O sistema de som cambia o som de alta fidelidade do cd pelo chamamento roufenho de toque de telemóvel. À distância de quatro, cinco toques, uma voz masculina atende do outro lado – “Álvaro, então, meu velho?” - “Estou, Sá, olha vou a sair de Leiria. Bater umas bolas, jantar, beber um copo, que me dizes?” – o outro ri-se e riposta que sim. E por isso as chamadas seguintes são para “A Doca do Peixe” e para que Sofia saiba que não jantará e chegará tarde.
Luísa franqueia a porta e espreita António que lhe sorri. Ela riposta-lhe ríspida, sem lhe mostrar os dentes - “Os meus pasteis-de-nata?” – E o marido dá uma gargalhada e exibe o embrulho. Luisa desmancha-se no seu sorriso franco, que lhe embrulha os pés de galinha à cabeceira do olhar - “Oh César, o gajo lembrou-se! Abre o champanhe.”.
“Ganhaste-me, sacana.” – Francisco levanta os olhos do chão de traves finas e espaçadas de madeira. Rosto vermelho, afogueado, transpira bagas gordas de suor. Sentado, curvado sobre si mesmo, sorri para o velho amigo. Depois deixa cair o corpo para trás, a sentir o calor do inferno da sauna lamber-lhe o rosto – “Foda-se, sabe beeeeem.” – fecha os olhos – “Que horas serão?” - “Prái sete.” – “Marquei às oito e meia na Doca do Peixe” – Sá abana a cabeça e sorri – “Estavas confiante...” – Álvaro retribui, enquanto que com a mão em para-brisa limpe a transpiração que lhe banha a testa – “Sim, hoje acordei e pensei - “Hoje vou comer peixe fresco à conta do Sá” – “Olha lá, e a tua amiga?” – “Qual?” – “Aquela gaja boa, a médica.” – “Foi a andar. Já me andava a moer o juízo. Para isso já tenho a Sofia, muito obrigado.” - “Qualquer dia...” – “Não... ... a Sofia não me quer apanhar. Nem sei se sabe ou se não sabe ou se não quer saber. Suponho que depois de três ultimatos nem respeitados por um nem consumados pelo outro já não haja nada a fazer, senão não saber. É a Natureza das coisas. E eu e a Sofia temos as nossas naturezas e cada um segue a sua. Ela tem as suas melancolias e os seus livros e os seus amigos intelectuais. E eu tenho as coisas que me dão gozo. Mulheres bonitas, Mercedes e o peixe. Que pagas tu, claro. Poderá um gajo ser mais feliz, do que com as gajas e os carros e um amigalhaço que não saiba jogar squash e que pague sempre a conta?” – Sá leva um gole de água à boca. Provavelmente não, provavelmente não mesmo – “Olha lá e a tua estagiária?” – “Epá, está calado, está tão, mas tão, tão, tão boa. Foda-se, venho-me só de olhar para a mulher! Ca par da tetas...” – Álvaro não pode evitar uma gargalhada. Tudo na boca do bom do Francisco Sá tem um je ne sais quoi de humor e de alegre deboche. Se forem mulheres é matemática. O Sá é um tarado e congratula-se de o ser, além de que parece que está a refinar com a idade. Como ele próprio gosta de dizer - “A minha ex-mulher diz que estou na parvoíce da andropausa. Mas é uma infâmia! Eu refinei com a andropausa, meus senhores! E o trabalho de anos, não conta?” - por isso é preciso que se faça justiça e que se perceba que o Sá não é um gajo meio perdido porque acabou de se espalhar para lá da barreira psicológica dos cinquenta anos. Não, o Dr. Francisco Sá, com domicílio profissional no 4 – 3º da Rua Rodrigo da Fonseca em Lisboa é, meus senhores, um perfeito, evoluído e refinado debochado no capítulo do belo sexo – “O teu filho é que podia comer aquilo. Mas se o estagiário é verdinho, o patrono mostra como é.” – “Deixa lá o Pedro com a sua namoradita...” – “Verdinho” – pensa Álvaro. Há anos que não ouvia essa expressão. Ou pelo menos há anos que não a referenciava, assim, como agora – “O puto gosta mesmo da míuda dele, não gosta?” – Sim, era verdade, o filho adorava a namorada – “E vais riscar mais uma estagiária na coronha, ou nem por isso...?” – “Se vou... ... vamos para a ducha?” – Álvaro assente que sim e os dois homens saem nus daquela caixinhola de madeira – “Olha, sabes que mais, estamos a ficar velhos. No outro dia surpreendi-me. Não queres lá ver que a grande cabra olha para mim como, tipo, “Avôzinho, ganha juízo”. Garanto-to!” – A água quente jorra dos chuveiros na parede e por momentos instala-se o silêncio, ambos os homens de olhos cerrados a deixarem-se embalar pelas agulhas de água fria no contraste da pele em ebulição – “Epá, mas é como te digo. A fulaninha é que nem sequer se sente lisongeada, nem ameaçada! Mas tu já viste a decadência de um sujeito? Estamos a perder qualidades, é o que te digo!” - Álvaro sorri, enquanto deixa que o cabelo se emaranhe numa peruca espumosa e branca de shampoo – “Estás. Tu estás. Cada um fala por si. E depois, há que ter calma! Eh, Xico, xiça, a míuda não te viu graça! Por morrer uma andorinha não acaba a Primavera! Que diabo, julgavas-te irresistível?” – O outro esfrega a pança luzidia com sabonete – “Pois eu te digo que a necessidade das prendas e das passeatas foi apenas o início do fim. Em breve teremos que as embebedar primeiro e o dia há-de chegar em que, tu e eu, meu amigo, só pagando. E por falar nisso, hoje temos festa?”
Please allow me to introduce myself
Im a man of wealth and taste
“A tua mãe não devia ter direito aos pastéis...” – “Cala-te!” – Luísa empurra o marido num chega para lá carinhoso. – César ri-se – “Eu por mim aprovo e como os dela.” – “Tu não tens voto na matéria, oh chavalo. Cá em casa só votam os gajos que não usam tachas. Pareces os novilhos lá do pasto!” – “Deixa o rapaz em paz, Tó. Que chato!” – “E não parece? Se calhar não parece? Muuuuu!” – e coloca os dedos em forma de chifres a roçar a testa, provocando o filho sorridente, mais o seu piercing na orelha. – “Tu estás muito bem humorado!” – “Ora se estou. Oh míudo, hoje dou-te dez tostões para ires comprar pastilhas, que eu e a tua mãe precisamos de ter um tête-a-tête, cá a sós.” – Luísa revira os olhos – “Lérias... ... o teu pai é só garganta...” – “Epá, vocês poupem-me a imaginar coisas tristes...” – os pais riem – “Olha-me este fedelho...” – “Mas conta lá, e esse almoço?! Ainda não falaste disso. Foi giro?” – “António arregala as sobrancelhas num momento de ponderação de “se foi giro...?” – “Foi giro? Foi. Muita velha memória, Luísa. Alguma coisa boa, muita coisa má. A gente fala mais das coisas boas, claro. Mas as más estão lá, a gente não diz, mas sabe. E olha” – António como que desperta de um mergulho que quase dava nas memórias – “Lembras-te de te falar do Álvaro, o meu velho camarada? Pois bem! Epá, gostei mesmo de o ver! Está bem, a vida correu-lhe bem, é um senhor. Casou com a Sofia Pizarro, a escritora, ela mesmo, vê lá tu! Aquele gajo! Depois destes anos todos. Soube-me mesmo bem apertar aqueles ossos.” – “Esse Álvaro marcou-te muito, não foi?” – “Foi... ... fizémos a recruta juntos e acabámos por ter ambos guia de marcha para o mesmo chiqueiro. E lá fomos colocados na mesma Companhia e no mesmo Grupo. Os dois verdinhos, como nos passaram a chamar, no meio de uma data de gajos embrutecidos pela guerra. E foi isso que sempre admirei nele. Nunca se tornou naquilo. Foi sempre teso. Mas está ali um gajo que não merece ter pesadelos com orelhas cortadas... ... enfim, já estou a dizer disparates. É do vinho!” – Luísa acende um cigarro – “Que horror, Tó. Orelhas?! Nunca falaste disso...” – rosto em careta desconfortável e António puxa-lhe a cabeça a repousar no seu ombro enquanto acaricia os longos cabelos grisalhos da professora de Química. - “ Luísa... Há coisas que é melhor que fiquem lá. Já que tiveram que suceder, que fiquem lá, que não nos persigam. É como dizia hoje o Capitão Velez. Puxavam-se os rapazes para os limites. Era a guerra. Mas olha...” – e segura-lhe no rosto para que se olhem, olhos nos olhos. Ela cede e fica à espera, olhos súbditos de cordeiro. - “O teu Tó não é um monstro. Nunca foi. As mulheres violadas, as torturas, as orelhas... ... eu não sou isso. Fiz o que pude para salvar a pele e fiz o que me exigiram que fizesse. Nada mais. Sabes, não sabes?” - Ela acena que sim – “Sei, Tó. Eu sei que não.” – e beija-lhe os lábios.
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