O nome dado à categoria angelical da qual Deus mais se utiliza para fazer milagres, fazendo com que a humanidade evolua, através de experimentos e experiências de vida
O edifício da Polícia Judiciária, na Avenida Gomes Freire, tem as entranhas desenhadas numa escada de caracol em espiral larga que desemboca nos andares e nas portas do velho prédio, em que a pedra de tons claros confere à luz uma tonalidade tranquila. A atmosfera é efectivamente calma e os corredores dir-se-iam vazios de vida, se por vezes não vissemos alguém sair ou entrar uma porta. Uma mulher atarefada que assoma a abraçar uma resma de documentos descabelados fora da ordem dirige o olhar indagativo a Pedro - “Sim? Procura...?” – o rapaz aponta o seu distintivo de visitante agrafado à aba húmida do casaco - “Inspector Alcides, fui notificado par...” - “Ah, sim, aguarde um instante, o Sr. Inspector já o chama. Como se chama?” - Pedro identifica-se e a mulher comunica a sua chegada para lá da porta cinzenta. Depois desce as escadas, para que a tamancada na pedra dos degraus interrompa o silêncio, rabo gordo a badanar nas calças ruças. Pedro aguardará então. Fisionomia fechada. Elementarmente tristonha. Agora enfadada. Abomina as esperas e esta já se arrastou ao ponto em que o algum nervosismo esmoreça para ser sobretudo impaciência, saturação. Aquelas notificações, a si e à mãe, para prestarem depoimento, primeiro espantaram-no. Mas reflectindo alguns instantes a surpresa dava lugar ao sentimento de evidência em corusco. Contas feitas, espantoso seria que o assunto morresse por ali. A guerra estava provavelmente apenas a começar e não haveria machado que pudesse cortar, assim, por dá cá aquela palha, as amarras que o ligavam, a si e aos seus, a toda aquela estória. Por certo que não: as consequências desfiadas do novelo sujo lacerariam ainda até, saber-se-ia lá quando. A porta abre novamente e uma cabeça grisalha assoma - “Pedro Henrique Pizarro Lobo?” - “Sou eu.” - o polícia faz-lhe sinal para que entre – “Inspector Alcides...?” - o outro acena que não e e um gesto indicativo aponta para o homem avantajado que, de costas para a porta, contempla a chuva que fustiga lá fora. Pedro dirige-lhe uma saudação e o homem vira-se, como se sacudido das suas meditações, embaladas pela chuva - “Sr. Pedro Henrique... ... mas sente-se, sente-se! Desculpe ter-lo feito esperar.” - Pedro e o Polícia tomam os seus lugares nos lados opostos do tampo da secretária. Alcides é um homem grande. Pode-se dizer que é gordo. Pelo menos é um homem grande a quem escapou uma pança, que a camisa azul, demasiado justa, não disfarça. Jeans coçados, cabeleira desgrenhada de preto, onde assoma algum grisalho, rosto cansado, e pelo, muito pelo, que lhe sai por onde quer que o tecido permita, nos braços de mangas arregaçadas e no último botão aberto no peito - “Sabe porque aqui está?” – Pedro cruza a perna e aconchega a gabardina desmazelada ao colo – “Sim, suponho que sim.” – sorri, um sorriso que transmite ironia, cansaço e graça pura e simples, sem que as coisas pareçam sequer incompatíveis ao inspector da Judiciária. O inquiridor olha para as folhas e fala do que Pedro já sabe. De uma queixa-crime de uma instituição bancária contra uma ex-funcionária por uma livrança falsificada – “Sabe alguma coisa destes factos?” - a pergunta é quase aborrecida, como se não esperasse realmente levar dali o que quer que fosse que se aproveitasse. Todo o rosto do Polícia parece descaído, desde as olheiras em papo às bochechas e ao lábio que parece que se pronuncia num beiço de míudo fedúcio. Pedro abana a cabeça em negação e olha-o de sobrancelhas levantadas e lábios franzidos em desdém pela hipótese - “Mas não sabe de nada? Desconhece a existência destas livranças?” - Pedro parece finalmente despertar da sua meia apatia. Endireita-se no espaldar da cadeira e depois inclina o corpo mais sobre a secretária do inspector: - “Eu as livranças conheço. Sei que existe uma em que a assinatura da minha mãe é falsificada, uma em meu nome que nem assinatura tem...” - “Uma em seu nome? “ – “Que provavelmente nem está no vosso processo, não é?” - o rapaz sorri e Alcides pressente uma ponta de gozo naquela forma descomplexada de lhe insinuar que sabe mais do que ele – “Então, Senhor Pedro, afinal o que é que sabe? Diz-me que desconhece o assunto e no entanto fala-me de livranças. Por que via as conhece?” - “Mostrou-mas o Departamento Jurídico do Banco, a mim e ao meu pai. Fomos nós que revelámos a falsificação da assinatura. Aliás, basta comparar a genuína com a forjada para que não restem dúvidas. Depois nada mais sei. Parece-me que é um problema entre o Banco e a sua funcionária...” - O polícia coça a barba que lhe metaliza o rosto e reflecte com os olhos no tecto. – “Comecemos então por outro lado. Que relação então é que os liga, o senhor e a sua mãe , à queixosa e a esta Marília Reis?” - “Pensei que soubesse... ... enfim, a Dona Marília Reis é mãe da minha ex-namorada e era a minha gestora de conta no Balcão de Algés do B.I.C.I.. e ...” – “A sua ex-namorada? Sara Reis, portanto...?” – “Sim, de resto a minha relação com a livrança, aliás com as livranças não deveria ser nenhuma. Nunca tive conhecimento ou envolvimento em tal. Quanto à minha mãe, a única relação que tem com os factos e as pessoas é um conhecimento absolutamente superficial da mãe da Sara e, enfim, o facto de ser garante do empréstimo de compra de casa que estaria em curso.” - Alcides olha o vazio e esse olhar, mais as sobrancelhas que se franzem em dúvida explicam a Pedro que tenta dar um sentido a toda aquela estória. - “Então não sabe porque via as livranças existem...? Quem as assinou. Não foi o senhor, e supõe que não tenha sido a sua mãe.” – Pedro sorri, e assoma mais ao lado de lá da secretária do polícia, cotovelos agora assentes sobre a mesa - “Olhe, senhor Inspector, isto assim nunca mais nos despachamos. Eu não tenho motivos para jogos de gato e de rato. Nesta estória já perdi o que tinha a perder. Por isso em vez de me fazer perguntas, deixe que lhe conte o que sei sobre todo este caso. O demais, escusa de perguntar. Não sei. Francamente também não quero saber. Parece-lhe bem?” – O homenzarrão peludo olha Pedro. Está surpreso, com efeito. Com a cabeça acena que sim: - “Bom, senhor Pedro, vamos lá então... – e Pedro conta a sua estória. Fala rápido, sem hesitações, como se cada palavra fosse um argumento definitivo ao qual não admita dúvidas, sejam elas da Polícia Judiciária, do B.I.C.I, de Deus ou do Diabo. E conta como os documentos entregues para empréstimo habitação foram utilizados para forjar um empréstimo e um aval, e da carta que receberia meses mais tarde: Sofia Pizarro, interpelada para pagamento da dívida, e de como o empréstimo-habitação nunca tinha sido sequer levado adiante dentro do banco e do estranho pedido de empréstimo que havia sido formulado ao seu pai, meses antes – “Em resumo, senhor Inspector, perdi o meu empréstimo, e tive, e pelos vistos tenho, que me ralar em justificar ao mundo factos em que sou simples lesado. Quanto a quem armou isto tudo e porquê... ... que lhe posso dizer? As minhas especulações não lhe interessarão grandemente, mas eu faço-as à mesma. Foi a Marília Reis e só ela. A filha e o resto da família nada têm a ver. Por algum motivo que desconheço ela meteu-se nesta grande alhada. Não sei porquê. Terminei a minha relação com a filha. Perdi o contacto com toda essa gente. Por isso o meu único interesse é que não mais me incomodem com estes factos.” – faz uma pausa - “Fui claro?” – Alcides balbucia que sim, que crê que foi – “Vou-lhe pedir o seguinte: enquanto reduzo o seu depoimento a escrito, importa-se de me responder a um teste?” – faz deslizar uma folha sobre a mesa – “Para uma avaliação da sua caligrafia...” - Pedro sorri, um esgar de escárnio – “Sou suspeito, Senhor Inspector? Não me quererá constituir arguido?” – “Não creio que seja francamente necessário. Não quer fazer o teste?” – o rapaz encolhe os ombros – “Por quem é! Farei os testes todos que queira, não tenho nada a esconder.” - e já a atenção se inclina sobre o formulário – “Tem uma caneta?” – o polícia oferece uma bic, enquanto começa a martelar o teclado de um computador de ares obsoletos. Pedro acha-lhe graça, à forma como procura desorientado as letras, fazendo-lhes mira só com dois dedos indicadores, desajeitados à função. Enquanto preenche o teste com a sua letra, quase divertido, olha de soslaio a secretária do outro. Alguns processos amontoados, um cinzeiro cheio de beatas retorcidas, um corta-papel sob a forma de um florete em miniatura, as canetas bic e a caixa das disketes. Pensa para consigo que a Policia Judiciária não dá ares muito diferentes aos de qualquer repartição pública. Olha o pobre Alcides que morde o lábio, enquanto procura o acento circunflexo naquele teclado danado. – “E tu Alcides, meu caro, és um recheio bem a propósito.” - a tecla misteriosa lá se revela e o Alcides ao cabo dos trabalhos termina o seu relatório de inquirição. Lê em voz alta, com o timbre enfadado de padre em casório sem chama. Pedro acha que sim a tudo e assina por baixo.
We might be through with the past, but the past ain't through with us
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