A chave esgravatou a fechadura da porta rústica e quando esta se abriu a luz de prata suja desse dia derramou-se a prescrutar a escuridão da sala térrea. Entrar, abrir as portadas de madeira de par em par. E essa luz de Inverno impregna-se na baunilha das paredes e na madeira quente do soalho. Pedro para por um instante, a olhar em redor. Lábios encarquilhados, em dúvida de quem se quer situar. Mas há que espantar a letargia de mais um momento de divagações nos seus meandros interiores. Hoje decidiu que arregaçará as mangas e começará a fazer coisas. Sai de novo para o quintal, franqueia o portão de ferro forjado negro e abre o porta-bagagens do Opel Tigra. Duas caixas de cartão. Uma transborda livros, outra CD's. Empilha-as e segue trapalhão, a fazer pontaria ao caminho, pés indecisos, olhos a querer espreitar o chão por cima dos volumes que lhe tapam para cima do queixo. A encomenda estatela-se impaciente no chão da sala. Coça a barba que lhe metaliza a cara e confere as horas no relógio - “Onze horas…” - Não tarda chegará o camião dos móveis e da parte da tarde chega o camião da Box. Pelo meio irá a casa dos pais. Pedro faz contas ao tempo e pensa que sim, ainda tem tempo para ir a correr ao super-mercado. De repente também se sente um pouco melhor. A mãe tinha razão, é muito provavelmente de algo assim que a sua vida precisa neste momento. Um élan, uma manobra de diversão para a sua tristeza. Na ressaca de perder Sara, a Pedro parecia de repente que o seu mundo se esvaziara. Primeiro sentira-se atordoado mas depois, há medida que os dias passavam, esse vazio tornava-se rotina e muito parecia que vinha para ficar. Para Pedro não havia nenhum termo de comparação, porque toda esta tristeza e solidão eram completamente novas para si. E o pior, sim, o pior era a solidão. O seu mundo, como desde há muito o vivera e dera por garantido parecia que de repente tinha partido em bloco, deixando-o à deriva. Na cidade permanecia a vida. Mas à cidade de Pedro só restava Pedro. Bate a porta que confiará só ao trinco, confere as chaves e a carteira nos bolsos do casaco de pele sobre a sweat-shirt e sai para a calçada do bairro. É curioso como ir comprar detergentes, balde e esfregona pode ser um plano emocionante. Quando vimos dos recônditos perigosos da apatia, conseguirmos formular planos, banais que sejam, é como deixar entrar ar fresco no espírito. Mesmo se talvez ainda não saiba exactamente explicar isto, enquanto caminha e se sente um tostão mais contente. Pedro é aprendiz de feiticeiro e só principia a dar os primeiros passos. Há que aprender a ter ânimo, a amar a vida e perceber as suas lições. Ah, Pedro, há tanto para aprender! Sobretudo há que aprender a ser feliz. Caminha o mortal e caminha o anjo ao seu lado. A centelha no peito de um, numa tonalidade nova de azul, talvez como o mar que bate ali perto, talvez da cor da jovialidade que desponta discreta no coração do outro. Sentado, um cão de meio focinho malhado cumprimenta ambos com esse olhar de súplica e vénia dos cães vadios. O rapaz estaca, desce de cócoras e acaricia aquele focinho meigo - “Olá! Sou o Pedro, e tu como te chamas? Hmmm... … não queres dizer? Talvez tenhamos que te arranjar um nome. Até mais ver, vizinho!” - Baldes, esfregona, detergentes, panos, esponjas, papel-higiénico, guardanapos, rolo-de-cozinha. Tenta recordar o sermão da mãe acerca do assunto. E a correr os olhos nos corredores do super-mercado de bairro, Pedro diverte-se naquela nova auto-imagem de si próprio que de repente lhe ocorre - “Isto vai ser giro, coragem miúdo.” - A felicidade também pede coragem, paciência, humildade. E sim, a felicidade aprende-se. Quando sempre a tivemos talvez não possamos ser felizes, talvez estejamos apenas felizes. Um sentimento bom mas sem contraponto, sem valor percepcionado pelos antípodas do infortúnio. Uma espécie de benção de sortes mimadas, que estimamos mais por acaso do que pela consciência solene da raridade do ser feliz. E Pedro vem dessas latitudes das felicidades por herança, até que agora se estatelou no azar de perder. E sim, pode parecer aos leigos que é idiota que baldes esfregonas e detergentes num super-mercado de esquina possam alguma coisa nestas maleitas de tristeza. Mas Pedro é iniciado de magia e é tempo para que comece a aprender que assim é. A magia da alma é uma poção que pouco tem de óbvio, que se mescla em ingredientes inusitados e labirínticos que não têm uma resposta certa, mas creiam que tem muitas respostas erradas. Um dia, hoje ainda não, Pedro perceberá que todo o caminho tem que ser refeito. Que a jornada não se faz na arrogância de uma estrada perfeita, de arquitecturas absolutas e intransigentes. A sabedoria desnorteia-se em mil nós, indaga-se, responde humilde e no fim desagua dentro de nós próprios, a espraiar-se nos nossos braços abertos e a fecundar as entranhas dos nossos afectos.
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