terça-feira, 18 de setembro de 2012

A última tarde de sonhos - A Guilda dos Melancólicos - Castelos de Cartas - Parte II


Não há vidas perfeitas. Uma vida perfeita é qualquer coisa como um caso de loucura. Talvez um psicótico possa ser absolutamente feliz no seu delírio. Mas a vida das pessoas normais é feita de conflito e de perda. Tem coisas boas, Sara acha que sim. Mas também tem lágrimas para carpir. E a vida da psicóloga de nariz polvilhado de sardas cor de mel também teve as suas agruras até hoje. Por isso é escolha de loucos esta de quem não se contente com o seu quinhão de merda e faça vida de partilhar as dores alheias. Se lhe perguntassem, ela diria que o Instituto Português de Oncologia está cheio de lições belas de vida. Mas fins felizes? Não, não conhece muitos fins felizes. Tão pouco será um fim feliz o de Luísa. E então? Porquê continuar? Será hipócrita incitar para a refrega o peão que está condenado? Sara sabe que não. O desafio da vida não está em esquivar os obstáculos. Mais tarde ou mais cedo o infortúnio acerta-nos em cheio. Ganhar é uma arte. Mas sobreviver à perda é o segredo da vida. E apesar de todas as perdas, lograr viver na tranquilidade de pura e simplesmente aceitar as coisas como elas são. Ou pelo menos poder morrer nessa tranquilidade, como o avô. É isso que Sara pretende aprender. A alquimia da dor e o unguento da aceitação.
Volta para o gabinete. É quase hora de almoço. À tarde fará a ronda da enfermaria. Mas por agora deixa-se ficar sentada na cadeira de pele gasta que há vinte anos talvez tenha sido digna do melhor dos oncologistas. Bate com a caneta prateada no tampo metálico. Sara sente-se inquieta, embora não soubesse explicar exactamente porquê. O Anjo, esse sabe-o. Cada vez mais e melhor. Continua incredúlo de que ideologia professe a força motora que empurra o destino em frente. Entenda-se que o anjo não quer ser suspeito de compreender ou conspirar com a Sorte. O Anjo também não sabe porque é que as coisas terão que ser como se desenham a cada hora. Mas sabe que definitivamente não é ameno o vento que não tardará a varrer Sara. Ainda não se exauriram quarenta e oito horas, em câmbio de mortais, para que mortais entendam, e já os factos se precipitam para que não duvide de que não se equivoca em tempo e espaço certo do destino da sua agenda. Há bem pouco o bisturi legista franquiava o peito largo do cadáver de João e um fio raro de sangue morto pingava sobre a pedra. Pedro e Álvaro saem agora mesmo da Sede do B.I.C.I..  Nos olhos cinzentos de Álvaro faísca algo de feroz que quem gostasse de especular poderia confundir com prazer. Nos olhos do filho, nada, desolação, exaustão da capacidade de entender ou decidir o que quer que fosse. Em outro ponto da cidade, naquele quarto de luz que parece irreal à retina dopada, Luna já despertou e toma a lenta consciência do mundo tal como ele é a partir de ontem. O transtorno do Universo que derrama como barro fresco da distorção das formas que supostamente teria, a desfilar perante o olhar de Anjo. A corrida frenética dos pirilampos azuis de uma ambulância a serpentear a serra. O corpo ensanguentado de Ana, agora no seu sono pesado de coma, o rosto envolto em ligaduras que escondam as feições rasgadas. O denominador comum é talvez só um Anjo e o desnorte de não saber porque lhe contam assim esta história.
Foi até agora e será um dia calmo. Tirando a senhora de há pouco. Ser o repositório da raiva de um ser humano, em momentos como este, agasta. Mas de resto será tranquilo. Com a ponte da função pública todos os serviços estão em gestão mínima. Sara, essa, como há pouco comentava em tom de graça, está em auto gestão. A Drª. Graça não veio, as estagiárias também não. Abre a agenda na página de 2 de Janeiro de 2004. Não tem consultas. Sim, fará uma ronda e depois sairá mais cedo. Bem vindo sejas, fim-de-semana. Vai descansar muito. O corropio das compras para o Ano-Novo, aquela noite surreal. Sente-se cansada pelo que quer um fim-de-semana a sopas e descanso. E Pedro que não liga... ... não diz nada desde que se despediu dela na madrugada da antevéspera. Ontem não apareceu para jantar lá em casa. É certo que ela também não lhe ligou. O dia foi um corropio, a azáfama de preparar a casa, receber os tios, cozinhar, a confusão do costume para ela e para Filipa, que a mãe anda sem o fôlego de outros Carnavais, olheirenta, semblante carregado. Preocupa-a deveras. Mas e Pedro que nada disse! Mesmo hoje, nem uma mensagem. Vai ao cabide e tira o telemóvel do bolso da gabardina. Não, não disse nada. Sara morde, como é seu hábito, a antena do aparelho, enquanto pensa. Têm que falar. A barreira psicológica da passagem de ano recordou-lhe que Julho e o casamento estão a escassos sete meses. E tudo por fazer! A escritura far-se-à em breve e depois têm mil e uma despesas pela frente com a mobília. Se depender do namorado, as compras ficarão adiadas, fim-de-semana após fim-de-semana. E o casamento? Ainda nem têm reserva para o copo-de-água. Sente que falta tudo e preocupa-se com a desorientação de quem tem o caos para compor e nem bem sabe como. Mas é uma preocupação com um travo adocicado à felicidade dos seus sonhos. O Casamento... …a sua casa! Apaixonou-se à primeira vista e no dia seguinte arrastava o namorado – “Não é linda?” – na luz soalheira da Ericeira, um apartamento aconchegado com vista para o mar, o mar que sempre a cativou e a quem confidenciou as mágoas e as paixões. “Môr, quando casarmos vamos viver para onde eu possa adormecer no teu colo a ver o mar, boa?” - a ideia era fixa e antiga. Pedro diria sempre que sim. Ria-se sempre e dizia sempre que sim, mesmo se às vezes Sara sabia que sim era “não”, ou simplesmente “talvez”. Mas desta vez pouco importava o que dissesse, seria o mar da Ericeira e Pedro encolheria os ombros - “Tenho escolha?” - não tinha. Prémio de consolação, Sara ficaria pendurada no seu pescoço, a morder um beijo e depois sairia aos pulos pela casa, que afinal já era sua. Pedro não sabe, mas Sara escapa-se por vezes a caminho da Ericeira. O velhote da imobiliária já se ri quando lhe entrega a chave. Ela sorri tímida e encolhe os ombros - “Vou sonhar um bocadinho. Eu sei que sou tonta...” – E fica por lá, às vezes para lá de uma hora. Acaricia a bancada de pedra da cozinha e pensa como acondicionará por ali o espólio do seu imenso enxoval. Mexe nos bicos do fogão e investiga os detalhes do aquecimento central e da hidromassagem. Sonha acordada com uma casa cheia. Receber amigos, convidar os pais e os sogros e fazer um brilharete com o seu inigualável frango na cataplana, servido no seu Vista Alegre, pois claro! Quem dera que Julho fosse já amanhã. Um filho. Sim, quer ser mãe. Ali vai ser feliz. Todos os dias! A felicidade é uma fórmula de sabedoria. É a sabedoria de sonhar o que está além e aceitar o que esteja aquém. Sara nem pede muito. Pedro ri-se e chama-lhe côquette, com as suas toilletes e artes com que por berliques e berloques parece que a espera uma vernissage, mesmo se vai só à esplanada da praia. E os brinquedos: o telemóvel da última geração, o computador portátil e o relógio de estilista; e o cabeleireiro e os cremes de pele e as roupas de marca. Pedro abana a cabeça e Sara responde que gosta das coisas boas da vida - “ Queres a tua mulher tratada como uma sem-abrigo?” - Mas a verdade é que isso pouco importa. Os brinquedos e as roupas e os cremes são luxo. Felicidade é outra coisa. Felicidade é quando vai com o namorado ao acaso por uma estrada de campo, num fim-de-semana qualquer. Maldizer-lhe a colecção de CD’s que tem no carro e jogar aos enigmas. Felicidade será arrastar o marido da cama num Domingo de manhã do próximo Inverno, para este lhe pagar um pequeno-almoço. A meia de leite clarinha a ferver e o Palmier coberto. Ficarem ambos sentados a ver a azáfama das famílias na corrida pelo pão da manhã. Sim, é isso!


O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem." Tempo. É este o bem mais escasso das sociedades ditas desenvolvidas, a preciosidade que, muitas vezes, se intromete nos trilhos da felicidade. Entra-se num ramerrame frenético e deixa-se de ter disponibilidade para a família, amigos, filhos, para si próprio, para fazer o que bem se entende

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