quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Pedro entra na rede - A Guilda dos Melancólicos - O Mar das Mensagens - Parte I


Um puzzle de rostos. Foi essa a primeira sensação que teve. Orkut, Meets the Eye, Hi Five – “Há mais mas estes são os mais usados” – assim prescrevia o email de Luna. E Pedro escolheria uma plantaforma ao acaso e mergulharia na rede. Pela noite dentro. Surpreendido por estar surpreendido.

Domingo, 20 de Junho de 2004

Périplos pela teia

Se calhar não vos digo nada de novo. Mas para mim hoje foi uma novidade. Estou numa fase de novidades. Perder pelos vistos tem dessas coisas: lança-nos no encalço de coisas que possamos ganhar. Mas divago. Dizia: hoje tive uma novidade; pela primeira vez registei-me num desses sites sociais de que tinha ouvido falar mas de que desconfiava com quase ferocidade. A minha Luna, esse pé-de-cabra a forçar portas emperradas do meu espírito, insistia “É giro!”. E eu fui. “Meets the eye, vamos ver o que esconde isto afinal, pensei.”. E digo-vos, encontrei mais do que esperava e tive sensações paradoxais. A primeira foi a heterogeneidade da coisa. Riam-se para aí, mas pensava cá para comigo que iria entrar num cluster de neards, solitários, enfim, na tribo dos estranhos com um travo a fracasso. Pois, não…         … parece que o mundo tal e qual como eu o conheço projectou a sua imagem numa espécie de um espelho virtual. Já lá todos existiam menos eu, pelos vistos. O que cada vez menos me espanta. Andei a viver numa dimensão quase privada e meio autista, conclusões provisórias de lutos encetados. Mas divago de novo. Hoje o assunto é a Torre de Babel da sociedade virtual. A primeira impressão foi a heterogeneidade. Fui a navegar de rosto em rosto, meio ao caso e percebi que como na vida real, as páginas expressam o colorido da condição humana. Gente bonita, gente feia, gente assim-assim. Os populares, os rebeldes, os exóticos, os solitários, os eufóricos, os depressivos. Os que são isto, os que são aquilo. Os que queriam ser outra coisa. Sei lá! E aqui começou a verdadeira e rica substância do meu pasmo. E confesso-vos uma certa euforia de ver algo em que nunca tinha pensado. Portas abertas! Fui, já o disse várias vezes, sempre um gajo de mundos pequenos. E não sei se é desta minha particularidade ou se é limitação que no fundo nos tange todos, a verdade é que a minha percepção do “outro” é curta. Relações limitadas e portas apenas entre-abertas para ver dentro dos outros. E foi curiosíssimo visitar um pouco de tanta gente, ler perfis, ver fotos, pedaços de vida. Não, não sou tão ingénuo. E portanto não confundirei o que me mostram com absoluta genuinidade, muito menos com o todo. Mas é um pedaço. E mesmo que seja mentira, ah! Se é a mentira que escolhes contar-me - No fundo contar a ambos, a mim e a ti - então, de alguma forma arrevezada, és genuíno, na mentira que quererias ser. E cativas-me a atenção e metes-me a pensar e a formular “porquês”…        …voyeurismo? Talvez seja apenas isso. A sensação é prematura. Por ora prefiro pensar que não, que não é só isso. É querer entender coisas. Vi banalidade, etéreo. Vi, convenhamos, idiotas chapados. Vi coisas bonitas. Vidas que têm coisas, coisas que confesso que invejei um pouco e me deixaram sedes e nostalgias. E vi solidão. Bolas, vi muita solidão. Solidões grandes que nem sei o que sejam. Solidões pequenas como a minha. Braços a esticarem-se ansiosos. Esperanças vagas de outros que cheguem. Não sei se me consolou ou afligiu. Mas percebi que há muitas ilhas e muitos náufragos.

Posted by Pedro 


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