“Está-me olhando com uns olhos, credo… …isso é tudo azia da Grécia?” – Pedro ri – “Reparava. Continuas a temer o vermelho.” – “Ainda não, Pedro.” – “Para quando?” – “Para quando a dor passar, querido.” – Pedro mergulha a hortelã nos copos e dá por pronto o Mojito. Estende um copo à amiga. Brindam – “Sabes, o tempo vai passando. Há um tempo para sofrer e um tempo para deixar ir…” – “Eu sei… … e já passaram seis meses…” – “Por isso mesmo, Luna, é tempo de mudar coisas!” – O rosto da amiga contrai-se, os olhos baixam ao chão – “Isso ainda não, Pedro.” – “Posso perguntar porquê. É luto?” – “É. Do meu jeito. Olha… … tu sabes, pá. Eu sigo em frente, eu quero viver. E tu vês, eu não uso preto. Mas o vermelho… … ah, sei lá! É sangue, é paixão, Pedro… … o sangue do João ainda não secou em mim. Sabe, acho que nunca disse para ti, eu guardo o fio que tirei dele naquela noite. Ainda está ali, na mesa ao lado da cama. Não limpei o sangue. Não consigo. É ainda tempo de João e ainda não é tempo de paixão. Tu me entendes?” – Pedro sorve o copo e olha-a de debaixo para cima – “Que foi?” – “Hmmm… …posso-te pedir duas coisas…?” – “Pode, claro…” – O amigo sorri – “Um abraço e depois que me ouças um pouco. Justo?” – Abraçam-se, um gesto de ternura e a inexplicabilidade da partilha no cingir dos corpos. Luna graceja – “Pronto, pronto, o menino ficou carente, mas deixa lá, da próxima vocês ganham. Ou então podes sempre torcer pelo Brasil!” – “Vai-te foder, Luna, sim?” - sussura-lhe ao ouvido. E depois sentar-se-ão no sofá, para que Pedro partilhe a ideia que acabou de ter.
O Verão de 2004 foi pródigo para Lisboa. Nessa tarde iniciara-se em Portugal o Campeonato da Europa de futebol, mas já há dias que a cidade e o país ferviam com o folclore do acontecimento. Lisboa é sempre uma urbe animada em Junho. Com o calor a trazer as gentes à rua, a passear junto ao rio, apinhar as esplanadas pelos bairros, petiscar caracóis, moelas, amêijoas e os sabores do Estio em geral. E cerveja, claro, ao calor do meio-dia, ao morrer da tarde e pela noite dentro nos bares e clubes. Há concertos e bailaricos e mercados improvisados por todo o lado, feiras do livro, do artesanato e disto e daquilo, a pontuar a agenda do calor dos dias longos e das noites agradáveis. Uma orquestra em crescente de sensações e alegrias, a libertar-se na catarse da noite maior de Santo António. Mas esse Verão seria especial, preenchido com o colorido das bandeiras visitantes do torneio. A festa estava apenas a começar e vivia-se uma certa euforia. O verde rubro das cores portuguesas desfraldava-se em todas as janelas, por toda e qualquer artéria. O país pequeno de gentes de saudade e vaga melancolia esquecia por uns dias as misérias do costume da pátria e decretava o Carnaval de uma esperança vaga de um ego colectivo a medir forças num campo de futebol. Mas nesse fim de tarde Portugal tinha perdido para a Grécia o jogo inaugural, a lançar um esgar menos radiante ao ânimo dos alfacinhas para mais um Santo António. Quando o grego Karagounis marcou o único golo da partida, o Verão português desceu certamente um par de graus no termómetro. No pequeno apartamento da Graça, Pedro escondia a cara no cachecol vermelho e verde e até Luna soltaria um “Fodeu…” decepcionado. Mas o Santo António seria sempre Santo António mesmo que o Figo e o Rui Costa não fizessem milagres. E por isso nessa noite a cidade encher-se-ia novamente com o rebuliço da festa a inundar os bairros antigos. Pedro e Luna, esses desceriam da Graça a Alfama, para depois inverter pela escalada íngreme do Castelo. A beber imperiais e comer sardinhas. Luna com a velha Nikon. Recordou com uma saudade adocicada o seu primeiro Santo António, anos volvidos. E as fotos que tirara com aquela mesma máquina. Tanto sucedera deste então. Lisboa que a adoptara, depois João. E agora estava ali, com Pedro a fazer pantominas para a foto, a beijar o copo meio de cerveja, a torcer os olhos em careta imbecil – “Vá, só mais uma, com esta foto vais ficar famosa, ganhar o World Press Photo!” – Luna sorri, aponta a objectiva, pisca o olho em mira e a máquina dispara três vezes – “Vá, já chega. Vamos buscar mais outra?”
“O que é que sentes?” – encosta o corpo contra a parede de pedra, expira fumo de cigarro, dá o primeiro trago na imperial – “Muita coisa, às vezes muita saudade, outras dor, outras solidão. Mas vai passar…” – “Sabes o que te digo, miúda. Temos que começar a pensar em conhecer pessoas novas.” – “E sentes-te pronto?” – Pedro franze o lábio – “Sim, e não… … parece que isso frisaria a minha perda. Parte de mim sente que é a Sara e só a Sara que eu ainda quero. Mas outra parte sente sede de descobrir o resto da minha vida por viver. E depois tenho medo de que nunca mais haja nada tão bom e encolho-me de novo.” – “É. É isso que eu sinto, também. Mas sabes, esse medo de continuar a viver não vai ser bom para nós, não…” – “Pois não! É nisso que tenho reflectido.Acho que precisamos de seguir mesmo em frente. Sei lá, fazer coisas, viajar, conhecer pessoas, ocuparmo-nos! Mudar, Luna, mudar! Por falar nisso, vais mesmo fazer o que te pedi?” – “Vou, sim, querido. Te juro. Olha, e sabe do que Margarida me falou?” – Luna abre o sorriso – “Do quê?” – “Da net.” – “Da net?!” – “É, pá! E então, ela me perguntou porque não registo um perfil. Vai ver, era uma boa!” – “Oh Luna, mas quê? Conhecer gente na net?” – esgar de estranheza – “Uai, sim! Tem aí um monte de sites. Eu já estive a ver. É bacana, pá! Tens que ver, eu te dou os endereços.” – “Pá, oh Luna, mas que raio de povo anda nessas coisas?” – “Pedro, toda a gente! É o hype do momento de todo o solteiro, pode crer!” – o amigo ainda franze o canto do lábio – “Então, mas as pessoas fazem o quê? Chat, marcam encontros?” – “Epá, a gente depois vai lá explorar isso melhor para tu veres.” – “O.K., fico curioso, mas pouco convencido. Soa-me tudo muito… … ridículo…” – “Tu és um chato, é o que é. Olha, mas agora deixa eu confessar uma coisa para ti?” – “Chuta…” – “É meio trash…” – “Vá, choca-me lá…” – “Olha, meu coração está fechado mas meu corpo está reclamando.” – Pedro ri-se – “É sério, cara, estou louca para trepar!” – Pedro mais do que rir, inclina a cabeça numa sonora gargalhada. Abana a cabeça – “Que foi, pá? E tu por acaso é de pau? Sou mulher, tenho necessidades, uai!” – Pedro abraçou-a. Era para ser só mais um abraço de só amigo. Mas talvez tenha sido da conta perdida das cervejas, da noite, da solidão de cada um, do impulso erótico de uma confissão sexual, não se sabe bem. Mas o que é certo é que os lábios da brasileira se colaram nos lábios do amigo português. A noite seria festa do santo como a tarde fora festa dos gregos. Mas para dois inquilinos da cidade ainda não era tempo de euforia ou paixão. Apenas de colar os corpos e confiar as feridas aos cuidados intensivos do outro.
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