha está vazia. Quatro paredes, um tecto salpicado de vermelho. Sara prostrada a um canto, enrolada em si mesma. A ladainha chorada de um avô morto, aos pés da cama coberta por um lençol branco. Um retrato, a fotografia do mais triste dos sorrisos na parede, moldura a balançar ao som do coração da rapariga que já cá não vive – “Filha, a mãe ama-vos. Ajuda-me.” – sangue parado nas artérias de mãe, sangue que se perde nas artérias de filha. Baratas a rastejar na cave da casa vazia. O cão ladra, furioso, assustado, a fitar o vazio – “Vai-te embora, Sara. Acho que está na altura de te ires embora.” – Lágrimas – “O seu ex-namorado está do nosso lado. Do que é que estava à espera? Do que é que estava à espera? Do que é que estava à espera. Do que é que estava à espera?” – A cidade gira lá fora. Noite – dia – noite – dia. Riso escarninho - “Mas do que é que você estava realmente à espera?” - O coração bate, bate, bate. Fundo. Sara não está morta. Mas muito morre em seu redor. 


Minha garganta estranha
Quando não te vejo
Me vem um desejo doido de gritar
Minha garganta arranha
A tinta e os azulejos
Do teu quarto da cozinha da sala-de-estar

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