domingo, 30 de setembro de 2012

Entrevista de emprego - A Guilda dos Melancólicos - As Putas - Parte III


“Então, como é que tu te chamas?” – a mulher interpela-a do outro lado da secretária de tampo de vidro daquela divisão semi-despida. É uma cinquentona olheirenta. Cabelo longo e preto, dentes amarelecidos pelo fumo e lábios cor de vinho – “Filipa” – “Hmmm. E és maior?” – Filipa acena que sim. – “Portuguesa, certo?” - A mulher acende um cigarro e observa-a, de olhos semi-serrados do fumo que se eleva – “És bonita… … mas estás com mau aspecto, rapariga. Olheirenta. Credo, pareces doente! E que roupa é essa, hein? Ai, Credo!” – a mulher pondera por um instante e depois arranca enérgica - “Mas depois tratamos desses detalhes, portanto. Primeiro para que percebas. Aquilo que te estamos a propor é que faças acompanhamento. Ou seja, proporcionamos um serviço de acompanhamento a cavalheiros que precisem da companhia de jovens elegantes e educadas para lhes servirem de companhia em ocasiões sociais e outras. E portanto se começares a colaborar connosco é isso que farás, conforme marcações prévias em que serás contactada por nós. Pela nossa parte garantimos-te apoio numa série de coisas. Fazemos, portanto, o teu agenciamento, garantimos segurança quando for necessário e trataremos da tua imagem. Vestuário, maquilhagem, ginásios, massagens, enfim, tudo para que estejas ao nível da qualidade que oferecemos, coisas assim portanto e que depois definiremos melhor. E claro, trataremos da tua sessão fotográfica para o site da Internet. Os honorários pelos teus serviços, que te explicarei a seguir serão divididos inicialmente numa percentagem de quarenta sessenta, favorável à agência. E isto de forma, portanto, a compensar o investimento inicial que faremos em ti e na tua imagem e contactos e que é de cinco mil Euros. Uma vez que tenhas liquidado o valor desse investimento continuaremos a pedir dos teus rendimentos uma comissão de agenciamento de vinte por cento.” – Estás-me a seguir, rapariga?” - Filipa acena de novo afirmativa. Se não estivesse tão chocada com o ponto a que chegou, talvez risse. Aquela matrona parece-lhe uma vendedora da Avon, como aquela amiga da mãe de que não se lembra do nome, a expor o produto, maquinal, martelada, quase indiferente. Quase? Só que o produto é ela. Não, Filipa, não tem graça.. … e por isso nem te ocorre sequer a ironia. Seria demasiado. – “Agora, escuta-me bem neste ponto.” - e a mulher aponta o isqueiro dourado na direcção de Filipa, chocalhando as pulseiras no movimento rápido do braço sarapintado de sinais pretos – “O que tu fazes é acompanhamento. E portanto nem eu nem ninguém tem nada a ver com o que fazes com a tua vida. Cobramos apenas uma percentagem por te agenciar em, vá, nos teus serviços, como assistente, como entertainer. Percebes o que te estou a dizer? Os teus serviços têm um preço. Quando receberes directamente do cliente, entrega-nos a comissão, sempre em dinheiro. Se a agência receber, entregar-te-à também os teus honorários, deduzidos portanto da nossa comissão, sempre em dinheiro. É uma actividade simples em que para proveito de todos mantemos tudo simples. E por isso não se complica. O que tu fazes é contigo. Isto é entretenimento, companhia. Mas tu estás a perceber, rapariga?” – A mulher olha Filipa fixamente. Não diz nada. Como se tacitamente lhe dissesse que sem aquele ponto assente a conversa não passaria dali. Mas a rapariga nova é esperta. Inocente, por enquanto, mas esperta que chegue para perceber o que lhe dizem – “Sim, eu percebi, não se preocupe. Eu percebo o que quer.” – “Eu não quero nada, filha!” – Sorri e olha de novo Filipa. Um sorriso que é quase simpático – “Epá, mas tu és de facto muita bonita. Mete-te lá de pé outra vez.” – Filipa obedece. Assim exposta ao olhar da outra ainda se sente pior. – Aquela velha madame meneia a cabeça como que a dizer “que sim, que sim, que está ali uma mercadoria com classe.” – “Vais deixar a freguesia com água na boca. Falas bem inglês?” – Nova afirmativa – “Isso é muito bom, rapariga. Vá, senta-te. Vamos lá começar a tratar de ti. Digo-te uma coisa…” – o isqueiro de prata bate na mesa – “Uma miúda como tu, se tiver juízo, pode organizar a vida, vai por mim, filha.”.


Beauty queen of only eighteen
She had some trouble with herself
He was always there to help her
She always belonged to someone else

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Encruzilhada em dezanove - A Guilda dos Melancólicos - As Putas - Parte II


Filipa bate a porta e sai para as escadas. Umas escadas de madeira velha e arranhada que descem em quase espiral pelas entranhas exíguas do prédio. Salta o degrau partido, que do hábito já sabe que ali está, mesmo na penumbra. Às escadas só chega a luz do dia lá fora, a  singrar a custo pelo interior claustrofóbico do velho edifício. Odeia tudo aquilo, morada nova em casa muito velha, numa rua inclinada a trepar a Graça das colinas de Lisboa. Irá descer até Santa Apolónia e daí apanhar o autocarro que a leve ao Marquês. Há um anjo que não se sabe muito bem se acompanha esse Pedro do semblante triste, e por acaso calhou atentar em Filipa. Ou então acompanhava Filipa e quando viu que o carro de Pedro subia a rua em sentido contrário achou que era tempo de mudar de rumo. Ou talvez tenha sido ao contrário, ou talvez nada disto tenha sucedido bem assim. O que é certo é que Filipa descia a rua pela calçada. Ao que vai, já lá iremos. E Pedro conduzia no sentido inverso e ascendente, na direcção de Sapadores. Vai ter com Luna. Tomarão o café da manhã nessa peregrinação corriqueira do Miradouro da Graça e depois sabe-se lá o que decidirão fazer. E o que é certo é que o calendário no dia em que tudo isso se passou assinalava o dia 19 de Dezembro, embora não seja certo que Filipa tenha retido a data e seja quase certo que Pedro e Luna talvez recordassem excertos desse dia no futuro mas sem que lhe atribuíssem uma data exacta. 
Luna mora cinco números acima da nova residência dos Reis. Mas nenhum deles, nem Luna, nem os Reis, nem mesmo Pedro, têm consciência dessa coincidência curiosa, a atestar que o Mundo e Lisboa são pequenos. Na verdade, Luna nunca reconheceu daquela noite fatídica Sara nem Filipa. Muito menos sabe que o senhor de semblante triste e modos solitários que vê os jogos do Benfica no café da rua de cima é Mário Reis, pai de ambas. E também não é sequer absolutamente necessário que, algum dia, algum deles tome consciência de mais um acaso curioso de vidas que passam à queima-roupa, sem se tocarem verdadeiramente. Porque Luna saberá que Pedro chora quando se recorda de Sara, a moça que a arrastou do cadáver de João, que tem uma irmã chamada Filipa e a sua própria história de perda. Mas para lá disso, crê nunca ter visto depois nenhuma das moças, nem calcula que se cruza amiúde com elas na vizinhança. Elas que, claro, não se lembram, mais do que vagamente, de quem seja Luna. Embora saibam que Sara arrancou uma jovem brasileira dos braços de um cadáver, nessa festa de Ano-Novo, faz quase um ano. 
Pedro guia entretido e cantarola os Maroon 5, a acompanhar o rádio. Depois, por algum motivo irrelevante, sente-se enfadado daquela música e o rádio muda para a TSF. – “O Bloco de Esquerda decidiu hoje que viabilizará um futuro Governo do PS e o seu Orçamento Rectificativo para 2005, depois das eleições Legislativas de 20 de Fevereiro, caso o PS vença o acto eleitoral antecipado. No entanto, os dirigentes bloquistas sublinham que…” – nova guinada no rádio. Mais música. Está bem humorado e pensa que será um dia bem passado. Nem se apercebeu ao passar por Filipa. Essa baixa os olhos ao chão, a fingir que encontrou algo. Para não ter que reconhecer ou ser reconhecida pelo rapaz que conduz no sentido ascendente. Estuga o passo. Comerá algo rápido pela Baixa. E depois? Irá andar. Precisa de andar. De se acalmar, de ganhar perspectiva sobre o caminho a que se predispõe. Já vai quase em Stª. Apolónia. E de alguma forma já vai quase lá, no passo sem retorno.

Sofia aspira fumo, enquanto confere o extracto no ecrã. O padrão salta-lhe à vista. Os levantamentos tantas vezes tardios, quase sempre avultados, tantas vezes naquela zona - “Merda, Álvaro, já nem disfarças muito. Houve tempos em que me deixavas poder não saber das tuas traições. Deves ter uma cabra nova. Sim, esta é novidade.” – Já há anos que não corre uma lágrima a Sofia por isso. Na verdade já há anos que não corre uma lágrima a Sofia. Não se sente morta. Mas sente que parte de si secou. É mãe, escritora, esposa. É um pilar daquela família. Mesmo para o marido. Nem sabe definir o que sente por ele. Resignação a que é aquela a sua vida. Ao início talvez tenha perdoado, querido acreditar, por uma réstia de amor. Ou então era já teimosia de não aceitar o seu falhanço. Talvez… … mas hoje é apatia, acomodação. A Ana diz-lhe que é cobarde mas ela não concorda - “Cobardia, Ana? E realismo, que tal te parece? Estou quase com cinquenta anos. Não tenho ânimo para lutar, muito menos para ficar só. Não sou como tu. Não consigo largar o homem que tenho porque também já não conseguiria procurar outro.” – e Sofia sai a porta da cozinha para o pátio, embalada nas suas divagações. Vai podar as roseiras. É o que lhe resta, toda a sua sensibilidade na qual sublima todo o amor que já não tem para dar, seca de não o receber. Só gostava de explicar a si própria porque insiste em querer saber. Porque procura as coisas que já não ferem mas ainda humilham. Se tem a certeza que nada fará… …é tarde de mais… … devia ter posto aquele grandessíssimo egoísta na rua a primeira vez que o apanhou. Mas isso foi há quase 20 anos. Agora já não é tempo de grande coisa. Resta podar as roseiras e pensar onde ir almoçar. Talvez vá ao Fórum. Almoça por lá e irá às compras. Ligará à Ana e por fim destilará a sua amargura nas suas páginas, quando não restar o que fazer em mais um dia.


My mamma done told me, 
when I was in pigtails, 
My mamma done told me, Hon, 
A man is a two-face 
he'll give you the big eye, 
And when the sweet talking's done. 
A man is a two-face, 
A worrisome thing who'll leave you to sing, 
The blues in the night


Dezanove! Tudo no Dezanove. As fichas batem no pano verde. Colidem entre si, rodopiam. Caras sem coroa. Aos tropeções até que caiam mortas ao cabo da mão as arrastar em penhor do 19. O palpite esganou Marília desde que o vislumbrou pela terceira vez nesse dia. Na sequência do calendário, na carreira do autocarro e no rodar do ponteiro dos minutos. E por isso fugiu do banco porque sentiu que nesse dia poderia ser bafejada pelo volte face da sorte. Hoje as fichas cairão todas no dezanove.

“Abro já o vinho…” – “Abre sim, para deixar respirar.” – “Tenho que te oferecer um saca-rolhas como deve ser!” – Pedro aguça o engenho com o velho saca-rolhas. Luna atenta os olhos no fogão, a esticar o nariz ao aroma do alho a fritar. – “Muito alho?” – “Muito! Que não te quero dar beijinhos.” – Arroz, água. E depois Luna faz o corredor na direcção da sala. Escolhe um CD de Lenine, abre uma gaveta do aparador tosco e retira incenso. – “Passa-me um cigarro.” – Pedro atira-lhe o maço, sem se mover de esparramado no sofá. – “Bora fumar um charro?” – “Pode ser depois do almoço?” – Sim, Luna concorda que é boa ideia. – “Ai Pedro, soube tão bem ir lá no Miradouro…” – Pedro meneia a cabeça que sim. 

“Alô? Oi Filipe, está tudo bem com você? Hoje? Quando? Dá sim. Está óptimo. Estou-te esperando.” – Bruna desliga o telemóvel e devolve-o ao bolso dos jeans justos. Gosta de Filipe. Não está apaixonada, claro. Não poderia, Nossa Senhora a livre, mas Filipe é gentil, há dias que até a leva a jantar. Mais ninguém faz isso. Filipe é um cavalheiro, sim. A ele não lhe custa tanto vender o corpo como a todos os outros. E portanto não lhe custa tanto fazer contas de cabeça ao dinheiro que hoje Filipe lhe pagará. Mas gosta mais de passear pelo Shopping, sobretudo agora que toma o gosto de ter o seu dinheiro no bolso que compre muitos de tantos sonhos adiados toda uma vida. Pagar-se lanches, roupas, perfumes. Tanta coisa que uma Bruna pobre sempre cobiçou do lado de fora da montra, se ocasionalmente ia à cidade grande. Outras que até há tão pouco nem sonhava que existiriam. E por isso Bruna não se pode dizer que seja feliz. Longe disso. Mas está excitada de não pouca descoberta. É que Bruna não gosta de ser puta. Mas o sabor do conforto e o travo do luxo anestesiarão muita coisa.


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Memórias antigas de uma puta nova - A Guilda dos Melancólicos - As putas - Parte I

Há determinadas coisas que não são feitas para estarem ao alcance da percepção dos mortais. Charadas matemáticas que Deus dissimula na engrenagem do Tempo. Como que lições de evolução e ocaso e ciclo. Sobretudo parábolas de humildade para quem as pudesse entender. O segredo da leitura desse evangelho secreto reside em algo tão simples quão indestrinçável. É uma questão de abstrair do que parece relevante no curso dos dias e atentar nas pequenas morais que trazem a leitura de traços comuns entre caminhos que só aparentemente podem nunca ter convergido. Mas já explicámos que os mortais raramente têm da ironia desses encadeamentos a consciência. E é portanto muito provavelmente por isso que reincidem em não se perceber a si mesmos. O Anjo, Guardião de tantas estórias, sabe-o. Mesmo quando o que sabe é amputado do que realmente interessaria para perceber uma génese e um fim, só pelo facto de perceber que eles existem, já o Anjo é maior que o Homem.
O Dia 19 de Dezembro foi um dia desses dias especiais. Um desses portais de convergência fugaz entre destinos transversais. E o curioso é que nem o Anjo entendeu completamente esta anedota de Deus, uma vez que que teria que ter chegado mais cedo e partido mais tarde para entender todo o divino sarcasmo que o caso encerrava.


 
Quando entendemos e aceitamos a ideia de sincronicidade, qualquer acontecimento pouco comum é um convite para parar e pensar. Podemos sentir que "algo está tentando nos dizer alguma coisa" e essa sensação aumenta com cada novo acontecimento nesse sentido. Ter consciência de que as coincidências acontecem connosco é o primeiro passo para que elas passem a acontecer cada vez mais.


 
Nesse dia Bruna acordou muito cedo. Pelo menos mais cedo do que o que fosse seu hábito. O despertador desatou-se numa berraria quando cruzou as dez e ela despertou estremunhada. Em todo o caso tinha dormido bem. Acordou, abriu os olhos em redor do quarto e esboçou um sorriso bonito, muito mais da Bruna menina do que da Bruna puta. É a primeira vez que desperta no seu quarto. Num quarto só seu de uma casa só sua. Enfim, não é sua, é apenas um velho apartamento arrendado numa Avenida decadente de Lisboa. Mas um dia... ... um dia terá uma casa que seja mesmo sua. Por ora, aquela sensação de afago das paredes em  que é senhora de si basta-lhe para que sorria. E por isso salta da cama, que lhe responde num rangido rezingão e entreabre a persiana. Lá fora espreita a azáfama da cidade. A Avenida Almirante Reis é uma artéria onde a manhã fervilha com um travo de antigamente. Velha, suja, veia da cidade que já foi nobre e agora é plebeia, num corropio de gente às compras pelas galerias dos prédios sujos de piso térreo em arcada. É ali que Bruna quer estar dentro em pouco. Tomar um banho, vestir uns jeans, uma malha grossa e ir pela rua. Entrar nos lugares, comprar hortaliças, fruta, café, carne, peixe. Que mais? Bruna nem sabe. A vontade entusiasmada turva-lhe a ordem de ideias. Mal pode esperar para ir sentir aquela manhã lá fora. Beber café e comer um bolo no snack-bar ao sair da porta. Mas o que é sobretudo importante que se entenda é que a morena quer isto tudo para se sentir normal. Ter dado o corpo ao velho médico da vila para pagar uma passagem de avião e os reais com que pudesse sobreviver tão longe por algum tempo, não é normal. E chegar a uma cidade para viver num quarto bolorento de velha pensão do Martim Moniz e sair as mais das noites para vender o corpo na Duque de Loulé e ser tratada como carne por um bando de homens díspares, nada disso é normal, quando se tem 18 anos e uma réstia de inocência no âmago. A pobreza, os trapos, a fome que não mata mas amarga, a família que se multiplica e se entulha num cubículo miserável, disso soube sempre. As outras garotas falavam da Europa, de Portugal, do outro lado do mar. Todos conheciam quem tivessem ido. Poucos tinham voltado, pelo menos que não fosse para partir de novo. Que se ganhava o que ali as vezes nem doutores e que não era tão dificil como outro lado qualquer porque, afinal, esses portugueses falavam a mesma lingua e derivavam da mesma gente que o brasileiro. Um dia voltou Edson, o primo que tinha abalado anos antes para Lisboa com o padrinho. Naquele Inverno voltou para matar saudades da família. Afinal não estava lá na Lisboa mas num lugar chamado Coimbra – “Sabe Bruna, não é facil não, viu. Um cara dá duro. Tem que agarrar o trabalho, não importa qual. Mas ao pé desse sufoco...  … eu acho que eu não volto, não.” – “E você gosta de viver lá, Edson?” – “Ah, a gente sente saudade. Desse cheiro de terra, da nossa gente. Lá na Europa tu fala a língua mas tu não está na tua casa. Mas tu se acostuma. Tem gente boa, faz sol, é tranquilo.” - “ Você vai ficar por lá? Vai virar português?” – “Ah não sei...  … sabe, arrumei uma namorada. Uma baiana, veja só. Se tudo correr bem, vai logo e nos arrumamos. Se tiver o visto, fico sim. Quem sabe um dia eu volto...” – “Bethânia diz que tem garota que vai para lá e volta rica. É verdade?” – Edson coça a tez de chocolate e olha Bruna com esgar zangado – “Vira puta, isso sim.” – “Todas elas?” – O rapaz atira um seixo a deslizar em saltos entrecortados na pele liquida do rio – “Menina, lá ou você é pé rapada ou você é quenga mesmo.” – “Diz que vivem que nem princesa, tudo o que é bom. Ohana esteve cá. Você lembra dela? Pois é, então. Está ganhando uma nota preta. Diz que trabalha lá do não sei o quê de uma agência.” – “Que nada. É quenga mesmo.” – “E quenga lá ganha bem?” – Edson agora está mesmo zangado. Olha a prima com gravidade - “Que é isso, ficou maluca?!” – Mas a Bruna tão pouco lhe importa a censura. Olha a outra margem do rio, como se fosse a outra margem do oceano e pudesse ver Portugal – “Ah Edson. Eu preciso fugir dessa vida. Estou cansada de não ter nada, viver feito escrava. Olhe só minha mãe...  ... eu não quero morrer aqui, desse jeito. Sabe que mais? Vou tentar minha sorte lá na Lisboa.” – Edson ri – “E vai como, menina? Vai nadando?” - “Não sei, mas dou um jeito.” – E Bruna daria o jeito, não imediatamente. Mas o tempo convergiria para que Bruna desse o jeito. Podia ter sido mais simples mas a morena era inteligente para perceber que a simplicidade a pagaria da forma mais complicada. E por isso seria como pudesse, quando pudesse. Devia-o a Edson e aquela conversa, sentados junto ao rio – “Ouve só Bruna, tu não se mete em encrenca. Você pensa que é o quê? Pular fora da vila e ser o quê? Princesa? Tome jeito! Esses sujeitos você pensa que são o quê? É tudo bandido. Escrava! Aqui tu não é escrava. É pobre, isso sim. Mas essas garotas são escravas, sim. Tu não vai, não. Você quer ser que nem gado, tomar porrada?! Ir presa? Todo o dia estão falando de polícial que vai nos bordéis e todo o mundo vai preso. E dos bandidos. É, bandidos sim! Todo o mundo fala das mulheres que vêm desse país feito carne. Tem bandido que vive disso. Quengas. Você quer ser que nem boi?!” – Bruna não quer ser carne. Mas também não quer morrer ali, miserável, na aldeia de barracas miseráveis à beira rio. Quer ser como as garotas da TV, andar de carro, ter uma casa, roupas, jóias. Mas quer coisas mais simples. Tomar banho num banheiro decente. Ter a mesa farta, prendas no Natal, conhecer um homem educado que tome conta de si. Em todo o caso a conversa à beira rio produziria uma impressão duradoura que a afastaria dos sorrisos escarninhos das malhas da prostituição. Para uma criança que foi cuspida na pobreza nordestina e depois a adolescência catapultou para um rosto fino e um corpo esguio e alto, de pernas longas e peito rijo e apetecível, a sequência óbvia da estória mais velha de sempre é vir a ser puta. Rapidamente percebeu isso. Desde os doze anos, os míudos e os homens quereriam por-se-lhe em cima. Alguns, poucos, o conseguiriam. Porque Bruna tinha os olhos do outro lado do rio, como se o rio fosse o mar, e não estava muito interessada nesses homens. Arruinar o corpo e a alma, empranhar de um cachaceiro qualquer e dar sequência à balada patética de gerações que a precederam. Também não quereria ser levada como uma vitela para o matadouro dos sujeitos que vinham da cidade para assediar as raparigas mais vistosas. - “É tudo bandido.” – acabara por explicar Edson à prima de quinze anos, antes que fosse tarde demais. E portanto, por não querer conduzir-se para os proxenetas que vivessem do dinheiro que o seu corpo rendesse, a solução acabou por tardar mais dois anos antes que chegasse. Com dezasseis anos Bruna ia servir como empregada para casa do médico da vila, o sexagenário Dr. Werner, a alguns quilómetros. Lá passaria a semana de trabalho. Acordar cedo, ir às compras, limpar, varrer, esfregar, ajudar na cozinha, lavar a loiça, limpar, esfregar e no fim: “noite Dotô, noite Sinhá” - e Bruna caía exausta a dormir. Foi um período em que a mestiça que uns diriam que era morena, outros cabrita e outros talvez que fosse índia foi mais feliz e paradoxalmente mais triste. Bruna raramente tinha entrado e jamais tinha vivido numa casa assim. Não que a vivenda dos Werner fosse luxuosa. Era a casa minimamente abastada de um médico de pequena vila do Brasil miserável. Mas como em terra de miséria quem tem algo é doutor, aos olhos de Bruna aquela pequena vivenda de dois pisos e língua fronteira de jardim relvado era um palácio sumptuoso das mil e uma noites. Aquelas paredes de tijolo pintado, os tectos em madeira, os móveis, os pratos pendurados nas paredes, o fogão, os electrodomésticos, os sofás, a televisão grande e a dispensa cheia de embalagens coloridas transmitiam-lhe uma sensação indescritível de quimera, de que aqueles dois burgueses deviam ser as pessoas mais felizes do mundo, por viverem naquela casa. E portanto Bruna era feliz na sua bata de empregada a limpar e a comungar de uma fatia menor daquele bolo, por passar a semana na vila e naquele lar e por dormir naquele quartinho despojado, infímo, mas só seu. E era crescentemente mais desolador voltar à aldeia e à miséria das suas folgas, onde repartia um quarto sombrio com os três irmãos mais novos, e onde cada vez mais tudo lhe parecia tão feio, sujo e triste.
O inevitável acabou por acontecer. O olhar guloso que o velho médico lhe lançou desde sempre foi crescendo e minguando-se de embaraço. Mais tarde ou mais cedo acabaria por suceder e Bruna não se preocupava mais do que se preocuparia com os outros imbecis da aldeia, quando chegasse à altura de enxotar quase todos ou decidir que desejava estar com algum mais moço e jeitoso. Certo dia, quando descascava verduras na pedra da cozinha, o Dr. Werner entrou. Sentiu-o por momentos parar sem dizer nada. E depois já tinha o corpo encostado ao dela, a fazer-lhe sentir a erecção contra as nádegas, sob a saia e a bata - “Você sabe que me deixa louco, não sabe?” – Bruna desembaraça-se do corpo pançudo, que na verdade não se impõe – “Que é isso, Doutôr.?” – O outro fica a olha-la, com o desejo nos olhos azuis baços - “O que é que você quer para se deitar comigo? Peça garota, peça o que você quiser...  ... eu não vou forçar você a nada. Quero você de vontade.” – aproxima-se um passo tomando-lhe gentil pelas mãos na cintura mas sem querer forçar os corpos que se cinjam. Bruna olha-o cautelosa mas também não o repele – “Fale. Peça. Eu fico louco de pensar em ti, criatura.” – naquela tarde Bruna não pediria nada nem nada daria. Mas também não diria que não. Ao princípio não soube bem se estaria disposta a dar e o que poderia pedir. Mas na folga, no regresso à aldeia e no estar sózinha junto ao rio, a recordar uma conversa com quase dois anos, soube que encontrara o jeito que garantira a Edson que daria. - “Você quer me ter? Me arruma um jeito de ir para Portugal. Passagem, grana, os papéis.” - o médico ri. Estava sentado no escritório de paredes pintadas de azul, absorto na leitura, quando a rapariga entra, e especada, do nada, ali de pé à sua frente, como quem anuncia uma visita, ou que o almoço está servido, se sai com aquela - “Você quer me ter? Me arruma um jeito de ir para Portugal. Passagem, grana, os papéis.” – “Portugal? De onde você tirou essa ideia? E você quer ir lá fazer o quê? Pode-se saber?” – “Assunto meu....” – “Passagem, papel, grana...  ... você sabe quanto isso custa? Ora menina, para dormir contigo? Ficou doida? Por bem menos, vou na casa da Zulmira!” – Bruna nem pestaneja. – “Pois vai lá, Doutor, ficar com as quengas. Mas se quer-me ter, vai ser como eu disse.” – Reynaldo Werner olha a adolescente por cima dos óculos. Cada vez mais desabrocha aquele corpo e começa e perceber que tem que pagar o preço, tem necessariamente que pagar o preço. Porque está obcecado com a ideia de ver aquele corpo nu e deitar o seu corpo nu sob o dela, naquele quartinho despojado dos fundos da casa – “E quando?” -  “Quando você arrumar tudo. Quero ver na minha mão. Aí é quando você quiser, eu dou.” – Assim seria. Passariam semanas. O Dr. Werner trataria de tudo, das passagens e do visto. E depois, numa tarde em que a mulher estaria ausente, o médico consumaria a obsessão, à luz do candeeiro, a penetrar violentamente o corpo tenro da empregada. Dias depois o Boeing da Varig atravessava o oceano, transportanto no ventre, eléctrica de excitação, a rapariga que dera um jeito.
A torneira gira gemendo um rangido em fio e a água corre num tom baço de quase azul, do frio ao escaldante, enquanto na cozinha ruge o esquentador. Bruna prova a temperatura na pele da mão bronzeada. Satisfeita, tapa o ralo e deixa que a banheira encha. Água corrente. Ainda não perdeu o fascínio pela água quente que corra pelos canos de uma casa. Como a fascina a chama azul em que no fogão aquece um pouco de leite, e o plástico do estore que desliza a selar ou acender o dia para lá das janelas de vidro amplo. E a cama fofa do quarto onde dorme, sozinha, nesse pedaço de império que é só seu. O seu cantinho. Longe da família acotovelada da favela, da exiguidade do quarto dos fundos do Dr. Werner e do bolor daquela pensão de quengas, lá mais abaixo na cidade.

Jezebel wasn't born with a silver spoon in her mouth
She probably had less than every one of us
But when she knew how to walk she knew
How to bring the house down
Can't blame her for her beauty
She wins with her hands down
Jezebel, what a belle
Looks like a princess in her new dress
How did you get that
Do you really want to know, she said
It would seem she's on her way
It's more, more than just a dream
She put on her stockings and shoes
Had nothing to lose - she said it was worth it

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A memória sombria de uma tesoura de cortar carne - A Guilda dos Melancólicos - Os Cães - Parte IV


Álvaro conduz o Mercedes, veloz como sempre, a abusar do abandono da Lisboa, madrugada que é. Sobe às Amoreiras e depois apanhará a Ponte, no seu trajecto de regresso a casa. Hoje possuiu Bruna com raiva. Não por Bruna, nem pelo seu corpo curvilíneo. Raiva de memórias velhas que hoje afloraram e que parece que lhe marcaram a cadência com que aliviava o corpo à prostituta, para depois investir de novo. Por um segundo, o rosto de Bruna, apesar de tudo tão diferente, era o rosto das negras de olhar perdido de desespero que o fitavam enquanto aqueles filhos-da-puta as violassem, um após outro, até que todos se viessem dentro delas. Porque insistira aquela gente em olhar para si, que estava ali a rezar para que tudo acabasse, a fumar um cigarro nervoso, sem largar o gatilho da G3. Porque não olhavam antes para aqueles animais, que os amaldiçoassem. Porquê ele? Mas o lado puro e por desvirginar de si sempre soubera intimamente a razão. Porque aqueles olhos de mulheres esmagadas sabiam que ele sabia que aquilo tudo estava profundamente errado. E era por isso que numa lógica mais genuína que arrevezada, aqueles olhos grandes e negros das pretas lhe diziam que a culpa era dele.

Álvaro encontrou a casa imersa no silêncio. Nem os filhos sequer se mantinham acordados. No quarto, Sofia dormia profundamente, pelo que silenciosamente se mudou para o pijama de cetim que a mulher lhe oferecera no Natal com as suas iniciais e se deitou. Esfregou os olhos, tirou o relógio que pousou sobre a cabeceira e quis tirar a aliança – “Merda, a aliança...” – ficara certamente no quarto de hotel... ... mas amanhã pensaria melhor nisso. O cansaço chamava agora Álvaro ao sono.


I see the bad moon rising.
I see trouble on the way.
I see earthquakes and lightnin’.
I see bad times today.


Aquele som entrecortado de pás e vento. O zumbido de insecto amplificado regressava aos pesadelos e às recordações de Álvaro. No fim de noite, os helicópteros voam taciturnos em razia às copas das árvores. Frente a frente, Álvaro e António, trinta anos mais jovens, seguem sentados, joelhos quase encostados ao peito, espingarda entre as pernas. Nenhum dos quatro disse uma palavra desde que saíram há mais de meia hora. António olha lá fora o horizonte que adivinha a madrugada iminente. Para si se pergunta como é possível que o firmamento permaneça tão tranquilo, justamente no dia daquele baptismo de fogo que se avizinha. Álvaro nada disse. Nem o correspondeu das duas ou três vezes que lhe procurou um entendimento no olhar. A boina camuflada descida sobre os olhos que mantém fixos no chão, entretido no tique de fazer raspar no piso metálico do helicóptero o cabo da G3 – “Ainda não te borraste todo, oh verdinho?” - Serafim sorri com os seus dentes amarelos, num esgar que lhe espalha o bigode que parece maior que o rosto pequeno de feições vincadas que tem.” – António devolve o olhar do horizonte – “Não. Porquê, costuma-te acontecer, é?” – o outro sorri enquanto abre e fecha uma tesoura frenética de talho, como que hipnotizado pelo movimento ou pelo som de metal a silvar na fricção – “Só não quero que nos fodam todos. Se se acagaçam e fodem tudo, juro que sou eu que vos meto uma bala nos cornos. - “Deixa os rapazes, Serafim. Vão-se portar bem. Vai tudo correr bem. Somos cães, caralho! Vai ser limpinho.” – fala o Silva, o grandalhão do grupo – “Isso cães, depois logo se vê. Estes verdinhos ainda têm que o provar. Olha lá, já pensaste que daqui a vinte minutos estão a matar pretos, oh verdinho? Não sentem a tusa?” – Álvaro olha-o com o seu olhar cinzento. Nunca o confessaria, mas desde esse dia que passaria a temer o olhar de Álvaro e a evitá-lo. Foram alguns segundos eternos. Que transmitiram uma mensagem afiada que Serafim vislumbrou. Não voltaria a provocar nenhum dos dois novatos. Não depois desse dia. A ignorância recíproca e o zelar pela vida de todos nas operações seria o entendimento possível e aceitável. Só que esse dia ainda nem tinha começado. Álvaro olha António que lhe sorri. Um meio sorriso reconfortante e aqueles dois olhos verdes que parece que lhe brilham no rosto mascarrado de verde mortiço, a emergir na quase aurora. E Álvaro pensa como é bom poder ter um amigo de verdade ao seu lado para poder enfrentar o que se avizinha. Deus os ajude a ambos.

“Três minutos.” – o piloto desencadeia a contagem decrescente da Operação

Os helicópteros tocam o chão, sem deixar que as pás se aquietem e as botas militares pisam o mato e correm em todas as direcções. O coração acelera-se no disparar da adrenalina que impulsiona os músculos. Retém-se o próprio olhar de predador em corrida entre a vegetação que se abre sob o passo estugado dos militares semi curvados sobre si. Despontam os primeiros raios do Sol da manhã moçambicana que abraça a visão dos companheiros numa luz douradada. Ouve-se pouco. O som seco de mato que cede, o som da sua própria respiração e o caminho que se consome a cada passo em vertigem tremida sob o olhar. António vê Álvaro que o precede alguns metros. O Serafim apoia-o no flanco mais à direita com o Silva que transporta o morteiro e o Amílcar que corre pela esquerda em zig zag. Em ambos os flancos apercebe-se do avanço das outras equipas da malha que se fecha. Já ali à frente o mato abre-se e o terreno é quase aberto até ao casario. O Silva estaca, ajoelha-se e arma o morteiro. Serafim prescruta o movimento do outro lado. Nada. Ajoelha com o corpo apoiado num tronco e aponta para lá do campo aberto. Ao sinal António e Amílcar rastejam. Para Álvaro ficou uma corrida rápida a escudar-se numa árvore avançada no terreno. Enquanto corre pensa que naqueles poucos segundos se expõe à morte de um só tiro vindo das casas velhas que o mate antes que chegue a disparar uma única bala naquela guerra. Mas nada sucede e Álvaro deita-se no chão. Pisca o olho em mira à porta da casa mais próxima. Um silvo e depois uma deflagração de morteiro que levanta fumo para lá das casas naquele flanco. O morteiro do Silva faz-se ouvir atrás dos outros, e outra explosão rasga sobre o telhado de lata de uma habitação mais baixa. Mais estrondos. E depois os homens da frente precipitam-se em corrida sob o fogo de protecção dos comandos mais recuados. António atinge a parede este da casa onde caíra o óbus e lança uma granada para o interior, pela janela de vidros estilhaçados. Antes que se dê a explosão, um guerrilheiro ensaguentado sai a cambalear pela porta do lado este. A espingarda de Álvaro ecoa duas vezes, abafada pelo estrondo maior da granada que deflagra, e o homem cai morto com dois buracos negros no peito de onde o sangue embebe a terra – “Turra, à frente. Dispara, dispara! Dois! Dois! Caralho, mata os gajos, mata, mata!” – Serafim vocifera. Os dois negros de tronco nu dançam ao fim do corredor das casas abandonadas dos colonos, perfiladas naquela rua de guerrilha. Um aponta a metralhadora em rajada. O outro foge. Álvaro ouve o silvar das balas e apenas consegue mergulhar para dentro da casa baixa. Serafim e António respondem e o rebelde cai com uma bala alojada no pescoço de onde espirra o sangue. Álvaro olha em redor a habituar os olhos à penumbra. A um canto um corpo mutilado pela explosão da granada que António lançara. À porta o inimigo que ele próprio abatera está morto com os olhos muito abertos e fixos, Álvaro juraria que em si. Não sente nada. Pelo menos nada do que julgou que sentiria. Nem medo, nem culpa, nem sequer regozijo. Apenas uma excitação inexplicável – “Morteiro! 30 metros, Sul!” – nova detonação no ponto onde se alojara o inimigo que escapara. Depois mais outra. E depois o morteiro calou-se. Os restantes quatro correm, as G3 em posição de tiro. Depois da curva há o que parece ter sido em tempos um armazém. A porta de alúminio está entreaberta. Sobre a pintura verde que se descasca a desnudar ferrugem há dedos de sangue que vêm em trilho de mais perto e que desaparecem para lá da porta. – “Granada!” – Serafim dirige o olhar a António que vai obedecer. Mas para lá da porta responde uma voz jovem, num urro distorcido pela dor. - “Deixa sair. Rendo-me! Não atirem! Não atirem, eu saio!” - Os homens apontam à porta – “Ninguém dispara, caralho!” – Faz mira – “Cá para fora! Cá para fora! Já! Quero ver as mãos! Quero ver as mãos. Pra fora caralho!” – Um míudo. Um míudo magricela. Um negro que ainda não perdeu no rosto os traços engraçados de pretinho. Teria… … uns quinze anos? António não sabe dizer com certeza. Sai a cambalear. Arrasta uma perna ensaguentada onde se cravaram mil e um estilhaços. Olha os portugueses com olhos semi-cerrados, carneiro mal morto, carneiro mal abatido, antes de golpe mais certeiro. Tenta manter os braços no ar – “Amílcar, zona?” – “Limpa!” – E Serafim sorri. Um sorriso mau. A eriçar o bigode. A mostrar os dentes amarelos – “Agarra o preto.” – António arrepiou-se. Como não o fizera até ali que tinha sentido a vida na linha. Adivinhou algo muito mau – “ Lobo, Mangorrinha, segurança!” – o bruto do Amílcar atirou o míudo ao chão e enquanto com as mãos lhe imobilizou os braços, usou o joelho para lhe esmagar a cabeça contra a terra. A cara do míudo distorce-se em dor, sob os canos de três espingardas a centímetros do seu crânio. Depois Serafim tira a tesoura de carne do bolso do camuflado. Ajoelha ao lado do prisioneiro imobilizado. Uma mão agarra e puxa com força a cabeça pela carapinha e com a outra manipula a tesoura que silva no abre e fecha das lâminhas retorcidas em sabre. António olha o amigo. Como se lhe suplicassse algo no olhar. O peito de Álvaro arfa e os olhos vagueiam em redor. Para o acesso à entrada, para os dois homens que oprimem o infeliz, para António – “Preto do caralho. Vais ver...” - A tesoura decepa uma orelha de um só corte. E o grito infantil gravou-se para sempre na mente de António. Um grito chorado – “ Mãe, Mãããããããe.” - Corre o sangue pastoso, a submergir o rosto do negro e depois em rio pelo chão - “Serafim sorri. Pousa a tesoura de lâmina embebida. Acende um cigarro. O rapaz grita e chora na mais aguda da dor de um homem, de um míudo, sabe-se lá o que ele é naquele calvário. E num último impulso desesperado quer-se escapar a contorcer o corpo que se arranha na terra. Mas é o corpo delgado de um adolescente sobre o corpo de besta sólida do Amílcar e portanto nem mexe. Álvaro está gelado, de pupilas arregaladas, os dedos em garra que esmagaria a G3 se raiva fosse força. António não consegue deixar de olhar. Aquele rosto coberto de sangue. Aquela criança que urra de dor e de desespero e chama pela mãe. As lágrimas brotam de António. O rosto não chora, o corpo não se desfaz em pranto. Mas os olhos são um caudal que lava a cara do Comando e desfaz o verde que lhe camufla a tez. Deviam impedir aquilo. Matar aqueles dois cabrões e com uma terceira bala colocar um fim ao desespero daquele míudo mutilado. Mas António sabe que nada pode. Ou se pode não terá coragem. Porque a cobardia, ou o maldito sentido de dever ou de lealdade ou lá que filha de putice que o prende ali o manterão inquieto a vigiar a rectaguarda de um monstro que retalha um míudo com uma tesoura de carne. Serafim retoma a tesoura e força com o bico que uma das lâminas entre na boca ensaguentada do prisioneiro. Depois de uma tesourada rasga-lhe uma bochecha, até à articulação do maxilar. O sangue jorra em golfadas da face desfeita em abas de carne pendentes como carne no talho. O moribundo perde os sentidos e cai, boneco de trapo – “Acabou-se o brinquedo.” – Com uma última tesourada de mão ensaguentada, Serafim rasga-lhe a carótida. Mete a orelha no bolso, junto com a tesoura que goteja. – “Está a sair daqui.”.

Depois? Depois Álvaro não recorda muito mais. Nem sabe bem como saíu dali, nem como nem por onde correu até que os helicópteros os resgatassem. Demais, a memória é só António de olhos fixos no vazio com as lágrimas a correrem-lhe o rosto. E o som, aquele som das pás do insecto que leva a morte.


Someone told me long ago
There’s a calm before the storm
I know, and it’s been coming for sometime
When it’s over so they say
It’ll bring a sunny day
I know, shining down like water

Formas diferentes de te ter - A Guilda dos Melancólicos - Os Cães - Parte III

Os dois amigos descem os poucos degraus de pedra que precedem a pesada porta metálica do Skinframe Club. Um porteiro alto e maciço franqueia a porta após um olhar por uma portinhola. – “Boa noite, Dr.” – Boa noite Rogério, responde-lhe Francisco. – “A casa está boa?” – “A casa está sempre boa, Dr....” – Para lá da porta emergem na penumbra entrecortada pelas luzes multicolores dos projectores. Uma bola de espelhos faz dançar uma multiplicidade de desfoques esbranquiçados pela parede e os ouvidos enchem-se dos sons dolentes do reggae de Bob Marley. No plateau, um promontório ao canto do espaço, dir-se-ia jaula sem grades, espécie de recanto decorativo das fantasias do Skinframe, uma stripper adia em mais um malabarismo que caia a última peça de roupa. Nos sofás de veludo azul cuspidos em plateia em redor, clientes e raparigas bebericam champanhes, caipirinhas e whiskys à laia da conversa. Algumas raparigas dançam na pista. Nem um homem por lá. Esses não vão ali para dançar. Elas tão pouco lá vão para isso. E no entanto dançam. Ali, de alguma forma, todo o universo baila um ritmo dolente. Uma espécie de reggae menos rápido do que aquilo que parece ser. Naquela cave de decoração retro, respira-se a atmosfera doce, decadente e patética do alterne de Lisboa.
Francisco faz sinal ao chefe de sala que acede com um menear de cabeça e por sua vez segreda algo ao criado já quarentão do casaco branço e laço preto. Faz sinal para que o sigam e os dois amigos são conduzidos à sua mesa. Sentam-se. Francisco, melhor do que isso, resfatela-se. Pede ao empregado dois whiskys duplos da sua garrafa - “Disto é que eu gosto! O palácio dos sonhos. Um gajo olha a volta e pensa: eu posso foder estas gajas todas. Em abono da verdade, metade delas já eu devo ter fodido. E outras tantas fodeste tu, pois claro! E hoje está-me a apetecer lamber a cona a uma pintelheira loura” – Álvaro sorri. Porque é que o Xico tirará prazer em colocar as coisas assim? Nem são cruas. Uma virgem com a cabeça cheia de sonhos tontos colocará o sexo em acorde doce de algo que um dia a vida lhe ensinará que não existe. Depois há a realidade. Àlvaro crê ser ele mais coisa menos coisa a realidade. O prazer, o desejo, o hedonismo de um homem que gosta de mulheres bonitas, de usufruir tudo o que possa. Francisco é outra coisa, é o inverso da fantasia boa e no entanto também ele fantasia. A sua forma decadente e misógena de lidar com as mulheres com que dorme é, pensa Álvaro, tão irreal como a da virgem que pensa que um beijo sabe a açúcar. – “Posso-me sentar contigo?” – É Bruna. Àlvaro sorri novamente – “Claro Bruna. Vá, chega-te para lá, deixa a moça sentar-se ao meu lado.” – Francisco arrasta o rabo mais para a direita e ele próprio faz sinal a duas das raparigas na pista de que são bem vindas a fazer-lhe companhia – “Queres beber o quê, Bruna?” – “Champanhe.” - Bruna pede sempre a mesma coisa. Álvaro já nem sabe porque coloca a pergunta. Afinal, aqueles encontros que se arrastam há mais de quatro meses são um ritual, dir-se-ia, imaculado nos seus preceitos. “Imaculado”…  … seria o adjectivo mais irónico para descrever a relação que mantêm, Conheceu a brasileira ali mesmo e é rara a semana que não pague pelo seu corpo. Supõe mesmo que deva ser o seu melhor cliente. Gosta dela. Não da forma como pudesse gostar de alguma mulher mas da melhor forma como se pode gostar de uma prostituta. Bruna. 18 anos. Uma rapariga alta, esguia, cara bonita de mestiça a quem corra sangue indio nas veias. Mas não tem esse ar vulgar de outras mestiças que Álvaro tem como vulgares. Tem um rosto agradável que se não fosse talvez um pouco quadrado demais seria verdadeiramente nobre. E é delicada. Humilde mas delicada. Álvaro aprecia isso. Abomina a falta de modos, a vulgaridade. Essa só perdoa ao traste do Francisco. Talvez porque lhe encontra outras qualidades que o compensem dos seus pecados. Não sabe bem se é por isso, talvez o seja. Mas Álvaro não é de todo como Francisco. E é por isso que sempre se dirige com delicadeza aquela prostituta com quem se deita a noites amíudes. E por isso sempre a toca com delicadeza quando a penetra com ardor e por isso lhe afaga gentil a longa cabeleira de india Pocahontas, quando a brasileira deixa que o seu pénis se consuma de prazer na sua boca – “Você está bem, Filipe?” – “Estou, Bruna, estou. Quando acabares, vamos?” – “Hoje o Filipe não quer chegar muito tarde à patroa.” – Francisco insiste em entoar o “Filipe” num tom de zombaria. Como que a dizer que se escangalha a rir da cautela do amigo em usar “o pseudónimo”, como lhe chama – “Bah, sejamos descarados. Os nossos pecados veniais, ou melhor, os teus, emergirão quando a Deusa Vénus quiser e não quando tu possas prever que assim seja.” - dissera-lhe certa vez - “Bom, Francisco, ligo-te depois...” – “Sim, leva lá o naco.” – E Francisco vira as costas a enfiar descontraído uma mão entre as pernas da rapariga do leste, enquanto a outra ampara o copo meio de whisky.
Luísa desce a camisa de noite, mesmo por debaixo dos lençois, enquanto que António se levanta, nu abaixo da cintura e vai à casa de banho. O sexo, após aqueles anos todos de convívio, já não é o arrepio nem a loucura de outros tempos. Mas enquanto urina, António pensa que ama Luísa.

Have I told you lately that I love you?
Have I told you there`s no one else above you?
You fill my heart with gladness, take away all my sadness,
Ease my troubles, that's what you do

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Pastores e Lobos - A Guilda dos Mlancólicos - Os Cães - Parte II


O sistema de som cambia o som de alta fidelidade do cd pelo chamamento roufenho de toque de telemóvel. À distância de quatro, cinco toques, uma voz masculina atende do outro lado – “Álvaro, então, meu velho?” - “Estou, Sá, olha vou a sair de Leiria. Bater umas bolas, jantar, beber um copo, que me dizes?” – o outro ri-se e riposta que sim. E por isso as chamadas seguintes são para “A Doca do Peixe” e para que Sofia saiba que não jantará e chegará tarde.

Luísa franqueia a porta e espreita António que lhe sorri. Ela riposta-lhe ríspida, sem lhe mostrar os dentes - “Os meus pasteis-de-nata?” – E o marido dá uma gargalhada e exibe o embrulho. Luisa desmancha-se no seu sorriso franco, que lhe embrulha os pés de galinha à cabeceira do olhar - “Oh César, o gajo lembrou-se! Abre o champanhe.”.

“Ganhaste-me, sacana.” – Francisco levanta os olhos do chão de traves finas e espaçadas de madeira. Rosto vermelho, afogueado, transpira bagas gordas de suor. Sentado, curvado sobre si mesmo, sorri para o velho amigo. Depois deixa cair o corpo para trás, a sentir o calor do inferno da sauna lamber-lhe o rosto – “Foda-se, sabe beeeeem.” – fecha os olhos – “Que horas serão?” - “Prái sete.” – “Marquei às oito e meia na Doca do Peixe” – Sá abana a cabeça e sorri – “Estavas confiante...” – Álvaro retribui, enquanto que com a mão em para-brisa limpe a transpiração que lhe banha a testa – “Sim, hoje acordei e pensei - “Hoje vou comer peixe fresco à conta do Sá” – “Olha lá, e a tua amiga?” – “Qual?” – “Aquela gaja boa, a médica.” – “Foi a andar. Já me andava a moer o juízo. Para isso já tenho a Sofia, muito obrigado.” - “Qualquer dia...” – “Não... ... a Sofia não me quer apanhar. Nem sei se sabe ou se não sabe ou se não quer saber. Suponho que depois de três ultimatos nem respeitados por um nem consumados pelo outro já não haja nada a fazer, senão não saber. É a Natureza das coisas. E eu e a Sofia temos as nossas naturezas e cada um segue a sua. Ela tem as suas melancolias e os seus livros e os seus amigos intelectuais. E eu tenho as coisas que me dão gozo. Mulheres bonitas, Mercedes e o peixe. Que pagas tu, claro. Poderá um gajo ser mais feliz, do que com as gajas e os carros e um amigalhaço que não saiba jogar squash e que pague sempre a conta?” – Sá leva um gole de água à boca. Provavelmente não, provavelmente não mesmo – “Olha lá e a tua estagiária?” – “Epá, está calado, está tão, mas tão, tão, tão boa. Foda-se, venho-me só de olhar para a mulher! Ca par da tetas...” – Álvaro não pode evitar uma gargalhada. Tudo na boca do bom do Francisco Sá tem um je ne sais quoi de humor e de alegre deboche. Se forem mulheres é matemática. O Sá é um tarado e congratula-se de o ser, além de que parece que está a refinar com a idade. Como ele próprio gosta de dizer - “A minha ex-mulher diz que estou na parvoíce da andropausa. Mas é uma infâmia! Eu refinei com a andropausa, meus senhores! E o trabalho de anos, não conta?” - por isso é preciso que se faça justiça e que se perceba que o Sá não é um gajo meio perdido porque acabou de se espalhar para lá da barreira psicológica dos cinquenta anos. Não, o Dr. Francisco Sá, com domicílio profissional no 4 – 3º da Rua Rodrigo da Fonseca em Lisboa é, meus senhores, um perfeito, evoluído e refinado debochado no capítulo do belo sexo – “O teu filho é que podia comer aquilo. Mas se o estagiário é verdinho, o patrono mostra como é.” – “Deixa lá o Pedro com a sua namoradita...” – “Verdinho” – pensa Álvaro. Há anos que não ouvia essa expressão. Ou pelo menos há anos que não a referenciava, assim, como agora – “O puto gosta mesmo da míuda dele, não gosta?” – Sim, era verdade, o filho adorava a namorada – “E vais riscar mais uma estagiária na coronha, ou nem por isso...?” – “Se vou... ... vamos para a ducha?” – Álvaro assente que sim e os dois homens saem nus daquela caixinhola de madeira – “Olha, sabes que mais, estamos a ficar velhos. No outro dia surpreendi-me. Não queres lá ver que a grande cabra olha para mim como, tipo, “Avôzinho, ganha juízo”. Garanto-to!” – A água quente jorra dos chuveiros na parede e por momentos instala-se o silêncio, ambos os homens de olhos cerrados a deixarem-se embalar pelas agulhas de água fria no contraste da pele em ebulição – “Epá, mas é como te digo. A fulaninha é que nem sequer se sente lisongeada, nem ameaçada! Mas tu já viste a decadência de um sujeito? Estamos a perder qualidades, é o que te digo!” - Álvaro sorri, enquanto deixa que o cabelo se emaranhe numa peruca espumosa e branca de shampoo – “Estás. Tu estás. Cada um fala por si. E depois, há que ter calma! Eh, Xico, xiça, a míuda não te viu graça! Por morrer uma andorinha não acaba a Primavera! Que diabo, julgavas-te irresistível?” – O outro esfrega a pança luzidia com sabonete – “Pois eu te digo que a necessidade das prendas e das passeatas foi apenas o início do fim. Em breve teremos que as embebedar primeiro e o dia há-de chegar em que, tu e eu, meu amigo, só pagando. E por falar nisso, hoje temos festa?”


Please allow me to introduce myself
Im a man of wealth and taste


“A tua mãe não devia ter direito aos pastéis...” – “Cala-te!” – Luísa empurra o marido num chega para lá carinhoso. – César ri-se – “Eu por mim aprovo e como os dela.” – “Tu não tens voto na matéria, oh chavalo. Cá em casa só votam os gajos que não usam tachas. Pareces os novilhos lá do pasto!” – “Deixa o rapaz em paz, Tó. Que chato!” – “E não parece? Se calhar não parece? Muuuuu!” – e coloca os dedos em forma de chifres a roçar a testa, provocando o filho sorridente, mais o seu piercing na orelha. – “Tu estás muito bem humorado!” – “Ora se estou. Oh míudo, hoje dou-te dez tostões para ires comprar pastilhas, que eu e a tua mãe precisamos de ter um tête-a-tête, cá a sós.” – Luísa revira os olhos – “Lérias... ... o teu pai é só garganta...” – “Epá, vocês poupem-me a imaginar coisas tristes...” – os pais riem – “Olha-me este fedelho...” – “Mas conta lá, e esse almoço?! Ainda não falaste disso. Foi giro?” – “António arregala as sobrancelhas num momento de ponderação de “se foi giro...?” – “Foi giro? Foi. Muita velha memória, Luísa. Alguma coisa boa, muita coisa má. A gente fala mais das coisas boas, claro. Mas as más estão lá, a gente não diz, mas sabe. E olha” – António como que desperta de um mergulho que quase dava nas memórias – “Lembras-te de te falar do Álvaro, o meu velho camarada? Pois bem! Epá, gostei mesmo de o ver! Está bem, a vida correu-lhe bem, é um senhor. Casou com a Sofia Pizarro, a escritora, ela mesmo, vê lá tu! Aquele gajo! Depois destes anos todos. Soube-me mesmo bem apertar aqueles ossos.” – “Esse Álvaro marcou-te muito, não foi?” – “Foi... ... fizémos a recruta juntos e acabámos por ter ambos guia de marcha para o mesmo chiqueiro. E lá fomos colocados na mesma Companhia e no mesmo Grupo. Os dois verdinhos, como nos passaram a chamar, no meio de uma data de gajos embrutecidos pela guerra. E foi isso que sempre admirei nele. Nunca se tornou naquilo. Foi sempre teso. Mas está ali um gajo que não merece ter pesadelos com orelhas cortadas... ... enfim, já estou a dizer disparates. É do vinho!” – Luísa acende um cigarro – “Que horror, Tó. Orelhas?! Nunca falaste disso...” – rosto em careta desconfortável e António puxa-lhe a cabeça a repousar no seu ombro enquanto acaricia os longos cabelos grisalhos da professora de Química. - “ Luísa... Há coisas que é melhor que fiquem lá. Já que tiveram que suceder, que fiquem lá, que não nos persigam. É como dizia hoje o Capitão Velez. Puxavam-se os rapazes para os limites. Era a guerra. Mas olha...” – e segura-lhe no rosto para que se olhem, olhos nos olhos. Ela cede e fica à espera, olhos súbditos de cordeiro. - “O teu Tó não é um monstro. Nunca foi. As mulheres violadas, as torturas, as orelhas... ... eu não sou isso. Fiz o que pude para salvar a pele e fiz o que me exigiram que fizesse. Nada mais. Sabes, não sabes?” - Ela acena que sim – “Sei, Tó. Eu sei que não.” – e beija-lhe os lábios.

domingo, 23 de setembro de 2012

Memórias de guerra - A Guilda dos Melancólicos - Os Cães - Parte I


Don’t go around tonight,
Well, it’s bound to take your life,
There’s a bad moon on the rise.


Aquele som baixo e entrecortado de pás e vento. Zumbido amplificado de insecto gigante. Sempre essa imagem auditiva recorrente dos helicópteros que se aproximam do povoado abandonado pelos colonos. Louvado seja Deus que consegue a mais das vezes reprimir o resto do sonho decalcado das suas memórias. Deus? Mas Deus não tem nada a ver com aquele dia. Deus não tem nada a ver com aquela guerra, a não ser talvez por o ter deixado sobreviver.


Em Nambuangongo o tempo cabe num minuto
em Nambuangongo a gente lembra, a gente esquece
em Nambuangongo olhei a morte e fiquei nu.
 Tu não sabes mas eu digo-te: dói muito.
Em Nambuangongo há gente que apodrece.


O ponteiro da velocidade indica os 210 Km/h e as linhas da auto-estrada serpenteiam ao olhar de Álvaro. O dia está bonito. Uma daquelas manhãs de Inverno em que o azul do céu é pálido, a cor que deve ser a do frio daquela manhã de Sábado. Não há trânsito e o Mercedes voa estrada fora na direcção de Leiria. Álvaro aspira fumo de cigarro e embala-se no som de Vangelis. Aquela música conhece o seu âmago, traz-lhe a alma cá para fora. Se não fosse na estrada fecharia os olhos para a intuir melhor. O que sentirá ao concretizar-se aquele dia? Mesmo passados todos estes anos, rever aqueles rostos esgravata a terra que colocou sobre o passado. Já não é uma camada de terra fina. São torrões que os anos e as brumas da memória acumularam. Mas resta a verdade inegável que sob todo aquele peso térreo repousam as memórias de Moçambique, aquelas que por vezes regressam fugazes, a fazer-se anunciar pelo som de helicópteros a abordar a povoação naquela que foi a jornada mais negra de todos os seus dias de guerra. E se aquele almoço com os antigos camaradas arranhar um pouco as cicatrizes, Álvaro também acha que lhe reforçará a tranquilidade de que o tempo passa e os fantasmas, bem como os vivos são sensíveis à erosão. É sempre isso que pensa - “Estamos a envelhecer, o tempo passa.” - Em alguns dos rostos é como se a memória que tinha desses mesmos rostos se fosse exaurir. Como se não fossem os mesmos, ali à mesa, sorridentes, gordos, grisalhos, carecas, enrugados. A estrada consome-se veloz. E quando viajamos acima dos 200, Leiria é já ali. E por isso o Mercedes já abandonou a auto-estrada e entrou nos arrebaldes rurais da cidade. Dentro em breve, Álvaro chegará.

Os Cães pertenceram à 7ª Companhia de Comandos, que operara em Moçambique, nos tempos da Guerra Colonial. Vinte e cinco homens unidos pela fatalidade de ali estarem e pelo voto de serem Cães. As semelhanças acabavam ali. Mas eram as suficientes para que os Cães fossem coesos quando saíssem para o mato. Eram da “7ª”. Mas antes disso eram Cães e o Grupo estava acima de tudo e forjara a ferro e fogo, a expressão não poderia ser mais bem escolhida, literalmente a ferro e fogo, os laços entre aqueles homens. Amizade? Não, não seria amizade. Deveria existir uma palavra específica para os laços que se criam entre os homens que partilham a experiência de vida e morte em combate. Não é amizade. Diabos! Álvaro tinha até a certeza de que odiava até hoje alguns dos camaradas. E no entanto subsistia por eles esse mesmo sentimento. Comunhão, gratidão, confiança... ... não sabia bem. Haveria ainda que inventar essa maldita palavra. Sete mortos, cinco amputados, um paraplégico e um cego. Eis a estatística sombria dos Cães ao longo da comissão. Sabia recitar estes números hoje como se fosse ainda o ano de 1972 do seu regresso à metropole. E sabia recordar alguns dos momentos quentes associados à frieza dos números na folha do Comando, se não o conseguisse evitar.
“Sagento Lobo! Pôa, este gajo está cada vez mais lindo! Páqui! Pó pé da apaziada” – Álvaro desapertava a gabardina e sorria para o “Cavalho”. O Carvalho que não sabia dizer os “r’s” e a quem a sorte tinha sido madrasta ao chamaren-lhe Carvalho. Os camaradas costumavam troçar - “Meu Geneal, apesenta-se cabo Cavalho, apontado de metalhadoa ligeia.” – pior seria não saber dizer os “V’s”, comentara certa vez um capitão. Álvaro contorna a mesa em busca de um lugar e retribui os cumprimentos – “Álvaro, meu sacana! Pôrra pá, perguntava-me se virias!” – Álvaro surpreende-se a reconhecer António – “Tó! Epá, pôrra, dá cá um abraço!” – os dois homens abraçam-se e entreolham-se surpreendidos – “Epá, senta-te aqui ao pé de mim! Foda-se, quantos anos passaram?” - “Não sei, Tó... ... demasiados? Mas vá, venha algo que se beba!” – Os dois homens esgrimem um rol de perguntas. O que é que fizeram da vida, se estão casados, se têm filhos, onde moram, em que trabalham? No regresso da colónia trocaram um abraço, um abraço forte, gémeo deste que celebraram ainda agora. Hoje as lágrimas afloraram aos olhos de António. Nem tanto a Álvaro, mas talvez as tenha sentido dentro dele. Há 30 anos ambos choraram nessa despedida. E depois cada um levou o seu caminho, sem trocar uma morada, um contacto qualquer, uma combinação. Era absolutamente necessário esquecer Africa. E por isso aquela amizade tinha que ficar para trás, ambos sabiam demasiado bem isso para que um tivesse que explicar ao outro o que quer que fosse. Álvaro atravessou a margem para Almada, de regresso a casa e ao namoro com Isabel. Emprego no Banco Fonsecas & Burnay, o casamento marcado, Isabel que foge com aquele jeitoso do P.C.T.P.-M.R.P.P., o retomar dos estudos, Sofia, o segundo emprego como barman no casino, o casamento, cinco meses depois nasce Pedro, termina Gestão, a vida vai-se compondo, encomenda-se Eduardo, o resto é história, e aqui está, 30 anos volvidos, Álvaro, empresário de sucesso, casado com Sofia Pizarro, a escritora famosa, ela mesma, pai de dois rapazes, aqui, no almoço de reencontro da “7ª”, trinta anos após o fim da sua comissão, à conversa com o melhor homem que conheceu então, António, Tó. Álvaro podia ser o olho mais aguçado do Grupo, talvez mesmo da Companhia. Um atirador exímio, um gajo porreiro para estar ao nosso lado numa escaramuça no mato. Mas Tó era o maior coração que alguém já teria metido dentro de uma farda de um comando. António nem deveria ter sido comando. Não tinha a morte dentro de si, tinha a vida. De se ser um pulmão de atleta, um poço de coragem e generosidade, não se faz um comando. António até era bom a matar, mas não tirava prazer disso. Tão pouco Álvaro. Só que António se recriminava a cada vida que tirava e Álvaro sabia aceitar as coisas como elas eram. E isso fazia toda a diferença. O que é que levava os homens aquela guerra? O recrutamento é uma resposta óbvia. A bota pesada do Estado Novo a empurrar gerações de míudos para a morte no mato. Mas, e o ser comando? Saberiam realmente ao que iam? A crueza da guerra vista na fila da frente numa cadeira de força especial. Álvaro agora tenta recordar. Porquê? Pelo desafio? Para honrar o nome do velho pai militar. Mais uma geração defendida em prestígio de armas? Nem tanto. Nem via o pai verdadeiramente como um soldado. O velho sargento-ajudante da Marinha de Guerra, a navegar toda uma vida em tempos de paz. Um homem duro a quem a vida dera uma vida dura, a enegrecer os pulmões no fumo de motores em que trabalharia até ser cuspido para a reforma. Até que anos mais tarde o fumo o mataria. O fumo de diesel dos porões a refinar nos pulmões que apodrecessem, o fumo dos 3 maços de tabaco que exauria por dia até que o cancro o derrubasse. Quem sabe? Mas Álvaro não se sentia filho de um guerreiro. Sentia-se filho de um escravo, de uma vida madrasta, de um pai ausente das longas comissões. Não, não era isso. Os Comandos eram o desafio. Superar-se. Alimentar o seu instinto vencedor. Se supunha minimamente o que o esperava? É engraçado. Primeiro pensara apenas na recruta. Sobreviver à provação, à dor, ao stress, à fadiga. Testar a virilidade dos seus 19 anos. Nem pensava seriamente na guerra. Em matar, em morrer. Isso veio depois, com Africa. Africa era muito diferente de Mafra. E tirar a vida seria muito diferente da recruta. Em breve, o míudo Álvaro aprenderia a aceitar isso. Mas a Guerra tem muito mais, muito, muito, muito mais. Coisas que vão para além de matar em combate e que Álvaro nunca aprenderia a aceitar.
“Mas pôrra, Tó, então e tu?” - “Eu, olha...” - “Fumas?”- “Naaa, deixei, vai para cinco anos” - “Mas dizias...” - “Pois. Epá, eu, olha, na altura voltei para Mértola. Aguentei lá pouco. Vim para Lisboa como tantos outros. Conheci a Luísa, casámos. E olha fez-se a vida. Trabalhei uma data de anos num Transitário. Depois, já se sabe, com as fronteiras, aquilo decaíu. Estive algum tempo no Fundo de Desemprego. Agora tenho a pré-reforma...” – “E míudos?” - “Tenho o meu rapaz, o César.” - os olhos verdes húmidos acendem-se, como nunca se acendem os olhos cinzentos do velho camarada – “Tens dois rapazes também, não é?” – “Sim.” - Álvaro aspira o fumo do cigarro e sopra-o para o ar – “O Pedro e o Eduardo. O tempo voa, meu velho. O Pedro é advogado, quer dizer, está a acabar o estágio. Qualquer dia casa. O Eduardo é mais novito, está na Faculdade a tirar Filosofia. É o pensador do clã.” - “O meu César foi calinas. Não quis estudar. Fartei-me de o chatear, se queria ser urso a vida toda como o pai ou culto como a mãe. Epá, mas sabes o que te digo. Cada um tem o seu rumo. E o César é um artista, não um marrão. Nunca deu para os livros. E, lá foi, fazer o que queria. Trabalha em luzes de espectáculos e lá não sei o quê. Monta aquelas luzes dos concertos rock e do teatro. E olha, é feliz e se calhar ganha mais que alguns doutores, pá!” – o amigo sorri e assente que sim, enquanto esmaga os despojos do cigarro contra o cinzeiro de barro. Afinal, ainda bem que veio. Porque é formidável rever o Tó. O raio do alentejano era sem dúvida uma das melhores pessoas que cruzara na vida. E juraria ali que essa chama não o abandonara com o passar dos anos. Aqueles olhos húmidos, o sorriso franco e aquele abraço a transbordar a humanidade que Tó sempre tivera em si. Caramba que sim, nunca poderia morrer sem voltar a abraçar o amigo, ainda que nunca mais o visse, e talvez assim fosse, depois de hoje – “Então, e o meu amigo Lobo, continua um senhor de mulheres?” – Álvaro vira-se surpreendido.” - “Oh, Capitão Velez! Epá!” – “Major... “ – o militar ensaia um ar circunspecto. E depois desmancha-se numa gargalhada – “Que raios, homem! Bons olhos o vejam!” – e a mão pesada abate-se nos ombros largos de Álvaro, cumprimentando, com um sorriso e um aceno de cabeça António, do lado oposto da mesa. E esse que levaria a carne rapinada em garfada à boca interrompeu-se na surpresa - “Velez! Bolas, é bom voltar a encontrar esta rapaziada toda!” - o capitão que agora é major sorri de novo – “Mas olhem rapaziada...” – e assim dirige-se a todo aquele sector mais à ponta da longa mesa – “Está na hora de puxarem pelas carteiras.” - à medida que se expressa o tom altera-se em algo de seriedade e confidência – “estamos a juntar algum dinheiro para ajudar o Serafim. Vive com muitas dificuldades. Nunca superou África, enfim... ... o que puderem dar...” – Álvaro olha de esguelha a ponta oposta do grupo. Serafim retalha a carne no prato. Mudo, ar fechado. O rosto pequeno fendido em rugas sob a farta cabeleira quase branca – “Aquele filho da puta... ... perdeu aquele riso escarninho...?” - Velez bate o maço de tabaco na palma da mão – “Era uma bela peça, era. Mas a vida fodeu-o à grande. É um desajustado. Esteve preso, agora vive de uma pensão miserável de invalidez. Sonha que os pretos lhe vêm pedir as orelhas de volta... ... enfim...” - Álvaro e António entreolham-se e sabem que pensam mais ou menos o mesmo. O grande filho de puta do Serafim. É um desajustado? Lá há-de ser. Se António e Álvaro só queriam que Africa acabasse antes que os matasse, Serafim só poderia, provavelmente, sobreviver se Africa fosse para sempre. Mas não foi assim e agora os pretos reclamam as suas orelhas e os seus narizes e os seus testículos e sabe-se lá mais o quê, para que se reponha a ordem das coisas e sendo de novo o justo, justo, a guerra possa descansar – “Caramba, Lobo, mesmo depois de todos estes anos, vocês não chupam o gajo – “É um filho da puta, Velez” – e Álvaro meneia a cabeça que sim, que é mesmo isso que o outro é, ainda com os olhos fixos para o outro lado. Recorda, odeia, não, odeia não. É o tal sentimento que os une, o tal que está por inventar que o impede. Não se odeia o braço que nos amparou no pior dos momentos. Mas despreza. Sim, Álvaro despreza o velho camarada de armas. Queria que o gajo o olhasse para que o seu olhar lhe dissesse isso. Mas o outro está sério. Olhos desertos enterrados no prato, alheio do convívio de velhos comandos em Leiria. O Major Velez puxa uma cadeira e aborda mais intimamente os dois homens – “É tudo tão complicado, pá. Aquilo que Africa nos fez, aquilo que fizémos em Africa... ... não sei... ... o que cada um permitiu e não permitiu ao outro. Percebem, pá? Pá... ... enterrar uma data de míudos em merda até ao pescoço. Esqueçam a merda das vossas mãezinhas! Vocês são uns filhos da puta! Como é que dizia o cabrão do Italiano? Vocês são uns filhos da puta. Hoje eu vou foder as putas das vossas mães e amanhã vamos todos matar os sacanas dos turras e enrabar-lhes as pretas!” - “Sim, o discurso era mais ou menos esse, foder, foder, foder, matar os cabrões, foder-lhes as putas das irmãs, sempre a levar porrada, a passar frio, a passar fome. Odeia cabrão, odeia meu filho da puta. Tem medo, tem ódio, tem fome. E agora, vai, busca, cão, busca!” - pensa António, enquanto Velez continua – “pá, foder a cabeça aos míudos. E porquê? Porque é preciso! Porque se não ficarmos todos um bocadinho fodidos poucos encontraremos a raiva para fazer o que tem que ser feito. Não havia comandos. Seria tudo tropa do “arre macho”, de farda e G3 às costas, prioridade um: salvar a pele. E depois dá nisto. Gajos destes. Sem África o Serafim continuaria provavelmente a vida toda lá no seu matadouro da parvónia. Lá odiasse os pretos, mas orelhas só cortaria aos porcos. Nós é que o fomos buscar. Se não lhe ensinámos nós o gosto do sangue, de certeza que o acordámos. Pior, encorajámos. Por muito que hoje nos custe, o Serafim serviu. Fez o que a Patria lhe pedia. Agora é fácil falar. Epá, e sim, é um filho-da-puta. Mas é ingrato condenar!” - Álvaro acena que não com a cabeça.. – “Não, Velez. Porra! Nós tinhamos a merda do coração congelado. Era para fazer, era para fazer. Acho que tinhamos que sentir euforia. Caramba, quando um gajo corre a 70 metros a metralhar-nos a adrenalina é essa. Ver o gajo estourar antes que nos acerte. Epá, e sim, todos tivémos prazer a matar. Tomarmos o terreno, vermos os turras a cair que nem tordos. E limpar, se tinha que ser varria-se. Epá... ... mas o que este filho-da-puta fazia aos pretos... … foda-se. Ter servido com ele, ter permitido, envergonha-me mais do que todas as vidas que tirei. Eu quero é que o gajo se foda.”.

O assunto morria ali. Tinham todos memórias menos más para reviver. Era o momento para isso. Muitos daqueles homens, provavelmente, só nas suas memórias, nas quais tinham vinte anos, se voltariam a ver.

Estaca zero da solidão - A Guilda dos Melancólicos - Anjos e Homens - Parte IV


Sent to yellowledbetterlx@hotmail.com, 
at 23:38:11 16-2-2004

Eduardo,
Finalmente consigo não adiar sentar-me a escrever-te este primeiro e-mail. Faço-o, acredita, cheio de saudades, que mesmo se só passaram duas semanas, não me consigo habituar à tua ausência, que nunca tive antes. É estranho voltar a casa e ver o teu quarto sempre e exactamente com tudo na mesma posição. Não termos as nossas conversas. Pego na guitarra e sinto saudades que lhe juntes a tua guitarra. Argh, sou um cromo sentimentalão. Mas ficar um ano sem ti, meu irmão, é isso mesmo que me faz sentir, saudade. Aliás, creio que esse é o signo actual da minha vidinha. Saudades tuas, saudades da Sara. Até dos pais, e dos seus sermões. Nunca tinha sabido o que é que é chegar a casa todos os dias e só ter o silêncio à minha espera. Tudo sempre tão tranquilo. Eu que por vezes me enfadava com a confusão agora sinto falta de tudo e fico contente se o telefone toca, seja lá pelo que for. Jantar sozinho, eis algo que me custa. Só ter a televisão ligada para me fazer companhia. Passar o serão no silêncio, deitar-me no silêncio. Tanto, tanto silêncio que pesa, pesa mesmo... :o| Sabes, acho que ainda nem caí bem em mim de toda esta confusão. Só agora acho que me começo a aperceber que perdi a Sara, à medida que os dias passam sem a ver ou ouvir a sua voz. Os primeiros dias foram como uma semana de mais trabalho, ou quando ela vai de férias com os pais. Algo assim. Mas agora a minha rotina começa-me a explicar que a perdi, que não a volto a ver, pelo menos como a minha Sara. Como reajo? Eu tenho a certeza que fiz o que era certo, que fui fiel às coisas em que acredito. Mas custa, nem sabes quanto. Dou por mim a inventar razões para lhe ligar. Agora sinto raiva do que ela fez, das coisas que disse, daqui a pouco saudades, como se tudo o resto pouco importasse. Nunca pensei que pudesse chorar tanto. Há noites em que choro até que se me esgotem as lágrimas. Chego a sentir como se tivesse a garganta queimada do choro soluçado. Ninguém sabe. Ou se calhar todos mo adivinham na cara, quando entro no escritório no dia seguinte. Olha, sei lá.... Mas vou ter que esquecer. Decidi que não me vou deixar arrastar para a depressão. Mas francamente também ainda não sei muito bem qual é que é o melhor caminho para seguir em frente. Quando trabalho, esqueço. O pior é a noite, o tal regresso a casa. O Hugo tenta fazer-me companhia, o Afonso também. Às vezes vêm cá jantar a casa, às vezes bebemos um copo. Mas claro, não se tapa um buraco do tamanho daquele que eu sinto com a amizade do bom do Hugo, nem do Afonso que tem a sua Guida e a sua vida. Por isso, olha, decidi uma coisa. Preciso de uma fuga para a frente. E aqui entram as boas notícias. No próximo mês terei escritura da casa. Estou decidido, logo que tenha a chave na mão, mudo-me. Assim como assim, estou sozinho. Portanto mais vale que seja uma solidão com a minha cara. E sempre mantenho a cabeça ocupada na aventura de viver sozinho, organizar a casa. Acho que vais gostar muito quando a vires. É especial. Não é o apartamento luxuoso da Ericeira. Mas é... ... olha não sei explicar. Quando vi encantei-me. A mãe tinha razão. Sim, vais gostar do cantinho do teu irmão. :o)
Mas tenho mais duas estórias para te contar, ambas que me ocorreram hoje. Cada uma estranha a seu modo. Ouve só...
Hoje fui ouvido na PJ por causa da falsificação da assinatura. Por aí, a oeste nada de novo. Não me adiantaram nada e eu nada lhes adiantei. Quando saí da PJ, entrei numa cafezinho das redondezas, e quem vejo? A infeliz da brasileira do Lux, a do rapaz assassinado. Falei com ela. Não te sei explicar, mas senti vontade de o fazer, de me sentir humano, de lhe estender a mão, sei lá. Tinha um ar tão desamparado. Nem parece meu, eu sei. Mas olha, fiz-lo e senti-me bem. Conversámos imenso. Falou-me dela. Falou-me de tanta coisa. Uma pessoa diferente, tão diferente de mim. Mas eu senti-me bem, ali a falar com ela. Vim embora, mas não me apetecia, a sério que não. É estranho, há coisas estranhas, não achas? O caminho tão longo e tão rápido que se percorreu desde a maldita passagem-de-ano, traz-nos aqui.
Depois fui ver o Rogério, lembras-te dele, o correio do escritório? Está por um fio, creio. Acabado, fez-me imensa impressão. A esclerose múltipla está a um passo da vitória final, pelo que me disseram. Pobre tipo. No fim das contas, deixa de ser um destroço do hard rock dos anos 70 e passa a ser um Guru. Largou a sua erva e agarrou-se com unhas e dentes ao exoterismo. Tarots, eu sei lá! Falou-me de coisas estranhas. Fala com o mistério e o timbre dos profetas. Ou dos loucos e desesperados, penso cá eu. Agora o mais estranho: quando me vinha embora, agarra-me no braço e pergunta-me: “Estás pronto para ser um portador da luz?” – e diz-me que é isso que sou, um guia, um guia de almas, que um dia entenderei! – está a perdê-lo, o Rogério... ... se calhar estamos todos, pelos vistos... ... pobre Rogério, a eleger como guia o gajo mais desorientado, eheheh, lá se fodeu a bola de Cristal…
Mas chega de mim, e tu, esse Erasmus? Como começa. Quero saber tudo. Mulheres, farras, cidades... ... vá preenche o vazio do teu irmão com as tuas palavras com sotaque bolonhês.
Adoro-te,
Pedro



Anoitece. Luna percorre a calçada, abraçada sobre si mesma, envolta no xaile de lã, soprando vapor quente de respiração. Medita no singular do encontro daquela tarde. Em como se sentiu consolada por ver naquele quase desconhecido um rasgo de coração. Era agridoce olhar para alguém de quem francamente não retinha recordação e conhecer aquele que a arrastara do cadáver de João. Como se Pedro por ter participado daquele momento de intimidade trágica fosse de alguma forma parte da vida dela. E depois aquela atitude curiosa. Tristonho. Dócil, enigmático. Pedro fizera-lhe algumas perguntas amáveis e parecia genuíno quando perguntava dos seus sentimentos. Falara-lhe de vida e de procurar perceber o sentido das coisas, apesar da adversidade. Que a chave da felicidade era aceitar a perda. De si nada dissera, mas Luna podia sentir, sem saber explicar, que, ali, a sua tristeza não subsistia sozinha.
Finalmente entra a porta do velho prédio da Graça. Confere o correio e sobe os degraus de madeira em caracol, andar após andar. Todos os lances vencidos, até ao terceiro piso da sua porta, Luna congela. Horror. Do lado de lá, pode escutar a música de Djavan que enche o vazio do velho apartamento. Prende a respiração que se quererá soltar como corcel a galope, assim que tenha alforria. Não consegue sequer pensar. Talvez devesse fugir escadas abaixo em correria. Mas não sabe fugir, sem saber por isso se tenha coragem de ficar. A chave gira no trinco e Luna fecha os olhos e reza entre-dentes. A porta abre-se. A casa está imersa no silêncio. Só na sala brilham as luzes do verde digital do leitor de DVD’s. Caminha o corredor nessa direcção e tacteia o interruptor até que se derrame luz forte sobre a divisão.
Um grito. Um desespero chorado em urro de que não sabemos se ouviram os anjos e os espíritos mas que ouviram os homens.
Luna viaja de novo para lá das águas do seu baptismo.


Vem me fazer feliz
Porque eu te amo
Você deságua em mim
E eu oceano
E esqueço que amar
É quase uma dor...

João que persiste em não ir - A Guilda dos Melancólicos - Anjos e Homens - Parte III


A casa da Boneca está como Luna a deixou. Semi-desarrumada, depois da saída costumeiramente apressada para mais um dia. Uma luz débil de dia de Inverno entra pelas janelas de ambos os lados da casa e comunga a iluminar o corredor central que liga os hemisférios. Um copo sujo de leite sobre a bancada da cozinha, roupa suja pelo chão, almofadas. Sobretudo silêncio. O ar está agora mais frio. A Casa da Graça como que congelou num momento de tempo. O silêncio quebra-se do som da voz cantada e da guitarra. Sente-se a raiva crescer, abraçada na tristeza e na saudade. No caldeirão de sentimentos. Pela casa ecoa um urro do fundo do peito que estremeceria as próprias fundações do velho prédio, se alguém o pudesse escutar. Mas só um Anjo testemunhou o momento. E a energia da tristeza e da vontade de querer e não poder foi tão, mas tão grande, que o Anjo teve que se evadir num voo em direcção ao céu, a ver diminuir o prédio, a Graça e a Cidade, para que não perecesse do abalo a sua aura imortal. Entre paredes vazias estilhaça o vidro. E depois do som ensurdecedor, cai de novo o silêncio. E de novo só aquela voz melancólica ao som da guitarra. A Casa está de novo vazia...


Amar é um deserto
E seus temores
Vida que vai na sela
Dessas dores
Não sabe voltar
Me dá teu calor...

Solidões cruzadas - A Guilda dos Melancólicos - Anjos e Homens - Parte II

Um sumo e uma sandes ao balcão. Depois visitará o Rogério. Dali ao Hospital Polido Valente, até às três, tem com certeza tempo. Recentemente sente que tem mais do que tempo. A Pedro, na perda de Sara sobrou todo o tempo do mundo. É por isso que gosta das horas em que anda na rua e se sente menos só. É preferível estar na Policia Judiciária a fazer figuras de burlão do que estar sózinho, a tentar perceber o que aconteceu ao futuro que já não tem. Porque durante o dia consegue-se abstrair da noite que o espera. Às vezes até gosta de acordar e pressentir a azáfama de mais uma jornada. Tomar um banho, escolher um fato que o faça sentir-se bem e pensar na agenda do escritório. Por segundos, às vezes apenas por segundos, tem a ilusão de que recuperou o sorriso. Outras vezes não. São os dias, quase todos, em que acorda para numa questão de segundos se recordar do vácuo que se sente e pensar que quereria dormir de novo para ser algo em sonho ou mesmo nada ser. Os piores despertares são aqueles em que tem a clara sensação de ter sonhado com Sara, com o passado, com o futuro, com o presente perdido, sabe lá. Aí custa mais passar da realidade sonhada ao pesadelo da rotina. Abre os olhos e esperança-se de que se os fechar de novo volte o sonho, quem sabe volte Sara. Que importa que já é dia…? É talvez por isso que Pedro gosta de caminhar pela cidade. Não sabe se aperceber-se da vida que existe nos estranhos que passam o console ou aflija. Mas tudo é melhor do que a sua recente solidão, sem os pais, sem Eduardo, sobretudo sem Sara. – “Bah, fuga para a frente, Pedrinho, para a semana mudas-te.” - “Moço, é uma água.” - a primeira coisa que despertou a atenção a Pedro foi o sotaque adocicado de brasileira. Mas depois de que olhou a mulher que se chegara ao balcão, do lado oposto, ficou pasmado. Os olhos fitaram-se naquele semblante fechado, sem poderem crer que pudesse novamente repetir aquele encontro. – “Que foi, nunca viu não?” – É para ele que a mulher fala. Pergunta seca, e embaraço de Pedro que cora. Sente sobre si o olhar dos poucos clientes que comungam daquela hora morta de um snack-bar na Gomes Freire. A brasileira pega na garrafa e regressa à mesa. Pedro primeiro não soube muito bem o que fazer ou dizer. A sua timidez natural impedia-o de proferir, pelo menos de reflexo imediato, a pergunta que tem colada ao céu da boca. Por segundos baixou os olhos. Todos o devem olhar. Que embaraço. Morde a sandes pensativo enquanto se intriga com o inusitado daquele encontro. Por fim, é de rasgo súbito que o faz. Sabe que se pensar demasiado desistirá e sairá a porta, mudo. Por isso contorna o balcão e aproxima-se da mesa onde a rapariga retém o olhar parado algures entre a desatenção ao jornal, o café e o vazio. – “Desculpe...” – Luna levanta os olhos surpreendida. Pedro apressa-se a falar em antecipação à eventual resposta rude que trucide o que ainda não disse – “Lamento há pouco... ... estar a fixá-la. Distraí-me a pensar de onde a conheceria e nem me apercebi. Não quis ser inconveniente. Lamento...” – “Mas a gente se conhece?” – Luna olha Pedro, erguendo mais os olhos que a cabeça. Que responder? O rapaz olha o chão. Sorriso amargo, piedoso, talvez seja isso. Sabe que tem o cérebro cansado demais por aqueles dias para dar uma resposta que seja mais pensada do que sentida. – “Se nos conhecemos...” – ergue as sobrancelhas - “É irónico, eu só queria que não pensasses mal de mim. E agora não sei que responda. Cruzámo-nos um dia destes, não importa.” - E virou costas para regressar ao resto do seu almoço. Talvez o tenha chegado a fazer. Mas depois estacou, a olhar a mulher num derradeiro momento de indecisão. Luna não sabia o que pensar daquele estranho que a fitava como se estivesse pintada de cores bizarras - “Eu não sei muito bem dizer estas coisas. Francamente, nem sei se as devia dizer. Mas olha, pensa o que quiseres. Algo de estranho me diz que não devo virar as costas e fingir que nem vi.” – os olhos dançam entre o encontro dos de Luna em expectativa e o vazio evasivo – “ Eu... ... eu lamento imenso o teu amigo...” - Pedro calou-se e ficou a fitar os olhos de negro liquido da rapariga, como se esperasse deles redenção de um pecado que tivesse confessado, ali e então – foram segundos, uma efémera fracção de segundos, para que os olhos se inchassem de lágrimas prestes a brotar – “Meu noivo... ... quem é você?” – a pergunta é quase de raiva, como que contra a audácia daquele estranho de esgravatar a ferida aberta. Por isso os olhos de Pedro de novo em fuga, para lá da montra, para a chuva e para as paredes da Judiciária, do outro lado da rua. E quando responde, pronuncia as palavras mais como se as abandonasse do que como se as dissesse, de olhos fixos num ponto distante e imprescutável - “Já alguma vez te perguntaste, no que pensarão as pessoas na azáfama na rua? Recentemente comecei a pensar mais nisso. Estarão intimamente tão tristes como eu me suponho? Sentir-se-ão sós como eu? À deriva? Assim de repente, eu sei, eu sei, nada disto que te digo fará nenhum sentido. Mas na verdade faz todo o sentido. Porque nada mais me moveria a estar aqui, a sentir-me meio tolo.” - encara-a de novo. Sorriso tristonho – “Chamas-te Luna, não é? Chamo-me Pedro.” - Luna está pasmada. Não sabe o que há-de dizer mas instintivamente convida o rapaz a sentar-se. Talvez não faça nenhum sentido deixar que aquele estranho de olhar vazio se sente na sua mesa. Mas para Luna já nada faz grande sentido. E até aquele homem despropositado será melhor que a solidão de mais uma tarde.


I lost my gun today when I left you and I'm the laughingstock of a lot of people. I wanted to tell you. I wanted you to know and it's on my mind. And it makes me look like a fool. And I feel like a fool. And you asked that we should say things - that we should say what we're thinking and not lie about things. Well, I can tell you that, this, that I lost my gun today - and I am not a good cop. And I'm looked down at. And I know that. And I'm scared that once you find that out you may not like me.

sábado, 22 de setembro de 2012

Casos de polícia - A Guilda dos Melancólicos - Anjos e homens - Parte I



O nome dado à categoria angelical da qual Deus mais se utiliza para fazer milagres, fazendo com que a humanidade evolua, através de experimentos e experiências de vida


O edifício da Polícia Judiciária, na Avenida Gomes Freire, tem as entranhas desenhadas numa escada de caracol em espiral larga que desemboca nos andares e nas portas do velho prédio, em que a pedra de tons claros confere à luz uma tonalidade tranquila. A atmosfera é efectivamente calma e os corredores dir-se-iam vazios de vida, se por vezes não vissemos alguém sair ou entrar uma porta. Uma mulher atarefada que assoma a abraçar uma resma de documentos descabelados fora da ordem dirige o olhar indagativo a Pedro - “Sim? Procura...?” – o rapaz aponta o seu distintivo de visitante agrafado à aba húmida do casaco - “Inspector Alcides, fui notificado par...” - “Ah, sim, aguarde um instante, o Sr. Inspector já o chama. Como se chama?” - Pedro identifica-se e a mulher comunica a sua chegada para lá da porta cinzenta. Depois desce as escadas, para que a tamancada na pedra dos degraus interrompa o silêncio, rabo gordo a badanar nas calças ruças. Pedro aguardará então. Fisionomia fechada. Elementarmente tristonha. Agora enfadada. Abomina as esperas e esta já se arrastou ao ponto em que o algum nervosismo esmoreça para ser sobretudo impaciência, saturação. Aquelas notificações, a si e à mãe, para prestarem depoimento, primeiro espantaram-no. Mas reflectindo alguns instantes a surpresa dava lugar ao sentimento de evidência em corusco. Contas feitas, espantoso seria que o assunto morresse por ali. A guerra estava provavelmente apenas a começar e não haveria machado que pudesse cortar, assim, por dá cá aquela palha, as amarras que o ligavam, a si e aos seus, a toda aquela estória. Por certo que não: as consequências desfiadas do novelo sujo lacerariam ainda até, saber-se-ia lá quando. A porta abre novamente e uma cabeça grisalha assoma - “Pedro Henrique Pizarro Lobo?” - “Sou eu.” - o polícia faz-lhe sinal para que entre – “Inspector Alcides...?” - o outro acena que não e e um gesto indicativo aponta para o homem avantajado que, de costas para a porta, contempla a chuva que fustiga lá fora. Pedro dirige-lhe uma saudação e o homem vira-se, como se sacudido das suas meditações, embaladas pela chuva - “Sr. Pedro Henrique... ... mas sente-se, sente-se! Desculpe ter-lo feito esperar.” - Pedro e o Polícia tomam os seus lugares nos lados opostos do tampo da secretária. Alcides é um homem grande. Pode-se dizer que é gordo. Pelo menos é um homem grande a quem escapou uma pança, que a camisa azul, demasiado justa, não disfarça. Jeans coçados, cabeleira desgrenhada de preto, onde assoma algum grisalho, rosto cansado, e pelo, muito pelo, que lhe sai por onde quer que o tecido permita, nos braços de mangas arregaçadas e no último botão aberto no peito - “Sabe porque aqui está?” – Pedro cruza a perna e aconchega a gabardina desmazelada ao colo – “Sim, suponho que sim.” – sorri, um sorriso que transmite ironia, cansaço e graça pura e simples, sem que as coisas pareçam sequer incompatíveis ao inspector da Judiciária. O inquiridor olha para as folhas e fala do que Pedro já sabe. De uma queixa-crime de uma instituição bancária contra uma ex-funcionária por uma livrança falsificada – “Sabe alguma coisa destes factos?” - a pergunta é quase aborrecida, como se não esperasse realmente levar dali o que quer que fosse que se aproveitasse. Todo o rosto do Polícia parece descaído, desde as olheiras em papo às bochechas e ao lábio que parece que se pronuncia num beiço de míudo fedúcio. Pedro abana a cabeça em negação e olha-o de sobrancelhas levantadas e lábios franzidos em desdém pela hipótese - “Mas não sabe de nada? Desconhece a existência destas livranças?” - Pedro parece finalmente despertar da sua meia apatia. Endireita-se no espaldar da cadeira e depois inclina o corpo mais sobre a secretária do inspector: - “Eu as livranças conheço. Sei que existe uma em que a assinatura da minha mãe é falsificada, uma em meu nome que nem assinatura tem...” - “Uma em seu nome? “ – “Que provavelmente nem está no vosso processo, não é?” - o rapaz sorri e Alcides pressente uma ponta de gozo naquela forma descomplexada de lhe insinuar que sabe mais do que ele – “Então, Senhor Pedro, afinal o que é que sabe? Diz-me que desconhece o assunto e no entanto fala-me de livranças. Por que via as conhece?” - “Mostrou-mas o Departamento Jurídico do Banco, a mim e ao meu pai. Fomos nós que revelámos a falsificação da assinatura. Aliás, basta comparar a genuína com a forjada para que não restem dúvidas. Depois nada mais sei. Parece-me que é um problema entre o Banco e a sua funcionária...” - O polícia coça a barba que lhe metaliza o rosto e reflecte com os olhos no tecto. – “Comecemos então por outro lado. Que relação então é que os liga, o senhor e a sua mãe , à queixosa e a esta Marília Reis?” - “Pensei que soubesse... ... enfim, a Dona Marília Reis é mãe da minha ex-namorada e era a minha gestora de conta no Balcão de Algés do B.I.C.I.. e ...” – “A sua ex-namorada? Sara Reis, portanto...?” – “Sim, de resto a minha relação com a livrança, aliás com as livranças não deveria ser nenhuma. Nunca tive conhecimento ou envolvimento em tal. Quanto à minha mãe, a única relação que tem com os factos e as pessoas é um conhecimento absolutamente superficial da mãe da Sara e, enfim, o facto de ser garante do empréstimo de compra de casa que estaria em curso.” - Alcides olha o vazio e esse olhar, mais as sobrancelhas que se franzem em dúvida explicam a Pedro que tenta dar um sentido a toda aquela estória. - “Então não sabe porque via as livranças existem...? Quem as assinou. Não foi o senhor, e supõe que não tenha sido a sua mãe.” – Pedro sorri, e assoma mais ao lado de lá da secretária do polícia, cotovelos agora assentes sobre a mesa - “Olhe, senhor Inspector, isto assim nunca mais nos despachamos. Eu não tenho motivos para jogos de gato e de rato. Nesta estória já perdi o que tinha a perder. Por isso em vez de me fazer perguntas, deixe que lhe conte o que sei sobre todo este caso. O demais, escusa de perguntar. Não sei. Francamente também não quero saber. Parece-lhe bem?” – O homenzarrão peludo olha Pedro. Está surpreso, com efeito. Com a cabeça acena que sim: - “Bom, senhor Pedro, vamos lá então... – e Pedro conta a sua estória. Fala rápido, sem hesitações, como se cada palavra fosse um argumento definitivo ao qual não admita dúvidas, sejam elas da Polícia Judiciária, do B.I.C.I, de Deus ou do Diabo. E conta como os documentos entregues para empréstimo habitação foram utilizados para forjar um empréstimo e um aval, e da carta que receberia meses mais tarde: Sofia Pizarro, interpelada para pagamento da dívida, e de como o empréstimo-habitação nunca tinha sido sequer levado adiante dentro do banco e do estranho pedido de empréstimo que havia sido formulado ao seu pai, meses antes – “Em resumo, senhor Inspector, perdi o meu empréstimo, e tive, e pelos vistos tenho, que me ralar em justificar ao mundo factos em que sou simples lesado. Quanto a quem armou isto tudo e porquê... ... que lhe posso dizer? As minhas especulações não lhe interessarão grandemente, mas eu faço-as à mesma. Foi a Marília Reis e só ela. A filha e o resto da família nada têm a ver. Por algum motivo que desconheço ela meteu-se nesta grande alhada. Não sei porquê. Terminei a minha relação com a filha. Perdi o contacto com toda essa gente. Por isso o meu único interesse é que não mais me incomodem com estes factos.” – faz uma pausa  - “Fui claro?” – Alcides balbucia que sim, que crê que foi – “Vou-lhe pedir o seguinte: enquanto reduzo o seu depoimento a escrito, importa-se de me responder a um teste?” – faz deslizar uma folha sobre a mesa  – “Para uma avaliação da sua caligrafia...” - Pedro sorri, um esgar de escárnio – “Sou suspeito, Senhor Inspector? Não me quererá constituir arguido?” – “Não creio que seja francamente necessário. Não quer fazer o teste?” – o rapaz encolhe os ombros – “Por quem é! Farei os testes todos que queira, não tenho nada a esconder.” - e já a atenção se inclina sobre o formulário – “Tem uma caneta?” – o polícia oferece uma bic, enquanto começa a martelar o teclado de um computador de ares obsoletos. Pedro acha-lhe graça, à forma como procura desorientado as letras, fazendo-lhes mira só com dois dedos indicadores, desajeitados à função. Enquanto preenche o teste com a sua letra, quase divertido, olha de soslaio a secretária do outro. Alguns processos amontoados, um cinzeiro cheio de beatas retorcidas, um corta-papel sob a forma de um florete em miniatura, as canetas bic e a caixa das disketes. Pensa para consigo que a Policia Judiciária não dá ares muito diferentes aos de qualquer repartição pública. Olha o pobre Alcides que morde o lábio, enquanto procura o acento circunflexo naquele teclado danado. – “E tu Alcides, meu caro, és um recheio bem a propósito.” - a tecla misteriosa lá se revela e o Alcides ao cabo dos trabalhos termina o seu relatório de inquirição. Lê em voz alta, com o timbre enfadado de padre em casório sem chama. Pedro acha que sim a tudo e assina por baixo.


We might be through with the past, but the past ain't through with us