No dia seguinte Pedro e Luna não acordaram demasiado tarde. Pouco passaria das dez horas. Pedro a coçar o cabelo, desgrenhado numa espécie de susto – “Tenho que ir.” – Luna ficaria divertida a ver o ar algo comprometido com que procurava peças de roupa perdidas pelo quarto. Sentou o corpo contra o espaldar da cama, puxou o lençol a cobrir o peito e sorriu – “Oi!” – “Sim?” – “Eu te adoro, viu? Gostei muito. Mas relaxa, vai? Não mudou nada…” – Pedro sorri envergonhado a abotoar a camisa – “Agora lês mentes?” – “A tua eu acho que leio, sim.” – O rapaz senta-se na cama, a acariciar-lhe o rosto – “Também te adoro, pá. E… … também gostei. E sim, ai pá, olha, nem sei bem, mas, sei lá, fico a pensar se fiz bem e…” – Luna tapa-lhe os lábios com um dedo. – “Fizeste bem, sim. Fizemos bem. Fica tranquilo. Amanhã vamos continuar a ser amigos. Eu acho que mais ainda. Português stressa muito. Bobagem! Agora me dá um último beijo, vai?”
Um duche longo. Depois vestir as calças de algodão velhas, um camiseiro de linho de manga arregaçada. Comer qualquer coisa, um iogurte, uma banana. Coloca um cd de Ana Carolina no leitor. Luna olha as paredes e ganha coragem. Suspirou, deve ter suspirado. Quantos rostos de João, quantos momentos, quanta memória boa, quanta saudade! Perder todas, escolher uma, uma feliz, uma candeia que recordasse ao futuro que o passado fora belo e portanto a vida encerra sempre essa esperança de beleza e felicidade. Luna gira sobre si, e observa ao seu redor. Depois resolve-se e começa a tirar com delicadeza as molduras, uma a uma, como se amparasse pedaços frágeis de vida e as depositasse com doçura numa caixa para que repousassem. Sorriso triste. O fim-de-semana em Arraiolos. As férias no México, o seu último aniversário em vida de João. A praia. Aquela mesma sala. O seu tempo juntos fora mais curto do que se sentia. Porque no coração sobravam memórias que pareciam poder encher mil vidas. Abraça uma fotografia contra o peito, fecha os olhos e baila em rodopio sobre si mesma. Com as lágrimas a correr, o corpo de Luna gira e gira, até que de tonta se perca e quem sabe se esqueça. O tempo é uma coisa relativa. Foram uns segundos, só uns segundos. Mas na retina de um anjo, Luna bailou toda a eternidade, com frisados de cabelo negro a soltarem-se da trança tosca e a enxugarem lágrimas da face. Luna abraçada a um rectângulo de madeira vermelha. Com o mais belo dos sorrisos desenhado de fino no rosto. Pés nus na madeira. Recorda e despede-se antes que se lance a esquecer – “Porquê, João? Me diz, porquê?”
Sempre chega a hora da solidão
Sempre chega a hora de arrumar o armário
Sempre chega a hora do poeta a plêiade
Sempre chega a hora em que o camelo tem sede
O tempo passa e engraxa a gastura do sapato
Na pressa a gente nem nota que a Lua muda de formato
Pessoas passam por mim pra pegar o metrô
Confundo a vida ser um longa-metragem
O diretor segue seu destino de cortar as cenas
E o velho vai ficando fraco esvaziando os frascos
E já não vai mais ao cinema
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