quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Ciclos fechados - A Guilda dos Melancólicos


Pedro ajeita o nó da gravata vermelha sobre a camisa branca. Duas pancadas suaves na porta soam atrás de si – “Entra.” – “Bruna? Pedro, o Príncipe das brasileiras! Andámo-nos a tratar bem na minha ausência…” – o irmão sorri enquanto veste o casaco escuro – “Ainda não te contei essa. É a nova administrativa do escritório.” – “Escolhida pelo tarado do Sá que a anda a comer, aposto.” – “Isso é que é o mais curioso. Fecha lá a porta, vou-te contar.” - e a voz de Pedro modera-se, para que não o ouçam no andar de baixo.

Os dois amigos deleitam os olhos na vista de mil luzes até onde o olhar alcança, no rio, no negro opaco daquela noite prazenteira de final de ano. A sala panorâmica do Sheraton é um dos miradouros previlegiados para amar esta cidade. E por isso Álvaro Lobo e Francisco Sá gostam de contemplar a paisagem, enquanto provam a frescura do segundo Martini daquele jantar de Reveillon – “Olha, pedi ao teu miúdo que convidasse a Bruna para a Passagem-de-Ano com os amigos dele.” – Álvaro levanta o sobrolho – “Será isto tudo prudente, Sá?” – “Que diabo, não me pediste que ajudasse a pequena?” – “Mas que lhe desses emprego lá na sociedade e peças agora ao Pedro que a leve a sair não era bem a minha ideia, Xico!” – “Ah, tu nunca tiveste sentido de humor, meu velho!” – Sá ri-se – “Não te preocupes, Álvaro. A rapariga quer esquecer, não recordar. O passado vai ficar enterrado, como deve ficar. E depois… … é uma míuda, Álvaro! Fica melhor com um miúdo decente como o Pedro. Que lhe pode apresentar pessoas, que a tratará com decência. Talvez isso, mais do que o salário que lhe pago, lhe salve o que lhe reste da alma. Já chega de trastes como nós… … e para ele, olha, também é bom. Cresce-se nas relações. Muitas relações, muita coisa diferente. Viver! O puto precisa de viver!” – “O que é que lhe contaste?” – “A verdade toda. À excepção do que mandou a sensatez que calasse. O Pedro não é parvo! Sabe o que a casa gasta comigo. Sabia que a Bruna tinha que trazer água no bico. Olha, contei-lhe a verdade! E deu-se o milagre: o Filipe ganhou vida! Han, não ficas contente? O teu alter-ego vive para além de ti e é meu amigo de copos!” – gargalhada para Francisco, meio sorriso para Álvaro – “E como é que ele reagiu?” – “Ao seu estilo. Perguntou-me se ser ama-seca de brasileiras lhe valeria um aumento. E depois, claro, disse que sim, que daria uma mão à rapariga. O teu puto é bem decente, meu velho...” - “E tu também não és tão mau como isso. Este ano fizeste algumas coisas boas, já pensaste nisso, velho mafarrico?” – “Estou a ficar mole, meu velho, é o que é… … mas olha! E quando é que vamos às gajas?” – “Põe-te quieto, meu sacana, vá, sorri e muda de assunto, vem aí a Sofia.” - “Vá, brindemos!”


Please allow me to introduce myself
I'm a man of wealth and taste
I've been around for a long, long year
Stole many a man's soul and faith

And I was 'round when Jesus Christ
Had his moment of doubt and pain
Made damn sure that Pilate
Washed his hands and sealed his fate

Pleased to meet you
Hope you guess my name
But what's puzzling you
Is the nature of my game


“Pousas-me esta travessa na sala?” – “Claro, Pedro, me dá.” – Eduardo deslumbra-se no rabo empinado da brasileira e abana a cabeça com estupefacção de uma teatralidade em overacting. O irmão ri e abre-lhe os olhos em aviso – “E quem vem mais?” – “Vem o Hugo, o Afonso e a Guida, a Luna e o César, mas esses vêm um bocadinho mais tarde. E as tuas amigas?” – “Devem estar a chegar.” – “E que tal são?” – “Epá, vais gostar delas. A Beatriz e a Paula são umas curtidas. E vais babar-te com a Beatriz, é muito o teu estilo.” – “Bruna, queres ajuda?” – Pedro acorre a colocar uma base de cortiça que ampare a terrina quente que Bruna carrega. 

O ano de 2004 caminha as suas últimas horas. E na casa nova de uma vida nova de Pedro reunir-se-ão vidas cruzadas de afectos antigos, novos e por desvendar. Há alquimias que se adivinham quando as almas se cruzam. Mesmo se por vezes são juízos precipitados e outras deduções elementares. E há prodigíos que nos surpreendem, cavando-se no peito contra todas as probabilidades do que a vida parece ser. Na casa do Bairro dos Pescadores da Caparica, dir-se-ia, tudo se cruza. Daqui a pouco, Pedro abraçará a sua Luna e trocará um aperto de mãos francas com um rapaz chamado César. Provavelmente demorará a chegar o dia, ou talvez nunca chegue, em que ambos percebam que descendem em linha directa de uma outra amizade, que dois homens forjaram numa guerra distante e esquecida. Depois chegarão Paula e Beatriz, o grande Afonso e a sua Guida, Hugo. Virão as doze badaladas e a euforia de espumante a espirrar em redor. E as lágrimas de Bruna, surpreendida com um bolo sobre o qual ardam vinte e uma velas. Música, dança, pinotes. E pela noite fora os convivas rirão e conversarão. E quando as trevas se aclararem na aurora redentora de mais um ano, pairará aquela sensação do milagre inexplicável de que já não se sentem estranhos, se o eram. De que talvez se tenham conhecido todos ao longo de mil vidas, para se perderem e reencontrarem ao longo da estrada. 
Mas por agora o relógio ainda nem bate as dez da noite. É cedo, nem todos chegaram. Pedro ainda não sabe aquilo que nunca saberá completamente mas que tem a vida toda para ir descobrindo. No silêncio das suas horas introspectivas, nos olhos dos seus mais queridos amigos, nas peripécias de tantas existências cruzadas pela cidade em que é só mais uma luz. 

“Estás aí fora… … não tens frio?” – “Estou vendo a Lua, Pedro. Olhe só como está bonita!” – “Vocês brasileiras devem ter alguma coisa com a Lua. Mas, olha, estás bem?” – Bruna vira-se finalmente para um Pedro a assomar pela porta entreaberta para o pátio. Sorriso bonito – “Estou sim, Pedro. Olhe. Obrigado por tudo, viu?” – Pedro pisca-lhe um olho, sorri e volta para dentro. E Bruna fica ali, com um sorriso bonito, e uma lágrima prateada pelo luar a correr-lhe o rosto bronzeado. A morena dera de novo um jeito. Bruna já não se sente puta. 

“É uma rosa bonita.” – “É uma rosa vermelha.” – “É o que penso?” – “É que estou te abrindo meu coração.” – As bocas traficam um beijo – “E agora, vamos já para casa do teu amigo?” – “Depois. Primeiro quero-te levar a um sítio. Há algo que quero fazer antes.” – “O quê?” – “Verás.”
Naquele momento fechei os olhos e uma estrela secreta lá no céu brilhou mais intensa, a casar as cores com a centelha que me ardia no peito. A jornada encerrava-se. Para mim. À minha partida sobreviriam risos e lágrimas e vida e morte. Não é preciso ser anjo para saber que assim é. Há que saber chegar, há que saber partir, há que saber viver.
Luna e César caminham pela calçada, mãos enlaçadas. Irão à cidade antiga da Sé para que a morena cumpra um voto e presenteie Santo António com uma rosa vermelha que separará do cabelo negro. Uma oferenda de vermelho de gratidão ao Santo por amores findos e pelo milagre de um coração regenerado a amar de novo. Beijar-se-ão. Um beijo de amor. E talvez esse amor não seja eterno porque o amor é vida e a vida é efémera. Ah, Luna, mas na última noite deste ano e por muitos dias que se lhe sigam o sabor dos teus beijos terá o travo doce de amar.

Nada de que um Anjo ido chegasse a saber. Eu já voo de regresso ao meu Céu, em que Deus se comove com histórias de Amor. E nunca olho para trás. A minha crónica terminou ali e na minha retina prolonga-se artificialmente esse último momento, pela eternidade, como se perene fosse. A eternidade de um abraço. De um caixão que desce à terra. De um grito. De uma caminhada. A eternidade do Tudo. A eternidade do Nada.


That I would be good even if I did nothing
That I would be good even if I got the thumbs down
That I would be good if I got and stayed sick
That I would be good even if I gained ten pounds

That I would be fine even even if I went bankrupt
That I would be good if I lost my hair and my youth
That I would be great if I was no longer queen
That I would be grand if I was not all knowing

That I would be loved even when I numb myself
That I would be good even when I am overwhelmed
That I would be loved even when I was fuming
That I would be good even if I was clingy

That I would be good even if I lost sanity
That I would be good
Whether with or without you

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