Don’t go around tonight,
Well, it’s bound to take your life,
There’s a bad moon on the rise.
Aquele som baixo e entrecortado de pás e vento. Zumbido amplificado de insecto gigante. Sempre essa imagem auditiva recorrente dos helicópteros que se aproximam do povoado abandonado pelos colonos. Louvado seja Deus que consegue a mais das vezes reprimir o resto do sonho decalcado das suas memórias. Deus? Mas Deus não tem nada a ver com aquele dia. Deus não tem nada a ver com aquela guerra, a não ser talvez por o ter deixado sobreviver.
Em Nambuangongo o tempo cabe num minuto
em Nambuangongo a gente lembra, a gente esquece
em Nambuangongo olhei a morte e fiquei nu.
Tu não sabes mas eu digo-te: dói muito.
Em Nambuangongo há gente que apodrece.
O ponteiro da velocidade indica os 210 Km/h e as linhas da auto-estrada serpenteiam ao olhar de Álvaro. O dia está bonito. Uma daquelas manhãs de Inverno em que o azul do céu é pálido, a cor que deve ser a do frio daquela manhã de Sábado. Não há trânsito e o Mercedes voa estrada fora na direcção de Leiria. Álvaro aspira fumo de cigarro e embala-se no som de Vangelis. Aquela música conhece o seu âmago, traz-lhe a alma cá para fora. Se não fosse na estrada fecharia os olhos para a intuir melhor. O que sentirá ao concretizar-se aquele dia? Mesmo passados todos estes anos, rever aqueles rostos esgravata a terra que colocou sobre o passado. Já não é uma camada de terra fina. São torrões que os anos e as brumas da memória acumularam. Mas resta a verdade inegável que sob todo aquele peso térreo repousam as memórias de Moçambique, aquelas que por vezes regressam fugazes, a fazer-se anunciar pelo som de helicópteros a abordar a povoação naquela que foi a jornada mais negra de todos os seus dias de guerra. E se aquele almoço com os antigos camaradas arranhar um pouco as cicatrizes, Álvaro também acha que lhe reforçará a tranquilidade de que o tempo passa e os fantasmas, bem como os vivos são sensíveis à erosão. É sempre isso que pensa - “Estamos a envelhecer, o tempo passa.” - Em alguns dos rostos é como se a memória que tinha desses mesmos rostos se fosse exaurir. Como se não fossem os mesmos, ali à mesa, sorridentes, gordos, grisalhos, carecas, enrugados. A estrada consome-se veloz. E quando viajamos acima dos 200, Leiria é já ali. E por isso o Mercedes já abandonou a auto-estrada e entrou nos arrebaldes rurais da cidade. Dentro em breve, Álvaro chegará.
Os Cães pertenceram à 7ª Companhia de Comandos, que operara em Moçambique, nos tempos da Guerra Colonial. Vinte e cinco homens unidos pela fatalidade de ali estarem e pelo voto de serem Cães. As semelhanças acabavam ali. Mas eram as suficientes para que os Cães fossem coesos quando saíssem para o mato. Eram da “7ª”. Mas antes disso eram Cães e o Grupo estava acima de tudo e forjara a ferro e fogo, a expressão não poderia ser mais bem escolhida, literalmente a ferro e fogo, os laços entre aqueles homens. Amizade? Não, não seria amizade. Deveria existir uma palavra específica para os laços que se criam entre os homens que partilham a experiência de vida e morte em combate. Não é amizade. Diabos! Álvaro tinha até a certeza de que odiava até hoje alguns dos camaradas. E no entanto subsistia por eles esse mesmo sentimento. Comunhão, gratidão, confiança... ... não sabia bem. Haveria ainda que inventar essa maldita palavra. Sete mortos, cinco amputados, um paraplégico e um cego. Eis a estatística sombria dos Cães ao longo da comissão. Sabia recitar estes números hoje como se fosse ainda o ano de 1972 do seu regresso à metropole. E sabia recordar alguns dos momentos quentes associados à frieza dos números na folha do Comando, se não o conseguisse evitar.
“Sagento Lobo! Pôa, este gajo está cada vez mais lindo! Páqui! Pó pé da apaziada” – Álvaro desapertava a gabardina e sorria para o “Cavalho”. O Carvalho que não sabia dizer os “r’s” e a quem a sorte tinha sido madrasta ao chamaren-lhe Carvalho. Os camaradas costumavam troçar - “Meu Geneal, apesenta-se cabo Cavalho, apontado de metalhadoa ligeia.” – pior seria não saber dizer os “V’s”, comentara certa vez um capitão. Álvaro contorna a mesa em busca de um lugar e retribui os cumprimentos – “Álvaro, meu sacana! Pôrra pá, perguntava-me se virias!” – Álvaro surpreende-se a reconhecer António – “Tó! Epá, pôrra, dá cá um abraço!” – os dois homens abraçam-se e entreolham-se surpreendidos – “Epá, senta-te aqui ao pé de mim! Foda-se, quantos anos passaram?” - “Não sei, Tó... ... demasiados? Mas vá, venha algo que se beba!” – Os dois homens esgrimem um rol de perguntas. O que é que fizeram da vida, se estão casados, se têm filhos, onde moram, em que trabalham? No regresso da colónia trocaram um abraço, um abraço forte, gémeo deste que celebraram ainda agora. Hoje as lágrimas afloraram aos olhos de António. Nem tanto a Álvaro, mas talvez as tenha sentido dentro dele. Há 30 anos ambos choraram nessa despedida. E depois cada um levou o seu caminho, sem trocar uma morada, um contacto qualquer, uma combinação. Era absolutamente necessário esquecer Africa. E por isso aquela amizade tinha que ficar para trás, ambos sabiam demasiado bem isso para que um tivesse que explicar ao outro o que quer que fosse. Álvaro atravessou a margem para Almada, de regresso a casa e ao namoro com Isabel. Emprego no Banco Fonsecas & Burnay, o casamento marcado, Isabel que foge com aquele jeitoso do P.C.T.P.-M.R.P.P., o retomar dos estudos, Sofia, o segundo emprego como barman no casino, o casamento, cinco meses depois nasce Pedro, termina Gestão, a vida vai-se compondo, encomenda-se Eduardo, o resto é história, e aqui está, 30 anos volvidos, Álvaro, empresário de sucesso, casado com Sofia Pizarro, a escritora famosa, ela mesma, pai de dois rapazes, aqui, no almoço de reencontro da “7ª”, trinta anos após o fim da sua comissão, à conversa com o melhor homem que conheceu então, António, Tó. Álvaro podia ser o olho mais aguçado do Grupo, talvez mesmo da Companhia. Um atirador exímio, um gajo porreiro para estar ao nosso lado numa escaramuça no mato. Mas Tó era o maior coração que alguém já teria metido dentro de uma farda de um comando. António nem deveria ter sido comando. Não tinha a morte dentro de si, tinha a vida. De se ser um pulmão de atleta, um poço de coragem e generosidade, não se faz um comando. António até era bom a matar, mas não tirava prazer disso. Tão pouco Álvaro. Só que António se recriminava a cada vida que tirava e Álvaro sabia aceitar as coisas como elas eram. E isso fazia toda a diferença. O que é que levava os homens aquela guerra? O recrutamento é uma resposta óbvia. A bota pesada do Estado Novo a empurrar gerações de míudos para a morte no mato. Mas, e o ser comando? Saberiam realmente ao que iam? A crueza da guerra vista na fila da frente numa cadeira de força especial. Álvaro agora tenta recordar. Porquê? Pelo desafio? Para honrar o nome do velho pai militar. Mais uma geração defendida em prestígio de armas? Nem tanto. Nem via o pai verdadeiramente como um soldado. O velho sargento-ajudante da Marinha de Guerra, a navegar toda uma vida em tempos de paz. Um homem duro a quem a vida dera uma vida dura, a enegrecer os pulmões no fumo de motores em que trabalharia até ser cuspido para a reforma. Até que anos mais tarde o fumo o mataria. O fumo de diesel dos porões a refinar nos pulmões que apodrecessem, o fumo dos 3 maços de tabaco que exauria por dia até que o cancro o derrubasse. Quem sabe? Mas Álvaro não se sentia filho de um guerreiro. Sentia-se filho de um escravo, de uma vida madrasta, de um pai ausente das longas comissões. Não, não era isso. Os Comandos eram o desafio. Superar-se. Alimentar o seu instinto vencedor. Se supunha minimamente o que o esperava? É engraçado. Primeiro pensara apenas na recruta. Sobreviver à provação, à dor, ao stress, à fadiga. Testar a virilidade dos seus 19 anos. Nem pensava seriamente na guerra. Em matar, em morrer. Isso veio depois, com Africa. Africa era muito diferente de Mafra. E tirar a vida seria muito diferente da recruta. Em breve, o míudo Álvaro aprenderia a aceitar isso. Mas a Guerra tem muito mais, muito, muito, muito mais. Coisas que vão para além de matar em combate e que Álvaro nunca aprenderia a aceitar.
“Mas pôrra, Tó, então e tu?” - “Eu, olha...” - “Fumas?”- “Naaa, deixei, vai para cinco anos” - “Mas dizias...” - “Pois. Epá, eu, olha, na altura voltei para Mértola. Aguentei lá pouco. Vim para Lisboa como tantos outros. Conheci a Luísa, casámos. E olha fez-se a vida. Trabalhei uma data de anos num Transitário. Depois, já se sabe, com as fronteiras, aquilo decaíu. Estive algum tempo no Fundo de Desemprego. Agora tenho a pré-reforma...” – “E míudos?” - “Tenho o meu rapaz, o César.” - os olhos verdes húmidos acendem-se, como nunca se acendem os olhos cinzentos do velho camarada – “Tens dois rapazes também, não é?” – “Sim.” - Álvaro aspira o fumo do cigarro e sopra-o para o ar – “O Pedro e o Eduardo. O tempo voa, meu velho. O Pedro é advogado, quer dizer, está a acabar o estágio. Qualquer dia casa. O Eduardo é mais novito, está na Faculdade a tirar Filosofia. É o pensador do clã.” - “O meu César foi calinas. Não quis estudar. Fartei-me de o chatear, se queria ser urso a vida toda como o pai ou culto como a mãe. Epá, mas sabes o que te digo. Cada um tem o seu rumo. E o César é um artista, não um marrão. Nunca deu para os livros. E, lá foi, fazer o que queria. Trabalha em luzes de espectáculos e lá não sei o quê. Monta aquelas luzes dos concertos rock e do teatro. E olha, é feliz e se calhar ganha mais que alguns doutores, pá!” – o amigo sorri e assente que sim, enquanto esmaga os despojos do cigarro contra o cinzeiro de barro. Afinal, ainda bem que veio. Porque é formidável rever o Tó. O raio do alentejano era sem dúvida uma das melhores pessoas que cruzara na vida. E juraria ali que essa chama não o abandonara com o passar dos anos. Aqueles olhos húmidos, o sorriso franco e aquele abraço a transbordar a humanidade que Tó sempre tivera em si. Caramba que sim, nunca poderia morrer sem voltar a abraçar o amigo, ainda que nunca mais o visse, e talvez assim fosse, depois de hoje – “Então, e o meu amigo Lobo, continua um senhor de mulheres?” – Álvaro vira-se surpreendido.” - “Oh, Capitão Velez! Epá!” – “Major... “ – o militar ensaia um ar circunspecto. E depois desmancha-se numa gargalhada – “Que raios, homem! Bons olhos o vejam!” – e a mão pesada abate-se nos ombros largos de Álvaro, cumprimentando, com um sorriso e um aceno de cabeça António, do lado oposto da mesa. E esse que levaria a carne rapinada em garfada à boca interrompeu-se na surpresa - “Velez! Bolas, é bom voltar a encontrar esta rapaziada toda!” - o capitão que agora é major sorri de novo – “Mas olhem rapaziada...” – e assim dirige-se a todo aquele sector mais à ponta da longa mesa – “Está na hora de puxarem pelas carteiras.” - à medida que se expressa o tom altera-se em algo de seriedade e confidência – “estamos a juntar algum dinheiro para ajudar o Serafim. Vive com muitas dificuldades. Nunca superou África, enfim... ... o que puderem dar...” – Álvaro olha de esguelha a ponta oposta do grupo. Serafim retalha a carne no prato. Mudo, ar fechado. O rosto pequeno fendido em rugas sob a farta cabeleira quase branca – “Aquele filho da puta... ... perdeu aquele riso escarninho...?” - Velez bate o maço de tabaco na palma da mão – “Era uma bela peça, era. Mas a vida fodeu-o à grande. É um desajustado. Esteve preso, agora vive de uma pensão miserável de invalidez. Sonha que os pretos lhe vêm pedir as orelhas de volta... ... enfim...” - Álvaro e António entreolham-se e sabem que pensam mais ou menos o mesmo. O grande filho de puta do Serafim. É um desajustado? Lá há-de ser. Se António e Álvaro só queriam que Africa acabasse antes que os matasse, Serafim só poderia, provavelmente, sobreviver se Africa fosse para sempre. Mas não foi assim e agora os pretos reclamam as suas orelhas e os seus narizes e os seus testículos e sabe-se lá mais o quê, para que se reponha a ordem das coisas e sendo de novo o justo, justo, a guerra possa descansar – “Caramba, Lobo, mesmo depois de todos estes anos, vocês não chupam o gajo – “É um filho da puta, Velez” – e Álvaro meneia a cabeça que sim, que é mesmo isso que o outro é, ainda com os olhos fixos para o outro lado. Recorda, odeia, não, odeia não. É o tal sentimento que os une, o tal que está por inventar que o impede. Não se odeia o braço que nos amparou no pior dos momentos. Mas despreza. Sim, Álvaro despreza o velho camarada de armas. Queria que o gajo o olhasse para que o seu olhar lhe dissesse isso. Mas o outro está sério. Olhos desertos enterrados no prato, alheio do convívio de velhos comandos em Leiria. O Major Velez puxa uma cadeira e aborda mais intimamente os dois homens – “É tudo tão complicado, pá. Aquilo que Africa nos fez, aquilo que fizémos em Africa... ... não sei... ... o que cada um permitiu e não permitiu ao outro. Percebem, pá? Pá... ... enterrar uma data de míudos em merda até ao pescoço. Esqueçam a merda das vossas mãezinhas! Vocês são uns filhos da puta! Como é que dizia o cabrão do Italiano? Vocês são uns filhos da puta. Hoje eu vou foder as putas das vossas mães e amanhã vamos todos matar os sacanas dos turras e enrabar-lhes as pretas!” - “Sim, o discurso era mais ou menos esse, foder, foder, foder, matar os cabrões, foder-lhes as putas das irmãs, sempre a levar porrada, a passar frio, a passar fome. Odeia cabrão, odeia meu filho da puta. Tem medo, tem ódio, tem fome. E agora, vai, busca, cão, busca!” - pensa António, enquanto Velez continua – “pá, foder a cabeça aos míudos. E porquê? Porque é preciso! Porque se não ficarmos todos um bocadinho fodidos poucos encontraremos a raiva para fazer o que tem que ser feito. Não havia comandos. Seria tudo tropa do “arre macho”, de farda e G3 às costas, prioridade um: salvar a pele. E depois dá nisto. Gajos destes. Sem África o Serafim continuaria provavelmente a vida toda lá no seu matadouro da parvónia. Lá odiasse os pretos, mas orelhas só cortaria aos porcos. Nós é que o fomos buscar. Se não lhe ensinámos nós o gosto do sangue, de certeza que o acordámos. Pior, encorajámos. Por muito que hoje nos custe, o Serafim serviu. Fez o que a Patria lhe pedia. Agora é fácil falar. Epá, e sim, é um filho-da-puta. Mas é ingrato condenar!” - Álvaro acena que não com a cabeça.. – “Não, Velez. Porra! Nós tinhamos a merda do coração congelado. Era para fazer, era para fazer. Acho que tinhamos que sentir euforia. Caramba, quando um gajo corre a 70 metros a metralhar-nos a adrenalina é essa. Ver o gajo estourar antes que nos acerte. Epá, e sim, todos tivémos prazer a matar. Tomarmos o terreno, vermos os turras a cair que nem tordos. E limpar, se tinha que ser varria-se. Epá... ... mas o que este filho-da-puta fazia aos pretos... … foda-se. Ter servido com ele, ter permitido, envergonha-me mais do que todas as vidas que tirei. Eu quero é que o gajo se foda.”.
O assunto morria ali. Tinham todos memórias menos más para reviver. Era o momento para isso. Muitos daqueles homens, provavelmente, só nas suas memórias, nas quais tinham vinte anos, se voltariam a ver.