domingo, 7 de outubro de 2012

Perder Coisas - A Guilda dos Melancólicos



“A aliança? Mas não querem ver que perdi a merda da aliança?”

A perda é o ocaso do construtor que mora em cada homem. Nunca estão realmente à espera dela nem prontos para ela. Acordam para cada dia a indagarem-se que pedaço do mundo poderão conquistar nas horas que se seguem. Talvez se apaixonem, talvez subam um degrau na carreira, talvez comprem um par de sapatos. Mas há dias para ganhar e há dias para perder. A hora da caça e a hora do caçador. Mais tarde ou mais cedo a vida rouba coisas. Insignificâncias ao espólio, jóias da coroa, tudo… … até que no fim a vida vos rouba a vós próprios, e se essa tiver valido de alguma coisa ser-se-à perda no pranto de outros. Nascer viver, ganhar, perder, e novo perder e mais uma vez ganhar. Morrer por fim. Nunca se sabe exactamente quando. Saber que se vive todos os dias e saber que um dia a morte vos arrebatará. Depois de ter sabido o que é ter e o que é não ter. Quase sempre. Ou sempre, de alguma forma que seja. Mas quando, Deus, quando? Uma aliança cai em câmara lenta do céu a rodopiar num bailado sonhado. Até aterrar na palma da mão de uma prostituta para forjar uma simbologia de ironias, será uma estrela, só mais uma estrela, no céu de Lisboa. Aquele que se abate sobre os telhados da Baixa Pombalina. Os olhos de um anjo perscrutam-no na sua imensidão. E à cidade, que já se amansou do rebuliço agora que é noite e que se acende em pirilampos a trepar as colinas. Sobre o arco da Rua Augusta, a virar as costas à Glória, ao Génio e ao Valor, mantém-se de pé, sombra invisível a crescer pela rua deserta que flui debaixo de si. O rosto caído com os olhos na calçada lá em baixo onde agora ecoam passos solitários. Só Pedro caminha nesta artéria que desagua no caminho para a madrugada. A desafiar o vento húmido que lhe revolve o cabelo, a apertar o sobretudo o tanto que pode a resguardo da pele. Vai por entre montras acesas que apregoam amores em mil corações à venda do São Valentim que termina. Mas o coração da cidade, esse jaz quase morto na noite. Pedro caminha, com a pedra simétrica dos edifícios a perder-se atrás de si. Numa perpendicular estaca o passo. Um táxi corta a cena veloz a traçar a Rua da Conceição, depois a trepar a Calçada Nova de São Francisco. Pausa, olhos desfocados em vermelho de semáforo. E Pedro de novo caminha. Indiferente aos corpos indigentes e ao cartão que constrói castelos e misérias na calçada, sob o olhar de um anjo vigilante que se granula em desfoque negro atrás de si. Autómato vira à esquerda, pela Rua da Assunção, a estacar na figura de ferro do elevador de Santa Justa. É para lá que caminha Pedro.

Observa a amante viva, rendida ao sono, corpo engelhado em má posição, embrulhado à manta. Já nem sonha consigo, nesse instante fugaz de portal entreaberto em que a João é permitido dizer coisas a Luna, para lá da morte. E por isso está ali desamparado onde já não pertence, perdido na estação desta vida que teve, inconformado e sem conseguir seguir viagem. Como o fazer? Não, não pode aceitar! Ama a vida, ama Luna. Queria-lhe dizer isso. Queria que o visse. Que parasse de chorar! – “Deus, amor! Para de chorar. Basta que chore eu aqui perdido sem que ninguém me veja! E ninguém faz nada! Foda-se! Ninguém vê que a minha mulher definha? Como posso eu partir? Ah, nada disto está certo! Morrer porquê? Caralho, Deus! Morrer porquê!? Ficam felizes? A vida não ganhou nada em que me matassem. Eu estou aqui preso. O meu amor definha. Se eu amei, se ela amou, porque é que foi assim? E como ir? Como seguir aquela figura que me estendeu a mão?” – No chão ensanguentado uma Luna de olhos que correm lágrimas e a mergulhar em horror ampara o cadáver morto. - “ Dá-me a mão. Vem comigo…” – uma mão que se estende à de Luna. E João, ali de pé, atónito. A olhar o seu corpo. Parece uma criança perdida. Olha-se a si mesmo e aquela figura que agora vê. O único que o vê a si. De estrelas polares na íris e uma centelha de azul quente que lhe brilha no peito. – “Vem comigo…” – Mas ele ainda não pode estender a mão ao seu Guia. Meneia a cabeça, que não, tão assustado quão convicto. – “Não, não posso…” –  “Vem. Terás paz.” – “Não, eu preciso de entender porquê!” -  “Entenderás.” – “Não vou. Não consigo…” - O anjo não lhe disse mais nada. Já sabia que assim seria. Talvez Deus se valha de diferentes estirpes de Anjos para cada missão. Anjos da Guarda, Anjos Guias. E que desígnio terá este anjo de estrelas nos olhos e centelha no peito? Talvez seja um Guardião das causas complexas, pontas mal atadas e partidas adiadas. Quem sabe? Sim, provavelmente seria isso. Assim se explicaria que o ser cerrasse os olhos e meneasse o rosto em assentimento para depois desaparecer. Ainda ambos tinham coisas a fazer. Mais não houvesse, aceitar.

Pedro passa o dedo pelo esqueleto férreo da estrutura. Olha em volta a recordar – “Dá-me um beijo!” – “Queres um beijo… hmmm… então fecha os olhos.” – e mais de dez anos depois Pedro fecha de novo os olhos a sonhar com o sabor daqueles lábios – “Qual é a tua onda?” – “A minha onda?” – “Sim, estamos aqui a curtir e depois?” – “E depois… … então, e depois curto de ti!” – Sara franze o lábio – “Hmmm, tens é muita lábia…” – “E tu és peculiar.” – “Peculiar?” – “Sim, peculiar.” – “E isso é o quê, oh rapazinho bem falante?” – Pedro cinge a rapariga pela cintura. As pálpebras apagam os olhos de avelã – “A minha onda é querer ser o teu namorado, sardenta.” – Pedro beija. Pedro chora. Com os dedos a velar meio rosto e as lágrimas a lavarem a tez. É meia-noite. Acabou o dia dos namorados. Porque é que cá vieste hoje, Pedro? Do lado oposto da estrada, um anjo fita-o, enquanto perca Pedro os olhos em redor, a coleccionar uma última memória, a rever memórias velhas de dias de Sol e paixão. No fim de uma tarde primaveril do ano de 1993, sob a sombra do Elevador de Santa Justa, Pedro pediria a Sara que fosse sua namorada. E hoje, à meia-noite, não se despede só São Valentim. Despede-se Pedro de um amor que deita a perder. Nunca confessaria a ninguém que veio cá numa esperança absurdamente mágica de que Sara o esperasse. Mas não, a Baixa hoje não se reparte. É toda só de Pedro para que recorde, diga adeus, e tome fôlego para seguir em frente.

“You’re beautiful… … so silently... ... your skin beneath a shade of blue... ... it struck me so violently… … when I looked at you…” – A voz doce corta o silêncio da noite. A ecoar em eco tímido nos quatro cantos de pedra da praça. Ana perscruta o mar. E canta a sua música no ritmo dolente e triste que Deus inventou para aquela noite fria e bela, só dela, ali na beleza inóspita de São Pedro Moel. É tristeza, é desafio, é abandono – “But others pass they never pause, to see the magic in your hand…” – Ana pensa, a consolar a pele cicatrizada onde antes tivera uma sobrancelha com uma carícia – “To me you’re like a wild rose… … they never understand why…” – O mar vai ali estar para falar com Ana. É certo que não lhe dirá nada. Mas está ali. A bater na rocha, em coroas de espuma que luzem vagamente na tez das águas negras da noite. Ana sob os candeeiros da praça junto à praia, a querer saber se ainda é bela ou se amará de novo. E dos lábios desprende-se a balada entoada em alma triste que é bom pensar que os ventos tenham levado a bem longe dali. – “I cried for you, when the sky cried for you… … and when you went, I became a hopless drifter…” – Ah, as horas desta noite vão escorrer tão lentas! O que fazemos quando perdemos coisas? Alguns resignam-se, outros revoltam-se. Teremos sabido usufruir o que tivemos? Seria diferente se soubéssemos que seria assim, que não seria para sempre? O que é que faríamos se só nos restasse um dia, se o mundo fosse acabar o que é que você faria? Meu amor… ? … Pedro que gosta de símbolos na sua vida peregrinou ao início do amor para se despedir e se iludir que lhe poderia dar um fim de sacramento e passo de mágica. E Ana que gosta de sinais sente que parou o tempo e que espera esse sinal que lhe diga por onde seguir agora. E depois? E depois é amanhã e a vida permanece em si, com o vazio das coisas que perdemos tatuadas na pele. A vida segue pela estrada, embora por vezes dê voltas. Como o carrossel da caixa de música que nessa noite Sara segurou na palma da mão, a desfocar o olhar nos pequenos cavalos dourados em rodopio. Voltar atrás, lá longe. Quem dera… - “But this life was not for you, though I learned from you… … that beauty need only be a whisper…” – Fará sentido voltar aos lugares e aos momentos em que fomos felizes? Ou passar os dedos pelas cicatrizes que trazemos no rosto, mesmo sabendo que lá estão e que o nosso sorriso já não é o mesmo? Sim, saímos de casa em cada dia na expectativa de achar coisas. Mas de certa forma a vida é sempre a perder. O fantasma de João caminha invisível ao longo das portas exteriores da Gare de Stª. Apolónia. Se fosse corpóreo tropeçaria nos corpos indigentes do exército de sem abrigo que plantam o chão de perda e perda e perda. Tanta que talvez alguns pudessem ver e entender João, que caminha ao acaso a tentar encontrar explicações para a sua morte tão estúpida naquele recanto desolado da cidade – “Porquê? Porquê? Deus, porquê?!” – A memória de João morto abre-se ao que a sua alma soube sempre mas esquecera. Clarões. Disparos. João rodopia sobre si e olha em redor. Mas permanece o relento e a miséria daquele Inverno de perdidos. Donde vêm então as visões? – “O que é isto?” – Uma G3 abre fogo em rajada. E entre os rostos daqueles que João mata, vê morrer os olhos de Luna. O mundo gira. Veloz. Ou só João gira, não sabe. Olha as suas próprias mãos, atónito. Agora lembra-se. De dar a morrer Luna. De morrer ele. Mais uma vez. E tudo porquê? Nunca quis realmente nenhum dos caminhos que o levaram aqueles dias. E no entanto não os evitou. Hoje recorda. Começa a recordar. Mais tarde entenderá. E então poderá aceitar a perda. Mais tarde…

O vento sopra e sussura uma voz distante, uma voz doce e triste que se mistura com o mar e com o vento – I’ll cross the sea for a different world… … with your heart for me… … a treasure… … for me to hold” – Bruna sobe a Duque de Loulé a matraquear os saltos altos de prostituta brasileira na calçada portuguesa. Vai vender o corpo de raiva. Desse amor pouco que não é nada, mas o melhor do nada que Bruna tem. Coisas perdidas. Uma aliança perdida em cambalhota mordaz para o dedo da puta. Casada de cama com todos os homens casados, mulher de nenhum. Impossível perder, nada a ganhar. Só uma aliança perdida. Pedro caminha a bordar a calçada ribeirinha com o seu passo. Estende o olhar na outra margem e sorri. – “Não… … pouco importa, seremos doces, não cínicos, juro” – E a noite deve ter tecido os seus tempos até que se liquefez em aurora, com os dedos de Pedro a esmagar as cordas na madeira da guitarra, no sussurro de uma balada que a sua alma inconsciente encontrou perdida no vento.


In many years they may forget
This love of hours or that we met
They will not know how much you meant to me

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