sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Princípio de fim - A Guilda dos Melancólicos - As horas brancas de Pedro - Parte I


Cerra os olhos enquanto deixa o corpo repousar na parede. As luzes da ambulância afastam-se velozes, pode senti-lo para lá das suas pálpebras. De pouco adianta não querer ver. Não consegue abacinar o que trás fresco na sua memória. Quando se amansarem as luzes azuis da sirene ficará ainda assim aquele clarão branco no azul e a brutalidade daquele crânio estilhaçado. Agora mesmo que pensa nisso se lhe revolve de novo o estômago num vómito seco. Curva-se sobre si numa tontura. Já passou. A mão trémula acende um cigarro. Sente uma mão que lhe afaga o rosto - “Amor…?” - “Sara. Estás bem?” - “Sim, arranja-me um.” - numa situação normal caturraria em que não, que não gosta que a namorada fume. Mas há menos de duas horas vira um homem morrer a dois metros de si, baleado na cabeça. E agora Sara, com a pele pálida e o top luzidio polvilhado de gotículas desse sangue que sujou todos em redor, pede-lhe um cigarro. Não, definitivamente esta não é uma situação normal - “Não paro de o ver. E de cada vez sinto o estômago na boca. Quer dizer, eu já não tenho mais o que vomitar. Fico tonto. Só vejo aqu…” - “Pssiuuu… já passou. Senta-te um bocadinho.” - Vai a beijá-lo mas o rosto do namorado esquiva-se-lhe. - “Estás toda suja e eu acabei de vomitar...” - sorriso com as sobrancelhas em careta desconcertada. - “Vamos para minha casa. Tomamos um banho quente, faço um chá, comes uma torrada e vamos todos dormir.” - Queria dizer que sim. Queria mesmo dizer que sim. Nunca ninguém lhe soubera afagar o corpo e a mente como Sara. Aquecer-lhe o ânimo com o vapor da Lúcia Lima. Massajar-lhe os pés em água quente. Acariciar-lhe o rosto enquanto os seus dedos esguios lhe navegassem o cabelo. Paciente, terna, até que Pedro adormecesse, feliz, com a cabeça repousada sobre o peito nu da amante. Era tudo o que desejava, que ela o ajudasse a fugir da sua visão de morte. Mas hoje havia mais um espinho que se lhe cravava na carne. Por um momento se esquecera dele. Pelo menos não o consciencializara, com as ideias absorvidas na convulsão do momento. Só a inquietação que lhe fazia tremer o corpo, como sempre que se enervava, resquício semi-consciente daquelas palavras e daquele telefonema. O que é que Sara teria a ver com toda aquela trapalhada? Primeiro pensara que tudo não passasse disso mesmo, uma grande trapalhada, um erro. Mas agora Hugo e o seu ar de caso - “Pedrinho, não tenho boas notícias, pá. Olha, amanhã encontramo-nos no escritório às três. Precisamos mesmo de falar.” - Irritava-o imenso que não lhe quisesse dizer o que era - “Foda-se! Até que ponto confiava em Sara? Mas o que é que a namorada tinha a ver com aquela maldita carta?! Uma grande desilusão?” - Não saber o que pensar... .desconcerto absoluto. Confiava absolutamente em Sara. E Hugo era, não contando com o irmão, o seu mais querido amigo. E amigo de Sara! Sempre adorara Sara. Porquê isto? O que é que Sara tinha a ver com aquilo tudo? Hugo não o dissera. Ficara a insinuação de algo muito grave. Um cheque em branco que lhe inquinara a paz e que lhe fazia pesar a consciência de estar ali desconfiado, aterrorizado com mil hipóteses que lhe afloravam ao espírito, sem que uma só lhe parecesse verosímil. Tinha que fugir dali, daquela morte e de Sara. E sobretudo esperar que o relógio batesse célere nas três horas da tarde, antes que a ansiedade o consumisse. - “Não, pequenina, vou para casa.” - “Tu estás nervoso, não vais pegar no carro.” - “Eu sei, o meu irmão conduz. Fico bem, a sério” - O corpo esquiva-se-lhe. – “Passa-se algo. Sinto-o. Pedro…” – Um momento de indecisão e depois a pergunta saiu à queima-roupa, com a incerteza inadiável de quem sabe que não a fará se deixar fugir aquele instante de coragem - “Já to tinha dito, a carta que a minha mãe recebeu do banco, a exigir uma dívida. Do B.I.C.I… … sabes alguma coisa sobre isso?” - Expressão de espanto e estranheza no rosto da namorada - “Se sei alguma coisa sobre isso? Mas como queres tu que… … olha lá, não terá a ver com o empréstimo da casa?” - “Não sei Sara…” - “Deixa lá, eu falo do assunto à minha mãe e ela pode ver isso no Banco depois de amanhã.” – aquela profunda tranquilidade nas palavras! Sara não lhe mentiria e se o fizesse não o saberia fazer tão bem, com aquela transparência, sem um trejeito de inquietação. Perplexidade! Desconfiança e peso no coração por sobrar esta dúvida dentro de si. –“O Eduardo e a Filipa já ali vêm. Vamos?”


- Confias em mim?
- Totalmente.
- Então deixa-me vendar-te os olhos


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