“Então, como é que tu te chamas?” – a mulher interpela-a do outro lado da secretária de tampo de vidro daquela divisão semi-despida. É uma cinquentona olheirenta. Cabelo longo e preto, dentes amarelecidos pelo fumo e lábios cor de vinho – “Filipa” – “Hmmm. E és maior?” – Filipa acena que sim. – “Portuguesa, certo?” - A mulher acende um cigarro e observa-a, de olhos semi-serrados do fumo que se eleva – “És bonita… … mas estás com mau aspecto, rapariga. Olheirenta. Credo, pareces doente! E que roupa é essa, hein? Ai, Credo!” – a mulher pondera por um instante e depois arranca enérgica - “Mas depois tratamos desses detalhes, portanto. Primeiro para que percebas. Aquilo que te estamos a propor é que faças acompanhamento. Ou seja, proporcionamos um serviço de acompanhamento a cavalheiros que precisem da companhia de jovens elegantes e educadas para lhes servirem de companhia em ocasiões sociais e outras. E portanto se começares a colaborar connosco é isso que farás, conforme marcações prévias em que serás contactada por nós. Pela nossa parte garantimos-te apoio numa série de coisas. Fazemos, portanto, o teu agenciamento, garantimos segurança quando for necessário e trataremos da tua imagem. Vestuário, maquilhagem, ginásios, massagens, enfim, tudo para que estejas ao nível da qualidade que oferecemos, coisas assim portanto e que depois definiremos melhor. E claro, trataremos da tua sessão fotográfica para o site da Internet. Os honorários pelos teus serviços, que te explicarei a seguir serão divididos inicialmente numa percentagem de quarenta sessenta, favorável à agência. E isto de forma, portanto, a compensar o investimento inicial que faremos em ti e na tua imagem e contactos e que é de cinco mil Euros. Uma vez que tenhas liquidado o valor desse investimento continuaremos a pedir dos teus rendimentos uma comissão de agenciamento de vinte por cento.” – Estás-me a seguir, rapariga?” - Filipa acena de novo afirmativa. Se não estivesse tão chocada com o ponto a que chegou, talvez risse. Aquela matrona parece-lhe uma vendedora da Avon, como aquela amiga da mãe de que não se lembra do nome, a expor o produto, maquinal, martelada, quase indiferente. Quase? Só que o produto é ela. Não, Filipa, não tem graça.. … e por isso nem te ocorre sequer a ironia. Seria demasiado. – “Agora, escuta-me bem neste ponto.” - e a mulher aponta o isqueiro dourado na direcção de Filipa, chocalhando as pulseiras no movimento rápido do braço sarapintado de sinais pretos – “O que tu fazes é acompanhamento. E portanto nem eu nem ninguém tem nada a ver com o que fazes com a tua vida. Cobramos apenas uma percentagem por te agenciar em, vá, nos teus serviços, como assistente, como entertainer. Percebes o que te estou a dizer? Os teus serviços têm um preço. Quando receberes directamente do cliente, entrega-nos a comissão, sempre em dinheiro. Se a agência receber, entregar-te-à também os teus honorários, deduzidos portanto da nossa comissão, sempre em dinheiro. É uma actividade simples em que para proveito de todos mantemos tudo simples. E por isso não se complica. O que tu fazes é contigo. Isto é entretenimento, companhia. Mas tu estás a perceber, rapariga?” – A mulher olha Filipa fixamente. Não diz nada. Como se tacitamente lhe dissesse que sem aquele ponto assente a conversa não passaria dali. Mas a rapariga nova é esperta. Inocente, por enquanto, mas esperta que chegue para perceber o que lhe dizem – “Sim, eu percebi, não se preocupe. Eu percebo o que quer.” – “Eu não quero nada, filha!” – Sorri e olha de novo Filipa. Um sorriso que é quase simpático – “Epá, mas tu és de facto muita bonita. Mete-te lá de pé outra vez.” – Filipa obedece. Assim exposta ao olhar da outra ainda se sente pior. – Aquela velha madame meneia a cabeça como que a dizer “que sim, que sim, que está ali uma mercadoria com classe.” – “Vais deixar a freguesia com água na boca. Falas bem inglês?” – Nova afirmativa – “Isso é muito bom, rapariga. Vá, senta-te. Vamos lá começar a tratar de ti. Digo-te uma coisa…” – o isqueiro de prata bate na mesa – “Uma miúda como tu, se tiver juízo, pode organizar a vida, vai por mim, filha.”.
Beauty queen of only eighteen
She had some trouble with herself
He was always there to help her
She always belonged to someone else
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