sábado, 8 de setembro de 2012

Insónia da charada - A Guilda dos Melancólicos - As horas brancas de Pedro - Parte II


Pouco passam das três da madrugada. Pensa que faltam menos de doze horas. Na viagem de regresso permaneceu calado e distante. Voltara a chuviscar, distorcendo-lhe o desfilar das luzes da estrada na mutação de um vidro desfeito em mil gotículas. - “Estás feito num oito...” – “Sim, um pouco. Estás bem para conduzir?” – Eduardo acenava que sim sem soltar os olhos da estrada. Mais nada foi dito até que se abriu o portão da garagem da casa dos Lobo. E depois também, provavelmente, pouco mais. - “Dorme bem maninho.” - subiu.
Pedro fecha a porta do quarto. Atira o casaco sobre a cama, tira a gravata e deixa-se cair ele próprio, deitado na perpendicular ao edredão, a decifrar quimeras no tecto. Sabe que não pode fechar os olhos para que o sangue não lhe invada o imaginário. O pavor do sangue. Desde a tenra idade, em que rachara a testa na bancada da cozinha e sentira o sangue correr-lhe o rosto e pingar-lhe nas mãos. Depois o apagão dos sentidos. Crê que tenha vindo daí a fobia. Ainda hoje sequer o pensamento desse mar de vermelho vivo lhe traz o entibecimento dos sentidos. Sente-se mareado, como se vogasse a tempestade em si. É inexplicável, fóbico e absolutamente incontrolável. Já o vira em filmes, na ficção e em documentários. Mas a realidade daquela noite ultrapassava tudo. A linguagem dramática traduz a violência em câmera lenta dramática. Mas não é nada assim, agora sabe-o. Foi uma fracção de segundos entre que viu o russo assomar entre a multidão, erguer o braço e o loiro cair como um boneco de trapo e tingir-se o chão daquele sangue espesso. É tudo muito rápido, muito frio. O acto de matar não o estremece. Impressionou-o sobretudo aquela cabeça prostrada na pedra, deformada, com os ossos partidos de um lado e do outro. Isso sim, é brutal e revolve-lhe as entranhas desde o momento em que o testemunhou. Abana a cabeça para espantar as ideias. O corpo ergue-se num espasmo de resolução e procura a guitarra encostada a um canto. Toma-a no colo e deixa chorar as notas ténues de dedos gentis às cordas da Cavatina. A vibração metálica dos bordões ecoa nas ideias. Na noite e no cérebro cansado de sono e vodka, cada nota tangida vibra amplificada nos tímpanos de Pedro. Olha a moldura sobre a mesa-de-cabeceira. Sara abraça-o num beijo de olhos cerrados. A música perdeu novamente o sentido e morre a meio. A viola permanece acarinhada ao colo mas calou-se. Devia vestir o pijama e tentar dormir.

“Pedro…” - “Mãe? Entra.” - Sofia entra no quarto, aconchega o robe ao corpo e senta-se na cadeira, com as mãos apoiadas sobre os joelhos.” - “Vieram cedo…” - “Nem sabes…” – Pousa a guitarra – “Mataram um rapaz a tiro no Lux” - “Meu Deus! As brigas da noite, Pedro...” – Pedro levanta os olhos. Hesita. Depois desabafa - “Não foi uma briga qualquer, mãe. Eu vi. Conheço a cara do homem que disparou. Aquilo não era uma briga de copos ou de gajas ou do que quer que fosse. Aquele desgraçado foi executado. O gajo chegou, disparou e foi-se embora. Acho que estava lá desde o início só para isso.” – Sofia penteia o cabelo negro em que assoma o grisalho e levanta as sobrancelhas em máscara de surpresa. Tira do bolso do robe um isqueiro de prata e acende um cigarro. – “Pensei que ias reduzir…” – “ Escuta, e sobre a carta?” – Sofia ergue uma sobrancelha indagativa. - “Falei com o Hugo que fez uns telefonemas. Não gostei da resposta. Contaste alguma coisa ao pai?” - “Por ora deixemo-lo de fora. Se o envolvemos deixa de ser um problema, passa a ser uma guerra, bem sabes…” – “Olha, o Hugo perguntou-me até que ponto confiava na Sara.” - “Na Sara?!” – os olhos de Sofia arregalam-se de novo, agora mais drásticos, que o sono se desvanece das suas pálpebras, agitada que está a sua razão pela confeição inusitada dos factos que o filho agora lhe trás - “Na Sara. Não me explicou exactamente porquê. E eu não sei em que pensar. Tenho a cabeça em água, mãe. Tu sabes que me exijo racionalidade. E bem sabes o quão amo a Sara. O que é que tu achas disto tudo?” – Sofia aspira o fumo, e medita sobre a interrogação do filho - “Credo, filho. Não…  …eu nem quero pensar em semelhante coisa. Olho para a Sara como se fosse minha filha. Francamente não vejo o que ela possa ter a ver com isto, seja lá o que for que se está a passar. Mas o que é que ele disse?” – “Quase nada. Marcámos encontrarmo-nos amanhã no escritório.” – “Então agora vê se descansas… … e abre uma frechinha de janela que a tua mãe viciada te conspurcou o quarto de fumo” – Sofia sorri e sai.
Uma carta resgatada do correio na tarde de 30. Banco Internacional de Comércio e Indústria, Departamento de Cobrança Contenciosa. Sofia era intimada ao pagamento de prestações em dívida a ascender aos mil e quinhentos Euros de uma dívida total de vinte e cinco mil! Pedro que abrira a carta estranhou o teor mas não se alarmou de imediato. Não estava completamente a par dos assuntos bancários dos pais. - “Mãe, tens um empréstimo no B.I.C.I.?” – “Empréstimo? Não” – a mãe respondia-lhe do escritório, atenção mitigada entre a pergunta do filho, o cigarro que repousava no pequeno cinzeiro dourado e as linhas da sua pena que emergiam frenéticas no ecrã do computador portátil. A primeira pergunta não lhe despertara grandemente a curiosidade. Ler a carta que o filho lhe colocava sobre o teclado já muito mais a admiraria. - “Olha lá, esse não é o banco da mãe da Sara?” - Pedro meneava a cabeça em que sim. – “Liga para lá. Pode ser que tenha a ver com o vosso empréstimo da casa. E no entanto não deixa de ser estranho. O empréstimo não está aprovado…” - “Sim mãe, não tem qualquer lógica. E vocês são fiadores e, em todo o caso, não só não há prestações em dívida de um contrato que ainda não existe como o valor total não tem nada a ver” - num movimento de irritação a ponta dos dedos fazem deslizar a folha sobre o tampo de madeira da secretária. - “Liga à Sara. A mãe dela talvez possa ver do que se trata.”.
Mas a Dona Marília não sabia de nada. Sara acedera contrariada a perguntar à mãe. Ela andava doente, não a queria estar sempre a incomodar. Ligasse para o Banco. Pedro irava-se. Era o que faria se ainda fosse hora para tal! Era só uma pergunta. Nem se pedia uma resposta definitiva. Se poderia ter a ver com o processo de empréstimo e, caso contrário, o que poderia ser aquela suposta dívida que não batia certo com absolutamente nada. Irritava-lhe este proteccionismo de Sara com a mãe. A mãe estava sempre acima de tudo. Afinal, uma alegação de uma dívida avultada que não tinha razão de existir parecia-lhe motivo suficiente para que se perturbasse o descanso pós-laboral da Dona Marília. Ela própria decerto concordaria. Só a namorada parecia não entender isso, na sua relação venerativa semi-absurda para com a mãe. Mas por fim acedia. Sara pedia um minuto e a sua voz regressava passados que eram vários. – “Estou? Olha, falei com a minha mãe. Ela diz que amanhã não vai trabalhar mas que depois do Ano-Novo ela confirma isso. Mas que não deve ser nada. Um erro, provavelmente. Como temos o processo da compra da casa a correr, alguém trocou as mãos com o processo de outro cliente qualquer. Diz à tua mãe que não se preocupe. Ela vai resolver tudo. Deite a carta fora.”.
Nessa noite, confortado pela explicação, quedara-se tranquilo. Sobrava só a irritação para com a namorada. Aceitara transferir todos os seus assuntos para aquele Banco porque lhe pareceu conveniente que assim fosse. Afinal, a Dona Marília como gerente do seu contrato seria uma comodidade, alguém próximo, praticamente família, em quem pudesse confiar para lhe gerir a odiosa burocracia das contas. E assim fizera. Sobretudo agora que o casamento se aproximava, com a compra da casa, tudo se demonstrara especialmente confortável. Mas o “senão” era este: Sara reconhecia-lhe menos direitos a pedir um favor à mãe do que um cliente comum fosse. A mãe era tudo, a gigante que a protegia e a fragilidade que não se permitia que alguém violasse. E isso incluía que num almoço domingueiro Pedro perguntasse o que quer que fosse sobre o Banco. Sara ralharia assim que estivessem a sós - “Pedro, bem sabes como a minha mãe anda fatigada. Não lhe fales de trabalho!” - E por isso Pedro começava a duvidar se teria feito uma escolha sensata. E sobretudo, questão mais premente, exasperava-lhe a proximidade da relação entre mãe e filha. Amava uma e francamente simpatizava com a outra, mulher de trato gentil e que o tratava carinhosamente como o “projecto de genro”. Mas o certo é que o casamento com Sara já se antevia no horizonte do seu calendário e temia aquela intimidade que, sentia-o, ameaçava um certo espaço conjugal que ansiava ter com a companheira. E agora esta charada da carta. E a desconfiança de Hugo a pesar sobre a namorada. Um erro. Seria provavelmente um equívoco. Sara era a menina dos seus olhos. Nunca o trairia, muito menos a esse ponto. Roubar-lhe o que quer que fosse, de que forma fosse? Nunca! A sua racionalidade conceberia que o amor se esvaísse. Que um desejo um dia levasse ao pesadelo da traição, do abandono. Mas do espectro dos pecados e da humanidade de Sara, tal coisa não poderia fazer parte. Bastava recordar os seus olhos e a forma como se pendurava no seu pescoço, a mendigar-lhe um beijo. Ainda naquela noite! Sara era uma alma ímpar. E Pedro amava-a do fundo do seu coração. Mesmo depois de todos aqueles anos. O amor que os unia não era como os outros. Era o amor genuíno e cheio das imagens que lhe enchiam a vida e os sonhos em que ora mergulhava. Era por isso que, mesmo que com a sombra de uma carta enigmática sobre si, Pedro adormecia nessa noite num sono tranquilo que transparecia no seu semblante. Amanhã seria o último dia de 2003. Em Julho casaria com o seu amor de sempre. Há certezas que impedem o Mundo de ruir e soletram uma palavra chamada Felicidade.


o medo do destino que diminui o que é pequeno
o medo do que se desconhece em alguém de que se conhece tanto
o medo de partir, de ousar ou de mostrar outro caminho

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