quarta-feira, 5 de setembro de 2012

No regaço do Santo - A Guilda dos Melancólicos - A Senda de Luna - Parte VI - O regaço do Santo

Sempre faltara algo: o amor. O amor é mais do que a embriaguês dos sentidos. Desse estadio de consciência sabia bem Luna. Mas o amor seria mais: absoluto, sem reservas, o amor seria a própria embriaguês da alma. Talvez fosse por isso que para lá das festas que enchiam de vozes o apartamento do 27 na Rue des Martyres, Luna se sentia só. Uma solidão diferente da que a acompanhava desde criança, amputada pela morte da mãe e pela obsessão da carreira diplomática do pai. Essa, uma vez ganha a dimensão de que a sua estrada era solitária, passou a ser um estado de espírito, algo que não era doloroso mas simplesmente introspectivo. Mas esta solidão que agora se desenhava dentro de si era uma lacuna. E de dia para dia crescia a convicção de que essa lacuna se chamava amor. Quem diria, a Sul americana desvairada, “La pûte” era intimamente uma romântica. Porventura a mais fundamentalista de todas. Há muitas maneiras de ser romântico. Crer em príncipes e princesas, ou em velas e vinho tinto. Mas ela duvidava dessas fórmulas. “Amor não é nada disso, amor é comunhão, é diluir-me em ti”, pensava enquanto as mãos afagavam o barro. Claro que tudo isto era teórico porque nunca amara nenhum dos homens que o seu corpo conhecera, mais do que a uma das suas fotografias.

Mas João tinha sido amado com devoção. Não era mais uma tela para que pintasse a sua vida, era o companheiro que inspirava todas as telas e o abraço que a apertava para que tivesse saudades do hábito de morder um nariz. Acabava a idade da embriaguez dos sentidos e nas águas furtadas da Graça bebia-se vinho doce num brinde a dois. Permanecia fiel a si mesma, à sua excentricidade, ao seu exoterismo, à sua arte e à sua colecção de velas, e santos, e incensos e pedras de sorte. Luna não deixava de ser a filha de Natália e a filha de Iemanjá. Mas doravante a tela da vida tinha a moldura de João e as paredes já não se pintavam de solidão.
Agora enquanto sorvia o chá e os olhos líquidos se cerravam numa recordação, pensava nos prodígios que o acaso encerra em si. Umas férias em Lisboa para a eternizar na sua lente, isto pelas calendas soalheiras do Junho e do Verão português. Noite de doze de Junho, última dessas curtas férias. A noite de Santo António de que lhe falava o pai por vezes. “O Carnaval de Verão do povo de Lisboa”, gracejava Caio. E por isso Luna indagara direcções na recepção do Ibis e saíra à caça das imagens dessa noite ex-libris da cidade. Não era longe, descer a Avenida da Liberdade até à Baixa e a partir daí todas as ruelas iriam dar à festa, na direcção dos bairros antigos em que a traça pombalina se mesclava na antiguidade mourisca. Achara graça a isso naquela cidade. Uma metrópole europeia em miniatura que podia calcorrear de uma ponta à outra. E lá foi, ao fim da tarde do céu encarniçado de azul e rosa, misturar-se com o formigueiro invulgarmente denso de gente que descia às ruas. A Avenida larga, vedada ao trânsito, com as bancadas improvisadas às margens dos jardins e os projectores de luz gigantes colocados ao longo da calçada a descer para o Tejo. Era notoriamente um acontecimento na cidade. Luna imaginara algo como uma quermese, não sabia bem o que imaginara. Mas nada lhe faria adivinhar as sensações que teria nessa noite. Caminhar emersa na multidão. Os grupos de gente heterogénea, o turbilhão das vozes e dos risos, as marchas de gente vestida de colorido, as bancas de cervejas e bifanas e sardinhas em cada porta das ruas dos bairros centenários, tudo meio atamancado, improvisado para servir a festa, enfeites coloridos a fazer a ponte entre as ruas estreitas, unidas por arcos em que ora se emergia na sombra, ora se iluminavam as luzes coloridas, os bailes em cada praça que emboscavam o desaguar incauto das vielas do labirinto dos medievais bairros mouriscos. Gente a dançar, os embriagados, os novos, os velhos. Nas narinas de Luna uma mescla de odor quente desse ar de Verão com cerveja, vinho e o carvão empregnado do travo à bifana e à sardinha. O som mecânico da Nikon disparava em todas as direcções. A brasileira apenas bebera uma imperial de um tasco de Alfama ao acaso mas a fotógrafa estava embriagada com o colorido da festa. Como se não fizesse realmente parte desta mas fosse recompensada dessa pertença amputada com o dom de a contemplar.Foi caminhando, ao acaso, desnorteada do Norte do seu regresso ao Hotel. Foi aí que Lisboa deixou de ser interregno de férias e se desdobrou em destino. Quando a calçada a levou aos pés do seu Santo António, feito estátua na praça da velha Sé. Os Lisboetas atiravam moedas ao Padroeiro, rodeado por uma cintura de círios que lhe douravam as faces de bronze e acendiam mais aquele canto da festa. Alguém lhe explicou que se pedia amor. Penhor por favores de amor que o Santo cumpriria. Se a moeda ficasse em cima da estátua, depositada sobre o livro que as mãos do Santo seguravam aberto, era bom augúrio. Luna lavrou uma moeda do bolso dos jeans e lançou a sua sorte. A moeda ressaltou numa maçã do rosto metálico do santo, rolou em sobressalto daí abaixo, até se precipitar, a cair sobre o livro,em escorrega. Os olhos de Luna na moeda. Até que se esta se quedou à beira da página. Respiração que se sustém, espera de que caia. Mas não, os cinquenta cêntimos de Luna agarravam-se ao vaticínio de amor. Aquele instante cristalizou-se. Luna ficou imóvel, sem dizer uma palavra, abismada com a sensação de revelação que lhe percorria as veias. O Santo António, o Santo da sua devoção, a quem a mãe encomendava sempre o calor que um dia enchesse o coração da Bolacha. “Home is where your heart is” - lera algures, há muito tempo. Chamassem-lhe doida, o que bem quisessem, mas ela iria morar no regaço do Santo e encomendar-lhe o amor. Foi assim que Luna se divorciou de Paris e se enamorou de Lisboa e do seu Santo Padroeiro.


Esperando pela Noite de Lua Cheia, arranje uma bacia cheia de água e coloca dentro a foto da pessoa que ama.Na manhã seguinte, pegue na foto e com uma caneta azul, faça uma seta em cada canto, sendo que fiquem voltadas para o centro. Ande sempre com a foto na carteira.

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